A dívida pública de Lula entrou definitivamente no centro da campanha presidencial de 2026 após a entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na noite de quinta-feira (27).
A pergunta apresentada durante a entrevista era objetiva: diante da alta do endividamento brasileiro, para qual percentual do Produto Interno Bruto (PIB) Lula pretende levar a dívida ao final de um eventual quarto mandato?
O presidente não apresentou um número.
Em vez de estabelecer uma meta para a dívida, Lula defendeu seu histórico econômico, afirmou esperar resultado primário positivo e voltou a apostar no crescimento do PIB como principal instrumento para reduzir o peso do endividamento.
A estratégia tem fundamento econômico. Se a economia cresce mais rapidamente que a dívida, a relação dívida/PIB pode cair.
Mas a resposta deixou aberta justamente a questão que investidores tentam calcular para o período a partir de 2027: em que momento a dívida será estabilizada e quais medidas serão adotadas para chegar até lá?
O assunto ganhou ainda mais peso porque a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) chegou a 81,9% do PIB em junho, equivalente a cerca de R$ 10,8 trilhões. Apenas no primeiro semestre de 2026, o indicador avançou 3,3 pontos percentuais do PIB.
O que Lula respondeu sobre a dívida?
Ao ser questionado sobre o nível de endividamento que gostaria de entregar ao fim de um novo mandato, Lula não fixou uma meta percentual.
O presidente argumentou que o Brasil precisa crescer e afirmou que a expansão econômica reduz naturalmente a dívida como proporção do PIB.
Durante a resposta, Lula lembrou também o desempenho da economia em 2010, último ano de seu segundo mandato, quando o PIB brasileiro cresceu 7,5%. Esse dado está correto.
Lula também minimizou a leitura de que uma dívida próxima de 80% do PIB representaria, sozinha, um problema e citou países desenvolvidos que convivem com percentuais superiores.
A mensagem central foi de que o governo deveria priorizar crescimento econômico em vez de concentrar sua estratégia exclusivamente em cortes de despesas.
A posição foi reforçada posteriormente por informações da equipe econômica. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta sexta-feira que um eventual quarto mandato teria entre suas prioridades a revisão de gastos obrigatórios, o fortalecimento do arcabouço fiscal e a busca de superávits primários.
Ainda assim, permanece sem resposta uma pergunta: qual trajetória de dívida o governo considera aceitável?
Lula apresentou números corretos sobre o resultado fiscal?
Nem todos.
Ao defender seu histórico durante a entrevista, Lula afirmou que recebeu o governo em janeiro de 2023 com déficit fiscal de 2,8%.
Os dados oficiais do Tribunal de Contas da União mostram uma situação diferente quando se considera o resultado primário do Governo Central.
Em 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro, houve superávit primário de R$ 54,9 bilhões, equivalente a 0,6% do PIB. O déficit primário de R$ 264,5 bilhões, equivalente a 2,4% do PIB, ocorreu em 2023, primeiro ano do terceiro mandato de Lula.
Isso não significa que o quadro fiscal herdado em 2023 fosse necessariamente confortável. O resultado de 2022 foi influenciado por fatores específicos e a dívida seguiu sujeita a diferentes pressões.
Mas é necessário separar a avaliação sobre a situação fiscal da informação objetiva sobre o resultado primário daquele ano.
A fala sobre o crescimento de 7,5% em 2010, por outro lado, corresponde ao dado oficial.
Por que crescer ajuda a reduzir a dívida?
A lógica defendida por Lula é relativamente simples.
A relação dívida/PIB possui dois componentes: o estoque da dívida no numerador e o tamanho da economia no denominador.
Se a economia cresce, o PIB aumenta e pode reduzir proporcionalmente o peso da dívida.
O próprio resultado de junho mostra esse efeito.
Segundo o Banco Central, o crescimento do PIB nominal retirou 0,5 ponto percentual da relação dívida/PIB naquele mês.
O problema é que os juros fizeram o movimento contrário.
