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Dinheiro barato levanta todos os barcos e juros altos revelam quais sabem navegar

Fabio OngaroPor Fabio Ongaro
30/04/2026

A Super Quarta entregou mais do que duas decisões de juros. Entregou uma mensagem sobre o mundo. De um lado, o Federal Reserve manteve a cautela e reforçou que a batalha contra a inflação ainda não permite triunfalismos. De outro, o Banco Central do Brasil reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14,75% para 14,50%, mas o dado central não foi o corte, foi o comunicado. Ao não sinalizar claramente os próximos passos, o Copom entregou menos uma continuação do ciclo e mais um gesto de prudência. E essa convergência implícita entre os dois bancos centrais talvez seja o verdadeiro fato econômico do dia: o dinheiro continuará caro por mais tempo.

Nos Estados Unidos, a leitura relevante não está apenas na manutenção dos juros, mas no tom da autoridade liderada por Jerome Powell. O Fed parece decidido a preservar credibilidade acima de tudo. Depois do erro histórico de tratar a inflação como transitória, cortar cedo demais seria arriscado. Isso sustenta um dólar estruturalmente forte, mantém disciplina sobre ativos de risco e reforça que a liquidez abundante da década passada não voltará nos mesmos termos. Mesmo quando vierem cortes, tenderão a ocorrer dentro de um ambiente monetário ainda restritivo. Não se trata de retorno ao velho ciclo, mas adaptação a um novo regime em que o custo do capital volta a importar.

No Brasil, o mais sofisticado foi justamente o que o comunicado evitou dizer. Ao não oferecer guidance explícito para a próxima reunião, o Copom preservou flexibilidade e sinalizou desconforto com o cenário. Isso é, em essência, uma postura hawkish. Bancos centrais frequentemente endurecem não pelo que anunciam, mas pelo que se recusam a prometer. Num ambiente de incerteza fiscal doméstica, petróleo sensível e juros americanos elevados, isso faz sentido. O Banco Central parece ter cortado como quem pisa no freio. E há aqui um paradoxo moderno: em certos contextos, afrouxar cedo demais pode produzir condições financeiras mais duras, pressionando curva longa, câmbio e expectativas. O corte, portanto, não foi uma celebração do afrouxamento; foi uma calibragem defensiva.

Mas o significado maior desta superquarta talvez esteja além da política monetária. Bancos centrais deixaram de administrar apenas ciclos econômicos; passaram a administrar choques estruturais. Guerra, fragmentação geopolítica, reindustrialização estratégica e inflação de oferta mudaram a lógica dos mercados. Durante anos, capital barato elevou quase todos os ativos e mascarou ineficiências. Num mundo em que dinheiro volta a ter preço, essa proteção desaparece. Empresas frágeis, países indisciplinados e modelos dependentes de liquidez passam a ser testados. Os sólidos tendem a ser premiados.

Para o Brasil, essa é a verdadeira lição. Competitividade tende a depender menos de abundância financeira e mais de produtividade, disciplina e credibilidade. Talvez seja esse o recado central desta superquarta. Não se discutiu apenas se os juros caem 25 pontos aqui ou ficam estáveis ali. Discutiu-se, implicitamente, um novo regime econômico, um regime em que a seletividade do capital volta a separar eficiência de ilusão.

*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group  

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