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272 pessoas, 14 andares e nenhuma razão para sair: a cidade que cabe em um prédio

VitorPor Vitor
11/03/2026

No fundo de um vale cercado por geleiras, onde a neve acumula até 6 metros e os ventos passam de 90 km/h, quase toda a população de Whittier dorme, estuda, trabalha e faz compras dentro do mesmo edifício. O Begich Towers, um bloco de concreto de 14 andares erguido pelo Exército dos Estados Unidos em 1957, reúne apartamentos, escola, delegacia, correios, igreja e mercado sob o mesmo teto, a 93 km de Anchorage, no sul do Alasca.

Um quartel militar que virou cidade vertical

A história de Whittier começa em 1941, quando o general Simon Bolivar Buckner Jr. escolheu o local para instalar uma base militar secreta. O vilarejo reunia três condições raras: porto de águas profundas livre de gelo o ano inteiro, proteção natural contra ataques aéreos e topografia que dificultava detecção por radar. O destacamento militar, batizado de H-12, abrigou mais de 1.200 pessoas durante a Segunda Guerra Mundial.

Com a Guerra Fria, o Exército ergueu duas estruturas gigantescas. O Buckner Building, concluído em 1953, tinha seis andares com hospital, pista de boliche, teatro e piscina. Em 1957, ficou pronto o Hodge Building (hoje Begich Towers), com 14 andares e 150 apartamentos para famílias de militares e funcionários civis. Os dois foram, na época, os maiores edifícios do Alasca.

Whittier é um refúgio da Guerra Fria que virou uma cidade vertical e isola vizinhos em uma única torre de concreto (imagem ilustrativa)

O terremoto que selou o destino do vilarejo

Em 27 de março de 1964, o terremoto da Sexta-Feira Santa atingiu magnitude 9,2, o mais potente já registrado na América do Norte. Em Whittier, ondas de tsunami chegaram a 13 metros de altura e mataram 13 pessoas. O porto e a ferrovia sofreram danos severos, e o Exército acelerou sua retirada. O Buckner Building foi abandonado e permanece em ruínas até hoje, uma estrutura fantasma visível de qualquer ponto da cidade.

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O Hodge Building sobreviveu intacto. Em 1972, os moradores de Whittier votaram pela compra das instalações militares e transformaram o edifício em condomínio residencial. Rebatizado de Begich Towers, ele se tornou o coração de uma comunidade que aprendeu a viver sob o mesmo teto.

Leia também: 13.416 pessoas por km² e nenhum metro quadrado de área rural: a cidade mais apertada do Brasil fica colada em São Paulo

Como funciona uma cidade dentro de quatro paredes?

O Censo dos Estados Unidos de 2020 registrou 272 habitantes em Whittier. Quase todos vivem no Begich Towers, distribuídos em 150 apartamentos de dois e três quartos, além de unidades menores. O complexo é formado por três módulos interconectados, projetados para resistir a ventos extremos e abalos sísmicos.

Dentro do edifício funcionam os serviços que, em qualquer outra cidade, estariam espalhados por bairros inteiros. A estrutura concentra praticamente tudo o que os moradores precisam no dia a dia:

  • Delegacia de polícia: instalada no térreo, atende ocorrências de toda a comunidade sem que ninguém precise sair do prédio.
  • Agência dos Correios e prefeitura: ocupam andares administrativos e resolvem desde encomendas até registros municipais.
  • Mercado e lavanderia: o comércio local oferece alimentos e itens básicos; o caixa conhece cada cliente pelo nome.
  • Clínica médica: equipada para primeiros atendimentos. Casos graves são encaminhados a Anchorage, a 93 km.
  • Igreja: espaço de encontro dominical onde quase todos os moradores se reúnem.
  • Escola: atende cerca de 48 alunos, do pré-escolar ao ensino médio, conectada ao prédio por um túnel aquecido para que as crianças nunca enfrentem a neve no caminho da aula.

Quem busca curiosidades sobre o Alasca, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal 196sonhos, que conta com mais de 42 mil visualizações, onde Flávio mostra a incrível cidade de Whittier, onde quase todos os moradores vivem em um único prédio:

O túnel que abre e fecha a cidade

Até o ano 2000, Whittier só podia ser alcançada por barco, avião ou trem. A abertura do Anton Anderson Memorial Tunnel ao tráfego de veículos mudou essa realidade, mas com uma peculiaridade: o túnel tem 4 km, é o mais longo túnel rodoviário da América do Norte e opera em mão única, alternando entre carros e trens em horários programados. No verão, funciona das 5h30 às 23h15. No inverno, das 7h às 22h45. Fora desses horários, ninguém entra nem sai de Whittier por terra.

Essa dinâmica dá ao vilarejo uma atmosfera de cidade murada. Quando o túnel fecha, os moradores ficam isolados entre montanhas e fiordes, contando apenas com o vizinho do andar de cima e o mercado do térreo.

Whittier ainda resiste ao tempo e ao frio

O vilarejo recebe em média 5.000 mm de precipitação por ano, entre chuva e neve, o que o torna um dos pontos mais úmidos do Alasca. No inverno, a temperatura média cai para -21 °C. Mesmo assim, a população se mantém estável há décadas, e no verão a cidade recebe mais de 700 mil turistas que chegam pelo porto ou pelo túnel para explorar geleiras, pescar e navegar pelo Prince William Sound, dentro da Chugach National Forest, a segunda maior floresta nacional dos Estados Unidos.

Whittier não é apenas uma curiosidade geográfica. É a prova de que, quando o clima força os limites, uma comunidade inteira pode se reinventar dentro de um único edifício de concreto, compartilhando paredes, corredores e uma rotina que nenhuma outra cidade do mundo consegue reproduzir.

Whittier é um refúgio da Guerra Fria que virou uma cidade vertical e isola vizinhos em uma única torre de concreto (imagem ilustrativa)

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O vilarejo recebe em média 5.000 mm de precipitação por ano, entre chuva e neve, o que o torna um dos pontos mais úmidos do Alasca. No inverno, a temperatura média cai para -21 °C. Mesmo assim, a população se mantém estável há décadas, e no verão a cidade recebe mais de 700 mil turistas que chegam pelo porto ou pelo túnel para explorar geleiras, pescar e navegar pelo Prince William Sound, dentro da Chugach National Forest, a segunda maior floresta nacional dos Estados Unidos.

Whittier não é apenas uma curiosidade geográfica. É a prova de que, quando o clima força os limites, uma comunidade inteira pode se reinventar dentro de um único edifício de concreto, compartilhando paredes, corredores e uma rotina que nenhuma outra cidade do mundo consegue reproduzir.

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