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Mercado de capitais ganha protagonismo no financiamento da economia brasileira, diz Guilherme Maranhão

Presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da ANBIMA avalia que crédito privado, debêntures e fundos ampliaram o acesso ao financiamento de empresas e projetos de longo prazo.

Sofia TostaPor Sofia Tosta
08/07/2026

O mercado de capitais passou a ocupar um papel mais relevante na estrutura de financiamento da economia brasileira, indo além da bolsa de valores e do investimento individual. No BM&C Talks, apresentado por Isabela Tacaki, Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da ANBIMA, analisou como crédito privado, securitização, fundos, debêntures e novos instrumentos ampliaram as alternativas de capital para empresas, infraestrutura, agronegócio e projetos de longo prazo.

A mudança ocorre em um momento em que o país precisa ampliar investimentos em infraestrutura, energia, inovação, indústria e competitividade. Durante décadas, o financiamento no Brasil esteve concentrado no crédito bancário e em bancos públicos, mas a diversificação das fontes de recursos passou a ser vista como uma condição para sustentar um novo ciclo de crescimento econômico.

“O que eu posso falar é que o mercado de capitais ele se democratizou ao longo desses últimos 10 anos e isso muito com base numa diversidade de instrumentos, atendimento a novos emissores, uma parte educacional trazendo novos investidores, diferentes perfis de investidores”, afirma Guilherme Maranhão.

Regulação e novos instrumentos ampliam o acesso ao capital

A transformação do mercado brasileiro foi impulsionada por uma combinação de mudanças regulatórias, amadurecimento dos investidores e necessidade das empresas de diversificar suas fontes de financiamento. Maranhão destacou que o avanço não ocorreu em um único momento, mas por meio de vários pontos de virada, incluindo normas que facilitaram ofertas públicas, ampliaram a atuação de coordenadores e criaram instrumentos mais adequados para diferentes perfis de emissores.

Entre os marcos citados está a Lei 12.431, voltada ao financiamento de infraestrutura, que ajudou a atrair investidores pessoa física e novos fundos para projetos de longo prazo. Também ganharam relevância instrumentos como CRIs, CRAs, Fiagros, notas comerciais e FIDCs, que ampliaram o acesso de setores antes menos atendidos pelo mercado de capitais.

“Essa lei ela lá de 2011. Mas ela começa a pegar em 2012, 2013 e ela passa a trazer a pessoa física pro mercado de capitais. Ela traz uma nova classe de fundos”, explica Guilherme Maranhão.

Crédito privado amplia alternativas para empresas

Na avaliação de Maranhão, o mercado de capitais deixou de ser apenas um ambiente de investimento e passou a funcionar como uma infraestrutura de financiamento da economia. Essa mudança permitiu que empresas acessassem recursos com prazos, estruturas e indexadores diferentes, reduzindo a dependência de uma única fonte de capital e criando alternativas para capital de giro, expansão, infraestrutura e operações de longo prazo.

O executivo afirmou que o mercado de capitais passou a superar o crédito bancário como fonte de financiamento das companhias, considerando o estoque, e também ganhou protagonismo no financiamento de infraestrutura em comparação com bancos de fomento. Para ele, esse movimento representa uma mudança relevante na forma como empresas e projetos estratégicos acessam recursos no Brasil.

“Recentemente a gente teve inclusive o mercado de capitais ultrapassando o crédito bancário como fonte de financiamento das companhias. Então, olhando o estoque, então isso é um marco bastante relevante”, avalia Guilherme Maranhão.

Diversificação de investidores aumenta a profundidade do mercado

A ampliação do mercado dependeu não apenas da criação de produtos, mas também do surgimento de investidores especializados. Maranhão citou gestores voltados ao agronegócio, infraestrutura, crédito imobiliário, empresas em dificuldade e recebíveis, o que permite avaliar riscos de forma mais segmentada e financiar diferentes necessidades empresariais. Essa especialização contribui para dar profundidade, liquidez e previsibilidade ao mercado.

Apesar dos avanços, o entrevistado afirmou que o Brasil ainda precisa evoluir em segurança jurídica, execução de garantias, padronização e previsibilidade regulatória para se aproximar de mercados mais desenvolvidos. Na comparação com os Estados Unidos, ele destacou que o mercado de capitais faz parte da vida financeira da população de forma mais ampla, especialmente por meio de previdência, investimentos e financiamento da economia real.

“Então, quando você começa a ter diversificação, seja de emissores, mas também trazendo novos investidores de perfis diferentes, você consegue tirar o melhor do mercado de capitais”, ressalta Guilherme Maranhão.

Juros altos ainda limitam parte do mercado

A taxa de juros elevada foi apontada como um dos principais entraves para o desenvolvimento pleno do mercado. Maranhão contestou a ideia de que juros altos beneficiam o mercado de capitais de forma ampla, argumentando que o custo de oportunidade maior reduz a disposição para investimentos em renda variável, equity e ativos alternativos, além de encarecer decisões de expansão das companhias.

Ainda assim, o crédito privado e os FIDCs ganharam espaço em um ambiente de juros altos, oferecendo retornos atrativos e diferentes formas de exposição a risco. Para o entrevistado, uma taxa de juros mais equilibrada poderia favorecer uma alocação mais diversificada entre renda fixa, renda variável e instrumentos de longo prazo, contribuindo para ampliar o papel do mercado na competitividade do país.

Infraestrutura e competitividade dependem de funding de longo prazo

O mercado de capitais também passou a ter impacto direto em setores ligados à produtividade e à qualidade da infraestrutura brasileira. Maranhão citou saneamento, rodovias, logística, transporte, iluminação pública e concessões como áreas que passaram a acessar instrumentos de financiamento privados, reduzindo a dependência exclusiva de bancos públicos e ampliando a competição por capital.

Para o cidadão, esse processo aparece de forma indireta, mas concreta. Estradas concedidas, saneamento básico, iluminação pública e crédito ao consumidor podem depender de estruturas financiadas no mercado de capitais. Segundo o entrevistado, um mercado mais forte tende a permitir que intermediários ofereçam alternativas melhores para empresas, consumidores e projetos públicos.

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Nos próximos anos, inteligência artificial, tokenização e novas infraestruturas digitais podem ampliar a transparência, reduzir custos e facilitar o acesso de investidores ao mercado de capitais. Maranhão citou discussões envolvendo Open Capital Markets e ofertas tokenizadas, mas ressaltou a importância de acompanhamento regulatório para evitar mau uso e preservar a segurança do sistema.

A perspectiva do entrevistado é que o mercado de capitais continue crescendo por ser uma alternativa flexível em diferentes cenários econômicos, inclusive em momentos de volatilidade, juros altos, juros baixos ou restrição de crédito. A conclusão é que o financiamento do crescimento brasileiro dependerá cada vez mais da capacidade de conectar poupança, investidores, empresas e projetos de longo prazo com previsibilidade, transparência e instrumentos adequados.

 

Foto: Reprodução BM&C NEWS

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