A inteligência artificial não cria um novo tipo de ciberameaça, mas amplia a exposição das empresas a ataques digitais e torna ainda mais crítica a combinação de segurança de dados, redundância de data centers e ambiente jurídico e tributário estável para que o Brasil aproveite o potencial econômico da economia digital, na avaliação de Eduardo Carvalho, Presidente da Equinix Latam, entrevistado por Aluízio Falcão e Paula Moraes, na BM&C.
Na leitura de Eduardo Carvalho, à medida que a economia digital cresce, os crimes digitais crescem junto. Para ele, o roubo migrou do cofre físico para o ambiente online, e a pergunta deixou de ser se uma empresa será atacada para se tornar quando e como ela reagirá ao incidente. Nesse contexto, o uso intensivo de inteligência artificial acelera processos, mas também concentra dados e decisões em sistemas conectados, o que exige governança técnica e institucional mais robusta.
A entrevista foi concedida em período eleitoral, e Eduardo considera “assustador” o fato de economia digital, cibersegurança e inteligência artificial aparecerem pouco no debate político, apesar de enxergar nesse campo um potencial de transformação relevante para a economia brasileira.
A IA muda o tipo de ameaça ou aumenta o risco que já existia?
Ao tratar de inteligência artificial, Eduardo Carvalho afirma que continuam a existir as mesmas questões de cibersegurança já conhecidas para outros sistemas digitais. Os fundamentos de proteção permanecem, mas o volume de dados, a automação de decisões e a integração de sistemas expandem a superfície de ataque.
Ele relata um incidente recente com uma ferramenta de IA, em uma empresa que não identifica, no qual teria havido perda de controle em algum momento, sem consequências graves ou que maculassem a solução. Para ele, o episódio funciona como ponto de atenção diante da ideia de que a IA teria “arbítrio, mas não livre-arbítrio”.
Na visão de Eduardo, o uso da inteligência artificial é “assustador” pelo impacto e pela mudança que provoca. Ele conta que começou a usar IA de forma gradual, mas hoje utiliza a tecnologia em praticamente todas as suas atividades, incluindo a elaboração de e-mails por uma ferramenta que descreve como auxiliar, e defende que empresas compreendam o valor e os riscos associados.
Para acompanhar as discussões regulatórias, o leitor pode consultar a página oficial do governo federal sobre a **Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial**, que reúne documentos públicos sobre o tema.
Por que redundância e espelhamento viram condição básica?
Eduardo afirma que dispositivos e estruturas de segurança digital estão sendo cada vez mais desenvolvidos e trabalhados pelas empresas, mas sustenta que não basta haver apenas uma estrutura de cibersegurança na frente dos sistemas. Na avaliação dele, toda organização sofrerá um ataque em algum momento; a questão é quando isso ocorrerá e como a empresa reagirá.
Por isso, ele defende a redundância de aplicações e dados. Segundo Eduardo, empresas mais robustas mantêm espelhamento completo de tudo o que têm em um data center em outro data center, por motivos de segurança e compliance. Esses ambientes, relata, costumam ficar em locais diferentes, com independência de energia elétrica, subestações distintas, redes distintas e atualizações em tempo real entre as infraestruturas.
Esse é um ponto incômodo do debate: construir redundância e espelhamento custa caro e exige planejamento de longo prazo. Na visão de Eduardo, porém, para empresas que dependem intensamente de dados e de IA, a alternativa é aceitar o risco de paralisações prolongadas, perda de informações sensíveis e danos reputacionais relevantes.
O que pesa na escolha do Brasil para novos data centers?
Quando uma empresa global decide instalar um data center e olha para a América Latina, Eduardo destaca a segurança jurídica como ponto “importantíssimo”. Mudanças políticas bruscas e ameaças a empresas, segundo ele, não são bem-vindas para o mercado corporativo, especialmente em investimentos que imobilizam capital por muitos anos. Na sua leitura, essas empresas vêm para gerar divisas e deveriam ser tratadas como oportunidade, não como problema.
Ele também aponta o tratamento das questões fiscais e a simplificação tributária como fatores relevantes para atrair grandes players de data center e infraestrutura digital. Na avaliação de Eduardo, ao identificar uma oportunidade no Brasil, agentes públicos às vezes enxergam “outras oportunidades” não ligadas diretamente ao negócio principal, o que desvia o foco do potencial econômico do setor.
