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BM&C STRIKE

Hegemonia dos EUA: quanto custa manter o poder global

Entenda quanto custa manter a hegemonia dos EUA, o peso do orçamento militar, dos choques de petróleo e do eleitor americano na economia global.

Os Estados Unidos seguem como principal potência militar e econômica do mundo, mas sustentar esse poder exige um gasto crescente em defesa, capacidade de financiar déficits elevados e administrar choques de energia e inflação sem quebrar o elo central do modelo americano, o consumo interno.

Os EUA continuam com o maior orçamento de defesa do planeta e com o dólar no centro do sistema financeiro, mas o custo para manter tropas, bases, aliados e superioridade tecnológica sobe à medida que a China avança, tensões no Oriente Médio pressionam o petróleo e a política interna americana mostra menos tolerância a guerras longas e caras.

Quanto os EUA gastam hoje para manter sua hegemonia?

O orçamento militar americano sempre foi o maior do mundo em termos absolutos. Para o ano fiscal de 2024, os documentos oficiais da Casa Branca indicam um gasto de centenas de bilhões de dólares apenas para o Departamento de Defesa, com a função orçamentária de “defesa nacional” se aproximando de US$ 1 trilhão quando se somam programas nucleares e outras rubricas ligadas à segurança.

Esses números aparecem no orçamento federal disponível no site do Office of Management and Budget (OMB). Trata-se de um esforço fiscal permanente para financiar:

– pessoal militar e civil
– manutenção de bases e frotas navais ao redor do mundo
– renovação do arsenal convencional e nuclear
– pesquisa e desenvolvimento em tecnologias de defesa

A discussão levantada no BM&C STRIKE por Vandyck Silveira é que, mais do que o tamanho absoluto desse orçamento, o ponto crítico passa a ser o custo marginal de continuar exercendo a hegemonia em múltiplos teatros, com rivais capazes de explorar assimetrias de custo.

Por que a disputa com a China pesa nessa conta?

Nas últimas décadas, a China tornou-se a segunda maior economia do mundo em PIB nominal, segundo o Fundo Monetário Internacional, e acelera a modernização de suas forças armadas. Relatórios anuais do Departamento de Defesa dos EUA apontam a China como principal competidor estratégico de longo prazo para Washington.

Do ponto de vista pró-mercado, isso não é apenas uma disputa militar, mas também competição por cadeias de valor, tecnologia e padrões industriais. A liderança americana em semicondutores, software, finanças e inovação depende de ambientes estáveis, de propriedade intelectual protegida e de liberdade de comércio em rotas críticas.

Para o contribuinte americano, esse cenário significa:

– necessidade de manter força capaz de projetar poder globalmente
– pressão por investimentos em pesquisa dual (civil e militar)
– debates recorrentes sobre sustentabilidade da dívida pública, à medida que a defesa disputa espaço com gastos sociais e juros da dívida

O dilema sintetizado no programa é: até que ponto os EUA conseguem financiar simultaneamente um complexo industrial-militar robusto e, ao mesmo tempo, manter confiança fiscal, dólar forte e ambiente favorável ao investimento privado.

Como o Oriente Médio e o petróleo entram nessa equação?

Silveira destaca no programa o papel do Estreito de Ormuz e dos choques de energia. Pelas estimativas da U.S. Energy Information Administration (EIA), em torno de 20% do consumo diário global de petróleo e condensados passa tradicionalmente por Ormuz, o que torna a rota um gargalo estratégico.

Quando há tensão na região do Golfo Pérsico, o risco percebido de interrupção de fluxo tende a:

– elevar prêmios de risco no preço do barril
– encarecer derivados como gasolina e diesel
– alimentar expectativas de inflação global

Na leitura do programa, conflitos regionais com atores muito menores que os EUA podem impor custos desproporcionais a Washington. Mesmo sem derrota militar, prolongar uma crise em uma rota que concentra cerca de um quinto do petróleo mundial pressiona:

– inflação americana
– balança comercial de países importadores
– decisões de juros dos bancos centrais

É o tipo de choque que expõe o limite do poder de fogo monetário: nenhuma taxa de juros abre um estreito bloqueado ou reduz risco geopolítico diretamente.

O que o Federal Reserve consegue fazer diante de choques geopolíticos?

O Federal Reserve tem como objetivo de longo prazo inflação de 2% ao ano, medida pelo índice PCE, conforme descrito em seu documento de metas de longo prazo, disponível no site do Fed.

Quando choques de energia elevam preços de combustíveis e transporte, o Fed enfrenta um problema clássico:

– subir juros ajuda a conter demanda interna, mas não resolve gargalos de oferta
– manter juros altos por muito tempo encarece crédito, desaquece investimento e consumo

O programa destaca que o coração da economia americana é o consumo doméstico. Dados do Bureau of Economic Analysis (BEA) mostram que o consumo das famílias costuma representar cerca de 65% a 70% do PIB dos EUA.

