A temporada de balanços do segundo trimestre de 2026 nos Estados Unidos deve começar com uma combinação de lucros fortes, expectativas elevadas e um ponto de atenção crescente: o nível de alavancagem dos investidores.
Segundo análise de Luis Ferreira, CIO do EFG International para as Américas, o mercado americano chega ao período de divulgação de resultados em um ambiente ainda favorável para os fundamentos corporativos, mas com menor tolerância a qualquer sinal de frustração.
No primeiro trimestre de 2026, os lucros das empresas do S&P 500 cresceram 28,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. Para o segundo trimestre, a estimativa atual aponta para expansão de 23,3%, acima dos 18,8% projetados no fim de março.
Caso a previsão se confirme, será o segundo trimestre consecutivo de crescimento de lucros acima de 20% e o sétimo trimestre seguido de expansão em dois dígitos. As projeções para os próximos períodos também seguem positivas, com expectativa de alta de 26,8% nos lucros e de 10,8% nas receitas no terceiro trimestre.
Apesar da força dos números, o ponto central da análise está menos nos resultados em si e mais no quanto desse desempenho já foi incorporado aos preços dos ativos. “O risco, portanto, está em uma temporada positiva, mas insuficiente diante de expectativas muito elevadas”, avalia Ferreira.
Com valuations esticados, o mercado tende a reagir não apenas ao crescimento absoluto dos lucros, mas à capacidade das empresas de superar estimativas, preservar margens e manter projeções para os próximos trimestres.
Nesse contexto, balanços considerados bons podem não ser suficientes para sustentar o apetite por risco. “Resultados apenas em linha com o consenso podem não ser suficientes para manter o apetite por risco”, observa o porta-voz do banco suíço.
O alerta ganha força diante do aumento da alavancagem no sistema financeiro americano. Segundo dados citados na análise, o uso de margem por investidores para compra de ativos financeiros nos Estados Unidos chegou a cerca de US$ 1,4 trilhão em maio, alta de 54% em relação ao ano anterior.
Além disso, os ETFs alavancados também ganharam relevância no mercado. Os ativos nesses fundos quase dobraram, alcançando aproximadamente US$ 220 bilhões, o que amplia a sensibilidade dos preços a movimentos de correção.
Em ambientes positivos, a alavancagem pode reforçar fluxos compradores e acelerar ganhos. No entanto, em momentos de surpresa negativa, revisão de guidance ou realização de lucros, essa mesma estrutura pode intensificar quedas.
O risco está na necessidade de redução rápida de posições, em chamadas de margem ou em ajustes mecânicos de ETFs alavancados e derivativos. Esse tipo de dinâmica pode transformar uma correção pontual em um movimento mais amplo de pressão sobre os preços.
A experiência recente da Coreia do Sul aparece como sinal de alerta. O mercado local registrou forte estresse após a queda expressiva das ações da Samsung, mesmo depois da divulgação de resultados robustos, em um movimento que levou à ativação de circuit breaker.
Para Ferreira, esse episódio mostra como mercados com alta participação de investidores alavancados e produtos com exposição amplificada podem sofrer movimentos mais bruscos quando há frustração, mesmo que os fundamentos não tenham se deteriorado de forma significativa.
A temporada de resultados, portanto, deve funcionar como um teste para o S&P 500. Os lucros seguem fortes, mas o nível de exigência do mercado também subiu. “Em um mercado que já precifica boa parte das boas notícias, a diferença entre resultados fortes e resultados fortes o suficiente pode ser determinante para a direção dos preços”, conclui Ferreira.