Outro elemento citado é a matriz energética. Eduardo afirma que outros países da região não possuem a mesma matriz energética que o Brasil e que haveria escassez de recursos em quase todos eles, quando comparados ao país, o que na visão dele coloca o Brasil em posição mais favorável para receber investimentos em data centers.
Como esses critérios se combinam na prática?
Segurança jurídica – reduz risco de mudanças abruptas e de hostilidade a empresas.
Ambiente fiscal – Simplificação e previsibilidade tributária ajudam a atrair players de longo prazo.
Energia e infraestrutura – Matriz energética brasileira é vista por ele como vantagem em relação a outros países da região.
Estabilidade política – Diminui incerteza regulatória e custo de capital, segundo sua avaliação.
Ecossistema de serviços – Gera demanda para prestadores locais, como empresas de tecnologia e integradoras |
Eduardo cita o “redata” como um avanço inicial na discussão, mas avalia que o instrumento teria parado no “limbo político” e poderia ser mais agressivo na atração de players para o Brasil. Em sua visão, políticas bem calibradas geram divisas não apenas para empresas que se instalam fisicamente no país, mas também para prestadores de serviços, mencionando a Stefanini como exemplo de companhia que poderia se beneficiar dessa demanda.
O que o debate político está deixando de fora?
Eduardo Carvalho afirma que o Brasil tem “um negócio nas mãos” capaz de transformar a economia, mas corre o risco de perder o timing se não houver ação rápida. Ele avalia que, mesmo em período eleitoral, há pouca discussão sobre economia digital e inteligência artificial em debates e apresentações de candidatos, e defende que se cobre dos postulantes conhecimento específico sobre o tema.
Paula Moraes, CEO e Apresentadora da BM&C, relata ter participado de uma sabatina com candidatos e saído com a impressão de que muitos não conheciam adequadamente nem o valor da dívida pública, o que, na percepção dela, levanta dúvidas sobre o nível de preparo em temas econômicos.
Questionado se o problema é de compreensão ou de coordenação, Eduardo aponta a falta de coordenação entre governo, setor elétrico e empresas como obstáculo central, que na visão dele é travado por questões políticas. Ele manifesta temor de que discussões sobre infraestrutura para data centers derivem para um embate polarizado, com alegações de que poderia faltar água ou energia para a população, algo que ele diz não enxergar como risco desde que tudo seja bem estruturado.
Para acompanhar a agenda oficial de cibersegurança, o leitor pode consultar a página da **Estratégia Nacional de Cibersegurança (E-Ciber)**, mantida pelo governo federal, bem como materiais sobre IA disponibilizados na **Infraestrutura Nacional de Dados em IA**.
Como empresas podem se preparar para esse novo ambiente?
A partir das opiniões de Eduardo, é possível delinear um roteiro mínimo para empresas que queiram usar IA sem ampliar de forma descontrolada seus riscos digitais:
1. Tratar IA como parte da infraestrutura crítica, incluindo essas ferramentas nas mesmas políticas de cibersegurança e continuidade de negócios aplicadas a sistemas financeiros e bases de dados sensíveis.
2. Planejar redundância desde o desenho do projeto prevendo espelhamento de dados e aplicações, inclusive em locais fisicamente distintos e com fontes de energia e redes independentes.
3. Ligar a área de tecnologia à estratégia regulatória e jurídica acompanhando discussões oficiais sobre economia digital, IA e cibersegurança em documentos do governo, como os reunidos nas páginas de **governo digital e IA** e do **MCTI sobre transformação digital e IA.
4. Participar de entidades setoriais para influenciar a agenda de segurança jurídica e tributária, que, na visão de Eduardo, é decisiva para a competitividade brasileira em data centers.
Para gestores públicos e formuladores de política econômica, a orientação prática que emerge da entrevista é concentrar o debate em produtividade e desenvolvimento via economia digital, com foco em coordenação entre governo, setor elétrico e empresas e em marcos estáveis que permitam destravar investimentos de longo prazo em infraestrutura digital.
Assista ao vídeo abaixo:















