O anúncio de novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros voltou a colocar em evidência os desafios do Brasil na defesa de seus interesses comerciais e geopolíticos. O tema dominou o debate do Painel BM&C, apresentado por Paula Moraes, que recebeu o economista Carlos Honorato e o analista político Miguel Daoud para discutir os impactos econômicos, políticos e estratégicos da medida adotada pelo presidente americano Donald Trump.
Na avaliação dos convidados, o tarifaço vai além de uma disputa comercial e reflete uma mudança mais ampla na postura dos Estados Unidos, que buscam reorganizar cadeias produtivas globais e reforçar sua influência econômica em um cenário de crescente competição internacional. Ao mesmo tempo, a crise passou a alimentar o embate político brasileiro, ampliando a disputa de narrativas entre governo e oposição.
“Na verdade, nós estamos vivendo uma repetição do que aconteceu no ano passado, só que esse ano talvez com o tourniquete das tarifas um pouco mais duras”, afirma Carlos Honorato.
Reação brasileira ainda carece de coordenação nacional
Apesar da dimensão econômica do problema, Honorato avalia que o Brasil ainda não possui uma estratégia nacional consolidada para enfrentar a nova rodada de tarifas. Segundo ele, o trabalho vem sendo conduzido por equipes técnicas do governo e por associações setoriais que buscam alternativas para proteger segmentos específicos da economia.
Na prática, empresas e entidades empresariais passaram a assumir papel relevante na articulação de respostas, contratando consultorias e escritórios especializados nos Estados Unidos para defender seus interesses comerciais. O movimento reflete a preocupação com possíveis perdas de competitividade, contratos e participação de mercado.
“O que a gente percebe é que ainda não há uma estratégia nacional e fica muito dependente dos setores, das associações dos setores, tentar se defender e buscar caminhos para fazer essa defesa ponto a ponto”, observa Carlos Honorato.
Disputa política amplia efeitos da crise comercial
Além dos impactos econômicos, o tema ganhou relevância no ambiente político. Para Miguel Daoud, a atuação de integrantes do campo bolsonarista junto a interlocutores ligados ao governo americano criou condições para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fortalecesse seu discurso de defesa dos interesses nacionais.
Segundo o analista, a estratégia adotada por Flávio Bolsonaro não produziu os resultados esperados e pode gerar desgaste dentro do próprio grupo conservador. Na visão dele, a decisão americana segue uma lógica própria e independe das articulações realizadas por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.
“Então, nesse sentido, o Lula já percebeu que ele vai capitalizar isso a seu favor e está capitalizando”, avalia Miguel Daoud.
Exportadores temem perda de espaço no mercado internacional
Os convidados destacaram que o principal impacto das tarifas não está apenas no aumento dos custos, mas também no risco de perda de espaço relativo para concorrentes internacionais. Caso exportadores de outros países obtenham condições mais favoráveis de acesso ao mercado americano, empresas brasileiras poderão enfrentar dificuldades adicionais para manter contratos e ampliar vendas.
Setores como alumínio, tecnologia, móveis, pesca e fabricantes de produtos industriais especializados aparecem entre os mais expostos às mudanças. A preocupação aumenta diante da relevância dos Estados Unidos como destino de parte das exportações brasileiras e da integração existente entre cadeias produtivas dos dois países.
“Você tem setores que foram muito prejudicados lá atrás como o setor de móvel, pesca. Nós temos empresas que fabricam produtos específicos. Você pega o setor de alumínio que a gente tem uma relação muito forte e perde competitividade”, ressalta Carlos Honorato.
Geopolítica ajuda a explicar a postura de Washington
Na visão de Daoud, a motivação do governo Trump não pode ser compreendida apenas pela ótica comercial. O analista argumenta que existe uma dimensão geopolítica relevante relacionada ao posicionamento internacional do Brasil e à sua aproximação com países como China e Índia.
O fortalecimento de iniciativas ligadas ao chamado Sul Global, bem como discussões sobre maior autonomia econômica e comercial dos países emergentes, seriam fatores que aumentam a preocupação estratégica de Washington. Nesse contexto, as tarifas funcionariam como instrumento de pressão para limitar a influência de países considerados relevantes no equilíbrio global de poder.
“Ele quer submeter o Brasil a uma rédea. Ele quer colocar rédeas curtas no Brasil. E essa é uma das formas”, argumenta Miguel Daoud.
Diversificação de mercados reduz dependência dos EUA
Os participantes também discutiram os efeitos da política comercial americana sobre as relações econômicas globais. Para Honorato, as medidas adotadas por Trump possuem caráter mais reativo do que estratégico e acabam incentivando países como o Brasil a diversificar seus destinos de exportação.
Nos últimos anos, empresas brasileiras ampliaram sua presença em mercados da Ásia, da África e de outras regiões, reduzindo gradualmente a dependência de determinados parceiros comerciais. Ainda assim, os analistas alertam que enfrentar os Estados Unidos continua sendo um desafio relevante devido ao peso econômico e político da maior economia do mundo.
“Então o desafio nosso aqui é calibrar isso porque também enfrentar o Trump não é trivial. Enfrentar os Estados Unidos não é trivial. A gente pode ter perdas reais”, pondera Carlos Honorato.
Potencial econômico exige estratégia de longo prazo
Apesar das dificuldades atuais, Daoud destacou que o Brasil possui ativos estratégicos importantes, incluindo recursos minerais, produção agropecuária, disponibilidade de terras e capacidade de ampliar sua participação em mercados globais. Para ele, o desafio está em transformar essas vantagens em uma estratégia nacional consistente de desenvolvimento.
“O Brasil é o único país do planeta que tem terras que podem ser utilizadas para fornecer alimentos para o mundo. Nós temos todas as condições”, destaca Miguel Daoud.
A avaliação final dos convidados é que o tarifaço de Trump evidencia não apenas tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, mas também a necessidade de maior coordenação entre política econômica, diplomacia e setor produtivo. Em um ambiente internacional cada vez mais competitivo, a capacidade de defender interesses nacionais poderá ser determinante para fortalecer a posição brasileira e ampliar sua inserção global.