A incorporação dos juros aumentou a dívida em 0,8 ponto percentual do PIB, enquanto as emissões líquidas acrescentaram outros 0,6 ponto.
No acumulado do primeiro semestre, o crescimento do PIB nominal retirou 2,7 pontos percentuais da relação dívida/PIB. Os juros, entretanto, acrescentaram 4,9 pontos.
Ou seja: o crescimento já está ajudando.
A questão é que, até agora, não está sendo suficiente para compensar integralmente as demais pressões sobre o estoque da dívida.
Por que o mercado quer uma trajetória para a dívida?
Uma meta para a dívida não funciona como a meta de inflação.
O governo não consegue definir unilateralmente que a DBGG estará, por exemplo, em 75% do PIB em determinado ano e garantir que esse resultado ocorrerá.
A trajetória depende da combinação de crescimento, inflação, juros, câmbio, receitas, despesas e resultado primário.
Mesmo assim, uma referência numérica ajuda investidores a entender qual é o objetivo da política fiscal.
Imagine dois governos com uma dívida de 82% do PIB.
O primeiro apresenta medidas capazes de produzir superávits gradualmente e projeta a estabilização do indicador em três anos.
O segundo prevê déficits sucessivos e não indica quando a dívida deixará de crescer.
O ponto de partida é igual.
A percepção de risco pode ser completamente diferente.
É por isso que o mercado não olha apenas para o percentual atual. Ele tenta calcular a direção da dívida.
Por que cortar gastos é tão difícil no Brasil?
Existe outra dificuldade que raramente aparece quando candidatos prometem simplesmente “cortar despesas”.
A maior parte do Orçamento não pode ser reduzida livremente por decisão do presidente.
No Projeto de Lei Orçamentária de 2026, 92% das despesas primárias eram classificadas como obrigatórias. Apenas 8% estavam no grupo das discricionárias, onde o governo tem maior margem para decidir quanto e quando gastar.
Entre os grandes blocos obrigatórios estão benefícios previdenciários, transferências constitucionais e gastos com pessoal.
A Previdência Social, por exemplo, aparecia no PLOA com cerca de R$ 1,13 trilhão em despesas.
Isso explica por que reduzir ministérios, cortar viagens ou diminuir gastos administrativos pode ter impacto político relevante, mas dificilmente resolve sozinho um problema fiscal estrutural.
Para produzir uma mudança permanente de trajetória, normalmente é necessário discutir itens muito mais sensíveis.
Previdência, benefícios, folha salarial, pisos constitucionais, vinculações e renúncias fiscais entram inevitavelmente no debate.
O que Zema propôs para controlar as contas públicas?
Romeu Zema, candidato do Novo, apresentou uma abordagem diferente durante.
O ex-governador de Minas Gerais defendeu privatizações, redução da presença estatal e mudanças estruturais como instrumentos para melhorar as contas públicas.
Zema também defendeu a privatização de empresas como a Petrobras e propôs que a idade mínima para aposentadoria possa acompanhar automaticamente mudanças na expectativa de vida da população.
O próprio histórico fiscal de Minas Gerais, porém, virou tema da entrevista.
Zema foi questionado sobre a evolução da dívida estadual durante seu governo e atribuiu parte do crescimento a decisões anteriores à sua gestão e à relação financeira entre Minas e a União.
A proposta econômica do candidato possui uma direção clara — menos Estado, privatizações e reformas, mas enfrenta a mesma cobrança que atinge os demais presidenciáveis: quanto cada medida efetivamente economizaria e em quanto tempo?
O que Caiado propôs para limitar os gastos?
Ronaldo Caiado apresentou uma regra mais objetiva para o crescimento das despesas.
O candidato do PSD defende enviar ao Congresso uma proposta de emenda à Constituição para limitar o avanço dos gastos federais à inflação mais, no máximo, 50% do crescimento real do PIB.
Caiado repetiu a proposta, mas não detalhou quais despesas seriam reduzidas para permitir o cumprimento do limite.
Esse é um ponto importante.
