O mercado costuma olhar para a Petrobras pelo retrovisor dos dividendos. Eu prefiro começar pelo motor que os produz: o fluxo de caixa. O resultado do segundo trimestre de 2026 reforçou essa leitura. A companhia entregou lucro líquido de R$ 52,4 bilhões, EBITDA ajustado de R$ 93,8 bilhões e fluxo de caixa operacional de R$ 61,8 bilhões. Ao mesmo tempo, aprovou R$ 17,4 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio — acima das minhas expectativas — e manteve uma estrutura de capital administrável. É por isso que continuo recomendando a compra das ações e sua presença em uma carteira diversificada.
O lucro chama a atenção; o caixa confirma a qualidade
Lucro contábil é importante, mas não paga dividendos sozinho. Ele pode ser afetado por câmbio, impairment, efeitos tributários e outros itens sem impacto imediato no caixa. Para avaliar a capacidade econômica de uma empresa, é preciso acompanhar a conversão do resultado operacional em dinheiro.
Nesse ponto, a Petrobras entregou um trimestre muito forte. O fluxo de caixa operacional cresceu 46% em doze meses, para R$ 61,8 bilhões. O desempenho veio acompanhado de recordes operacionais: produção própria de petróleo no Brasil de 2,7 milhões de barris por dia, 15% acima do 2T25, exportações próximas de um milhão de barris por dia e fator de utilização das refinarias de 101%. Não foi apenas um efeito financeiro do petróleo mais caro; houve volume, eficiência e melhor aproveitamento dos ativos.
O EBITDA ajustado de R$ 93,8 bilhões superou o consenso compilado pela Reuters, de R$ 90,1 bilhões. A receita líquida alcançou R$ 169,5 bilhões, também acima da expectativa de R$ 160,4 bilhões. Segundo o Itaú BBA, a principal surpresa veio das receitas de exportação, com preço realizado aproximadamente US$ 4 por barril acima de sua projeção. Para o investidor, isso indica que a companhia conseguiu monetizar bem a combinação de produção elevada e ambiente externo favorável.
Fluxo de caixa livre: a ponte entre operação, investimento e acionista
Uma empresa cria valor quando o caixa gerado pela operação supera, de forma sustentável, os recursos necessários para manter e expandir seus ativos. Essa diferença é o fluxo de caixa livre. No trimestre, a Petrobras reportou R$ 38,6 bilhões nessa métrica. A XP calculou que o fluxo de caixa ao acionista, depois dos ajustes relevantes, atingiu US$ 4,5 bilhões, equivalente a um retorno trimestral de 3,8% sobre o valor de mercado considerado pela casa.
O ponto mais importante é que essa geração ocorreu com investimentos elevados. A companhia investiu R$ 26,7 bilhões, ou US$ 5,3 bilhões, no trimestre; 82% foram direcionados a exploração e produção, incluindo novas unidades de Búzios e projetos que sustentam a curva futura de produção. Dividendos pagos à custa de subinvestimento podem parecer atraentes por algum tempo, mas destroem capacidade produtiva. Neste balanço, a Petrobras mostrou que consegue remunerar o acionista e financiar crescimento simultaneamente.
Estrutura de capital: dívida não é problema quando cabe no caixa
Endividamento deve ser analisado em relação à geração de caixa, ao custo da dívida e ao prazo dos compromissos — nunca de forma isolada. A dívida bruta encerrou junho em US$ 70,8 bilhões, abaixo do teto de US$ 75 bilhões estabelecido no Plano de Negócios 2026–2030. A companhia mantém como referência a convergência para US$ 65 bilhões ao longo do plano.
Na leitura da XP, a dívida líquida financeira, excluídos os arrendamentos, caiu cerca de US$ 3 bilhões no trimestre, para US$ 15,4 bilhões, mesmo após US$ 1,5 bilhão em dividendos pagos. A alavancagem recuou de 1,43 vez para 1,14 vez o EBITDA dos últimos doze meses. Em termos práticos, a empresa ampliou a folga financeira: pode atravessar ciclos menos favoráveis do petróleo, financiar o capex e distribuir caixa sem depender de uma expansão agressiva da dívida.
É preciso apenas evitar uma confusão comum. A dívida líquida total divulgada nas demonstrações, que inclui obrigações de arrendamento, é maior do que a dívida financeira líquida usada por algumas casas. As duas medidas são válidas, mas respondem a perguntas diferentes. A primeira oferece uma visão mais abrangente das obrigações; a segunda ajuda a analisar o endividamento financeiro tradicional. Em ambas, o indicador decisivo é a capacidade de serviço da dívida, e o resultado atual permanece confortável.
