O varejo na Bolsa vive um colapso silencioso. Enquanto o Ibovespa acumula ganhos desde o início de 2023, grandes varejistas listadas na B3 — como Casas Bahia, Magazine Luiza e outras redes — perdem valor de mercado de forma acelerada desde o fim de 2022. A análise é de Marcos Saravalle, CIO Krivo Capital, especialista convidado pela BM&C News, que identificou na combinação entre juros altos, expansão mal dimensionada e concorrência internacional os pilares de uma destruição de valor ampla e estrutural.
O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia é apenas o sintoma mais visível desse processo. Para Saravalle, o setor enfrenta uma tempestade perfeita: o custo de capital disparou, famílias estão mais endividadas, a inadimplência corrói margens e plataformas internacionais avançam sobre participação de mercado. O problema não é o preço, é a previsibilidade.
Expansão na pandemia virou passivo estrutural quando o juro subiu
Segundo Saravalle, muitos projetos de expansão foram desenhados e executados durante a pandemia, quando o custo de capital estava artificialmente baixo e a demanda, inflada por estímulos fiscais. A aposta era que o cenário de juros baixos e consumo aquecido se sustentaria. Não se sustentou.
Com a alta da Selic, o custo de financiamento dos estoques e das operações tornou-se incompatível com a rentabilidade das lojas. Na avaliação do especialista, o que parecia estratégia de crescimento em 2020 e 2021 virou fardo em 2023 e 2024. A economia desacelerou, o crédito ficou caro e o consumidor recuou. As lojas físicas, antes vistas como ativos, viraram passivos.
A inadimplência corrói margens e a concorrência não dá trégua
Saravalle destaca que o aumento da inadimplência tem impacto direto nas vendas e na saúde financeira das varejistas. Famílias endividadas compram menos, parcelam mais e deixam de pagar com maior frequência. O ciclo é vicioso: para manter volume, as redes afrouxam crédito; para proteger margem, encarecem produtos; para competir, queimam caixa.
Ao mesmo tempo, plataformas internacionais avançam com estrutura de custo inferior, sem lojas físicas no Brasil, sem passivo trabalhista pesado e com logística mais eficiente. Para Saravalle, essa combinação amplia a pressão sobre redes tradicionais, que precisam fechar lojas, investir em digital e, ao mesmo tempo, lidar com insegurança jurídica em torno de demissões em massa.
O varejo precisa se transformar, mas o custo da transformação é alto demais
Na leitura de Saravalle, o setor pode se transformar nos próximos anos, mas o caminho exige fechamento de lojas físicas, foco maior no digital e revisão profunda de modelos de negócio. O problema é que essa transição custa caro justamente quando o caixa está apertado e o crédito, escasso. A destruição de valor observada na Bolsa reflete, em parte, a dúvida do mercado sobre a viabilidade dessa travessia.
O especialista avalia ainda se houve exagero nas cotações anteriores — e conclui que sim, mas pondera que o ajuste foi agravado por fatores macroeconômicos que tornaram insustentável o modelo de crescimento adotado. O varejo na Bolsa segue como termômetro de um setor que tenta sobreviver à própria ambição, em um ambiente onde o Excel fecha, mas o caixa é que cobra.
Assista à entrevista completa da BM&C News no link abaixo:

















