Vivemos em uma época que idolatra o sucesso e esconde o fracasso.
As redes sociais exibem conquistas. Os relatórios destacam resultados.
As premiações celebram vencedores. Poucos, porém, têm coragem de
mostrar o caminho percorrido entre a primeira queda e a vitória final.
Talvez por isso tantos líderes carreguem um peso silencioso:
acreditam que fracassar é sinal de incapacidade.
A sabedoria da milenar judaica ensina exatamente o contrário:
“O justo cai sete vezes e se levanta.” – Rei Salomão, Provérbios 24:16.
A vida se resume à capacidade de se levantar diante dos desafios. A
grandeza é definida como se levantar uma vez a mais do que se caiu. A
Torá define um justo não como alguém que teve sucesso, mas como
alguém que perseverou, ela cria um paradigma do que é a retidão:
“tentar fazer o que é certo, levantar-se após o fracasso e seguir em
frente até a vitória.
O Rei Salomão não escreveu que o justo nunca cai, escreveu que ele
cai. E cai sete vezes!
O número sete, pelas fontes da Cabalá Judaica, não representa uma
quantidade exata. Representa a totalidade do mundo natural: os sete
dias da semana, os sete atributos emocionais, os ciclos da existência
humana. Em outras palavras, Salomão está dizendo que o justo
enfrentará desafios em todas as áreas da vida.
A diferença nunca esteve na queda mas sim sempre esteve na decisão
de levantar e essa é uma das maiores revoluções da mentalidade
judaica. A Torá não define um justo pelos resultados que alcançou,
mas pela direção que escolheu seguir. Justiça, no pensamento bíblico,
não é perfeição. É perseverança.
Isso muda completamente a forma como um CEO deveria enxergar
sua própria trajetória.
Empresas caem.
Mercados mudam.
Sócios decepcionam.
Investimentos fracassam.
Projetos milionários podem terminar em prejuízo.
Mas nada disso define um líder.
O que define um líder é sua capacidade de transformar cada queda em
uma fonte de consciência.
Na Cabalá existe um princípio extraordinário, a luz nunca é percebida
sem que antes exista um recipiente capaz de contê-la. E esse recipiente
quase sempre é construído pelas crises. O Zohar ensina que a luz mais
intensa costuma surgir justamente depois dos maiores momentos de
ocultação. Isso explica um fenômeno que observo há anos convivendo
e mentorando grandes empresários.
Os líderes mais profundos raramente são aqueles que nunca
enfrentaram dificuldades.São aqueles que aprenderam a interpretar as
dificuldades, pois existe uma enorme diferença entre sofrer e crescer.
Quem apenas sofre carrega cicatrizes e quem aprende transforma
cicatrizes em sabedoria. Eu percebi que nos ambientes empresariais,
muitos confundem velocidade com evolução e correm cada vez mais
rápido, mas nunca param para perguntar por que caíram.
E a Cabalá na qual sou apaixonado ensina que cada obstáculo possui
uma mensagem! Nada acontece apenas para interromper o caminho.
Muitas vezes acontece para corrigir a direção. Nós estamos nos
aproximando do mês de Elul no calendário judaico, um mês de
reflexão antes do dia do julgamento e em hebraico, a palavra teshuvá
costuma ser traduzida como arrependimento.
Mas seu significado verdadeiro é muito mais profundo.
Teshuvá significa retorno.
Retornar à essência.
Retornar ao propósito.
Retornar ao melhor de si.
Perceba como isso muda completamente a relação com o erro.
O erro deixa de ser um destino.
Passa a ser um convite ao retorno.
Talvez por isso alguns dos maiores empreendedores da história
tenham construído seus maiores legados depois dos seus maiores
fracassos. Eles não venceram porque nunca caíram.
Venceram porque nunca permitiram que a queda definisse sua
identidade.
Existe outro detalhe extraordinário no versículo de Salomão.
O texto não diz que alguém levanta o justo. Ele próprio se levanta.
Isso revela um princípio fundamental da liderança.
Os Mentores ajudam.
Os Livros inspiram.
As equipes apoiam.
Mas existe um momento em que apenas uma decisão muda a história.
A decisão de levantar.
Nenhum conselho substitui essa escolha.
Nenhum investimento compra essa coragem.
Nenhuma estratégia elimina essa responsabilidade.
E na linguagem da Cabalá, poderíamos dizer que é exatamente nesse
instante que o ser humano exerce seu livre-arbítrio de maneira mais
elevada.
Não quando tudo dá certo, mas quando tudo parece desmoronar. É
fácil manter valores durante a prosperidade. Difícil é preservá-los
durante a escassez. É fácil liderar quando todos aplaudem. Difícil é
continuar servindo quando surgem críticas.
É fácil acreditar quando os números crescem.
Difícil é manter a visão quando ninguém mais consegue enxergar o
futuro. É justamente aí que nasce a verdadeira liderança.
O mercado recompensa competência.
O tempo recompensa caráter.
E a Torá ensina que caráter é construído exatamente no espaço entre a
queda e o recomeço. Talvez o maior erro do mundo corporativo
moderno seja acreditar que o oposto do sucesso é o fracasso.
Não é.
O oposto do sucesso é desistir.
Quem ainda está se levantando continua escrevendo sua história.
Enquanto houver propósito, ainda existe futuro.
Enquanto houver coragem para recomeçar, nenhuma queda terá a
palavra final.
Porque, no fim, a grandeza nunca pertenceu aos que nunca caíram. E
sim pertence aos que decidiram levantar uma vez a mais igual a você!
*Coluna escrita por Rav Sany, rabino Sany Sonnenreich, presidente do Instituto Rav Sany de Comunicação e Cultura Judaica e do Grupo Sonnen.
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.