Dividendos acima da expectativa — e com base econômica
A Petrobras aprovou R$ 17,4 bilhões em dividendos e JCP, ou aproximadamente R$ 1,35 por ação. O montante superou as estimativas do consenso de mercado. Pelas cotações usadas na análise, isso representou dividend yield trimestral de 3,2% para PETR4 e 2,8% para PETR3. As ações passam a ser negociadas ex-direitos em 24 de agosto, com pagamentos previstos para 23 de novembro e 21 de dezembro de 2026.
O dividendo veio acima das minhas expectativas porque a geração operacional também veio melhor. Essa distinção é essencial. Dividend yield elevado não é, por si só, tese de investimento: pode refletir queda estrutural do negócio, distribuição não recorrente ou uma cotação deprimida por riscos reais. Na Petrobras, a distribuição deste trimestre encontra respaldo em caixa operacional robusto, capex financiado e alavancagem em queda.
Também considero saudável não incorporar dividendos extraordinários como premissa central. O próprio discurso da administração reduz a probabilidade de pagamentos extraordinários em 2026. Minha recomendação não depende deles. Se vierem, serão uma opcionalidade; se não vierem, a tese deve continuar apoiada na política ordinária de remuneração e na geração de caixa.
Por que ainda recomendo compra
Minha visão positiva se apoia em quatro pilares. Primeiro, ativos de classe mundial no pré-sal, com escala e produtividade. Segundo, crescimento de produção que reduz a dependência de apenas um cenário de preço do Brent. Terceiro, capacidade de converter operação em caixa mesmo com capex relevante. Quarto, balanço suficientemente sólido para compatibilizar investimento, dívida e remuneração ao acionista.
A avaliação de outras casas reforça, mas não determina, essa leitura. O Itaú BBA manteve recomendação outperform e preço-alvo de R$ 64, com potencial de valorização próximo de 30% frente à cotação anterior ao resultado. A XP classificou o balanço como acima das expectativas, destacando fluxo de caixa, dividendos e redução da dívida. O consenso positivo importa menos como argumento de autoridade e mais porque ajuda a identificar onde os números surpreenderam: exportações, conversão de caixa e proventos.
Os riscos não desapareceram
Petrobras nunca deve ser tratada como uma ação sem risco. O acionista é sócio de uma companhia controlada pelo Estado, exposta a decisões que podem não maximizar o retorno do capital privado. No 2T26, a Reuters apontou impacto de R$ 4,9 bilhões relacionado ao imposto de 12% sobre exportações de petróleo e diesel, além do atraso de R$ 9,7 bilhões em subsídios vinculados à política de combustíveis. A XP observou preços domésticos abaixo da paridade de importação em parte relevante do período.
Há ainda a volatilidade do Brent, o câmbio, a execução do plano de investimentos, possíveis aquisições e projetos com retorno inferior ao custo de capital. Uma estrutura de capital sólida hoje não autoriza complacência amanhã. O investidor deve acompanhar disciplina de capex, retorno sobre o capital investido, política de preços, governança e evolução da dívida — não apenas o próximo anúncio de dividendos.
A ação é para carteira, não para culto
Continuo recomendando a compra de Petrobras e sua manutenção em carteira porque a companhia combina ativos competitivos, produção crescente, forte geração de caixa, alavancagem controlada e remuneração relevante ao acionista. O 2T26 fortaleceu cada uma dessas dimensões.
Mas recomendação de compra não significa posição ilimitada. O risco político e a natureza cíclica do petróleo exigem diversificação e tamanho de posição compatível com o perfil do investidor. Petrobras deve ocupar um lugar racional na carteira: grande o suficiente para capturar valor e dividendos, mas não tão grande a ponto de transformar um risco específico em risco do patrimônio.
O dividendo de R$ 17,4 bilhões foi uma excelente notícia. Ainda assim, a melhor notícia veio antes dele: a Petrobras gerou caixa, investiu, reduziu a alavancagem e só então remunerou o acionista. É essa ordem — e não apenas o número do provento — que sustenta minha recomendação.
*Coluna escrita por Marco Saravalle, mestre em Economia e Finanças pela FGV/EESP, CIO da MSX e diretor de Investimentos da Krivo Capital. Sócio e estrategista-chefe da MSX Invest, é analista certificado CNPI, empreendedor, comentarista, educador e palestrante, com mais de 25 anos de experiência no mercado financeiro e passagens por algumas das maiores instituições financeiras do país.
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