Uma regra que determina quanto a despesa pode crescer precisa necessariamente responder o que acontece quando as despesas obrigatórias aumentam acima desse teto.
Se Previdência, pessoal, benefícios ou pisos constitucionais avançarem mais rapidamente do que o limite, outras áreas precisarão absorver o ajuste ou as próprias regras obrigatórias terão de ser alteradas.
Na entrevista, Caiado preservou itens politicamente sensíveis e não detalhou uma nova reforma previdenciária.
Por isso, apesar de apresentar uma âncora mais explícita que Lula naquele momento, ainda ficaram dúvidas sobre a execução.
O que Renan Santos disse sobre a dívida pública?
Renan Santos, candidato do Missão, foi mais direto ao responder qual seria o objetivo para a dívida.
Ele afirmou que as medidas de seu governo deixariam o endividamento, “no mínimo”, estável.
Para chegar a esse resultado, Renan citou cortes de gastos, crescimento econômico, mudanças nas vinculações dos pisos de saúde e educação e uma nova reforma da Previdência.
A campanha também apresentou anteriormente uma proposta de ajuste fiscal de aproximadamente R$ 1,1 trilhão até 2031, que envolveria desindexações, revisão de benefícios e mudanças estruturais no Orçamento.
É a proposta mais explícita entre os candidatos, quando o assunto é tamanho do ajuste.
Mas também seria uma das agendas de maior dificuldade política.
Mudanças nos pisos de saúde e educação, Previdência e indexações exigiriam uma negociação extensa com o Congresso e enfrentariam resistência de diferentes setores.
Ter um número, portanto, não garante que ele será alcançado.
Mas permite que o mercado comece a calcular a proposta.
Qual é a diferença entre as propostas de Lula, Zema, Caiado e Renan?
As entrevistas mostraram estratégias significativamente diferentes.
Lula aposta principalmente no crescimento econômico, melhora do resultado primário e revisão ainda não detalhada dos gastos obrigatórios.
Zema coloca maior peso em privatizações, redução do Estado e reformas.
Caiado propõe uma nova regra constitucional para limitar o crescimento das despesas.
Renan Santos combina cortes, desvinculações e uma nova reforma da Previdência, além de estabelecer como objetivo ao menos estabilizar a dívida.
Nenhuma delas elimina o problema central.
O próximo presidente terá de lidar com um Orçamento altamente rígido, juros ainda elevados e uma dívida que já alcançou 81,9% do PIB.
Economistas ouvidos pela Reuters estimam que estabilizar a dívida brasileira até 2031 poderia exigir um ajuste fiscal equivalente a pelo menos 2,5 pontos percentuais do PIB. A dificuldade aumenta porque aproximadamente 92% das despesas primárias são obrigatórias.
O que realmente ficou sem resposta na entrevista de Lula?
Lula deixou clara a estratégia geral.
O presidente acredita que o Brasil precisa crescer, gerar receita e melhorar gradualmente o resultado fiscal sem colocar o corte de despesas no centro da política econômica.
O que não apresentou foi uma referência capaz de medir o sucesso desse plano.
Para qual nível a dívida deve caminhar?
Em que ano ela deixa de subir?
Qual superávit primário seria necessário?
Quais despesas obrigatórias podem ser revistas?
E quanto cada uma dessas medidas produziria?
Essas são as perguntas que permaneceram abertas depois da entrevista.
O último dado disponível colocou a dívida bruta em 81,9% do PIB e R$ 10,8 trilhões.
Se a economia crescer, como argumenta Lula, o denominador da conta melhora.
Mas a matemática fiscal tem outra metade.
Enquanto juros e déficits fizerem a dívida crescer mais rapidamente do que o PIB, o indicador continuará pressionado.
Por isso, crescimento é parte da resposta, não a resposta inteira.
Para investidores, a questão central continuará sendo a mesma até que os candidatos coloquem números sobre a mesa: qual é o plano capaz de fazer a dívida parar de subir e quanto tempo será necessário para chegar lá?