Isso cria um trade-off incômodo:

– se o Fed aperta demais, reduz emprego e renda, afetando diretamente esse consumo
– se tolera inflação mais alta por mais tempo, corroi poder de compra e pode afetar a credibilidade da âncora de 2%

Em ambos os casos, prolongar tensões geopolíticas com impacto em petróleo transforma hegemonia militar em pressão sobre o custo de vida do americano médio.

O que o eleitor americano perde e quase não é dito?

Um dos pontos incômodos da discussão é que o eleitor americano não vota em função da hegemonia, mas da sua vida cotidiana. A literatura de ciência política descreve sociedades ricas como pós-materialistas: após certo nível de bem-estar, a população tende a valorizar mais segurança, direitos civis, meio ambiente e aversão a grandes perdas de vidas em guerra.

Na prática, isso significa que:

– guerras longas e com baixas militares se tornam politicamente impopulares, mesmo com vantagem militar
– inflação acima da meta por tempo prolongado, com salário real pressionado, pesa mais no voto do que debates sobre liderança global

O custo pouco visível da hegemonia recai sobre:

contribuinte, via impostos futuros ou endividamento
trabalhador, via perda de poder de compra quando choques de petróleo contaminam preços
beneficiário de programas domésticos, quando a disputa orçamentária entre defesa, juros e gastos sociais se acirra

É um ponto central da leitura liberal pró-mercado: recursos fiscais são escassos, e decisões sobre defesa têm custo de oportunidade em educação, infraestrutura, reforma tributária e ambiente de negócios.

O eleitor americano pode limitar o poder global dos EUA?

Silveira lembra no programa que, em qualquer país, o eleitor vota principalmente pelo interesse pessoal imediato. No caso dos EUA, isso passa por:

– emprego
– renda real
– custo da cesta básica e da energia
– preço de hipotecas e crédito ao consumo

Dados do Bureau of Labor Statistics (BLS) mostram que, nos últimos anos até 2024, a taxa de desemprego oscilou em torno de 3,5% a 4,1%. Esse é um nível historicamente baixo, mas não elimina a sensibilidade a choques de inflação e juros mais altos.

Com o consumo das famílias respondendo pela maior parte do PIB, uma combinação de:

– energia cara, por tensões em rotas como Ormuz
– juros elevados por mais tempo, para conter inflação
– percepção de salários crescendo menos que preços

pode levar o eleitor a punir o governo de turno, independentemente de vitórias estratégicas no tabuleiro global.

Do ponto de vista da hegemonia, isso significa que o limite político interno pode chegar antes do limite econômico ou militar: o eleitor simplesmente não aceita pagar indefinidamente o preço de conflitos periféricos, déficits elevados e inflação acima da meta.

O que isso tudo significa para a economia global?

Para empresas, investidores institucionais e formuladores de política econômica fora dos EUA, o recado da conversa no BM&C STRIKE é que a hegemonia americana não desaparece de um dia para o outro, mas fica mais cara e politicamente condicionada.

Alguns efeitos práticos para acompanhar em fontes oficiais:

Indicador centralOrdem de grandeza / focoOnde acompanhar
Orçamento de defesa dos EUAFunção “defesa nacional” próxima de US$ 1 tri quando somados vários órgãosOrçamento federal no site do OMB
Peso do consumo no PIB dos EUACerca de 65%–70% do PIBTabelas de PIB do BEA
Meta de inflação do Fed2% ao ano (PCE) no longo prazoDocumento de metas do Fed
Risco em rotas de petróleoOrmuz responde por cerca de 1/5 do fluxo global de petróleo e condensadosRelatórios da EIA sobre chokepoints

Do lado prático, para quem acompanha economia e mercados, três passos ajudam a ler melhor esse cenário:

1. Monitorar dados oficiais de orçamento, inflação, emprego e petróleo nas fontes citadas, em vez de se apoiar apenas em narrativas políticas.
2. Avaliar sempre o custo de oportunidade fiscal nos EUA, comparando expansão de gastos em defesa com trajetória de dívida e espaço para cortes de impostos e investimentos produtivos.
3. Ligar geopolítica a preços relativos, em especial energia e juros globais, entendendo que choques regionais podem, com atraso, afetar inflação, câmbio e crescimento em economias abertas como a brasileira.

A hegemonia americana continua sendo o eixo do sistema, mas o preço de mantê-la está mais visível. A boa decisão econômica passa por acompanhar dados, comparar cenários e separar fatos estruturais de projeções e discursos.

Assista ao vídeo abaixo:

BM&C STRIKE