No sertão de Pernambuco, a cerca de 470 km de Recife, uma torre de igreja surge das águas do Rio São Francisco sempre que a seca aperta. É a única ruína visível de Petrolândia, cidade inteira que foi submersa em 1988 para formar o reservatório da Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga. Casas, ruas, praças e igrejas ficaram no fundo, e apenas parte do telhado e da fachada da Igreja do Sagrado Coração de Jesus ainda desafia o tempo no meio do lago.
Por que uma cidade inteira foi colocada debaixo d’água?
Porque o projeto hidrelétrico mais ambicioso do Nordeste brasileiro precisava do espaço. A obra, conduzida pela Companhia Hidroelétrica do São Francisco (CHESF), começou em 1979 e foi concluída em 1988. O reservatório formado, conhecido como Lago de Itaparica, ocupa cerca de 834 km² e se estende por aproximadamente 150 km entre Pernambuco e a Bahia, conforme dados reunidos pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF).
A usina tem potência instalada de 1.479 MW, distribuídos em seis turbinas Francis de 246,6 MW cada. A barragem tem 105 metros de altura e 4,7 km de comprimento. Para que o lago existisse, a cidade histórica de Petrolândia, fundada oficialmente em 1904, precisou desaparecer. Milhares de famílias foram relocadas para um novo núcleo urbano, construído em área elevada às margens da BR-316. Igrejas, casas, ruas, prédios públicos e até cemitérios foram abandonados e engolidos pelo volume de água represada.

A igreja que foi batizada para resistir ao tempo
Entre as centenas de construções que desapareceram, uma resistiu. A Igreja do Sagrado Coração de Jesus, erguida na antiga sede municipal, não foi demolida antes da inundação. A torre e parte da fachada permaneceram de pé mesmo com a chegada da água, e hoje são o símbolo mais icônico da cidade submersa. A cerca de 10 metros de profundidade em períodos de cheia, a estrutura guarda detalhes originais que os moradores reconhecem como memória afetiva coletiva.
O local entrou em processo oficial de tombamento pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe). Com a abertura do pedido, as ruínas já passaram a ser consideradas parte da lista de espaços preservados do estado, o que impede alterações ou demolição. A outra igreja da velha cidade, a matriz original, ficou totalmente submersa e não é mais visível do nível da água.
A Atlântida brasileira que aparece na estiagem
A dinâmica do reservatório fez de Petrolândia um destino sazonal. Nos meses de estiagem, especialmente entre julho e setembro, o nível do Rio São Francisco baixa o suficiente para revelar parte da nave, arcos e paredes da igreja que ficaram escondidos meses antes. Esse contraste entre aparição e submersão rendeu à cidade o apelido de Atlântida brasileira, em referência à lenda da ilha mitológica engolida pelo mar.
O turismo em torno da igreja começou a se organizar a partir de 2014, quando barqueiros e mergulhadores locais passaram a oferecer passeios regulares pelo lago. Nos dias de sol, a silhueta da torre refletida nas águas calmas virou cartão-postal do sertão pernambucano. Em 2026, autoridades municipais e estaduais começaram a monitorar mais de perto o risco de desabamento parcial da estrutura, que sofre com o movimento contínuo das águas e a ausência de reparos técnicos especializados.
Quem deseja conhecer a história da cidade submersa e suas belezas naturais, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal OLHARES VIAJANTES, que conta com mais de 8 mil visualizações, onde é mostrada a jornada por Petrolândia, em Pernambuco, incluindo a famosa igreja submersa e a Ilha de Rarrá:
Como as ruínas submersas viraram ponto de mergulho?
O fundo do lago guarda um cenário raro. Ruas inteiras, fundações de casas, vigas, escadarias e vestígios de estruturas comerciais estão lá, cobertos por sedimentos e vida aquática. Mergulhadores exploram a antiga vila submersa em passeios guiados, com visibilidade que varia conforme a época do ano. Entre as peças reconhecíveis em dias de água mais clara estão a cruz de pedra da parede central da igreja, a base da imagem de Jesus Cristo e trechos das escadarias cobertas por lama.
Próxima às ruínas, a Ilha de Rarrá virou parada obrigatória nos roteiros. Pequena formação arenosa no meio do rio, com águas claras e infraestrutura simples, ela costuma ser incluída em passeios de catamarã que saem da Nova Petrolândia. O Mirante da Serrota, ponto mais alto da zona urbana, oferece vista panorâmica do lago e do conjunto de ruínas que fica parcialmente à mostra na seca. Essas atrações conviveram com a perda das antigas cachoeiras do trecho, que desapareceram com a formação da represa.
Quando o clima favorece a visita à igreja submersa?
O sertão pernambucano tem dois tempos bem marcados: uma temporada seca longa e um período chuvoso curto e irregular. A melhor janela para ver a igreja emergindo das águas vai de julho a setembro.
| Estação | Meses | Temperatura | Chuva | O que fazer |
|---|---|---|---|---|
| Verão | Dez-Fev | 22-33°C | Baixa | Passeio de catamarã e Ilha de Rarrá |
| Outono | Mar-Mai | 21-32°C | Média | Mergulhos e Mirante da Serrota |
| Inverno | Jun-Ago | 20-30°C | Baixa | Igreja submersa emergindo do lago |
| Primavera | Set-Nov | 22-34°C | Baixa | Pôr do sol no lago e orla |
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à nova Petrolândia e à igreja submersa?
O acesso principal é por Recife, a cerca de 470 km pela BR-232 e BR-316, em viagem de aproximadamente 7 horas de carro. De Salvador, são pouco mais de 600 km. Os aeroportos mais próximos com voos regulares são o de Recife e o de Petrolina, a cerca de 250 km. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registra população de 34.161 habitantes no município em 2022, com estimativa de 36.104 em 2025. Passeios de lancha, catamarã e mergulhos podem ser contratados no porto fluvial da cidade nova.
Um cenário raro de memória, engenharia e fé
Petrolândia é uma das poucas cidades do Brasil onde a história não está em museu, mas no fundo de um rio. Entre a torre de uma igreja que resiste, o lago que se expande e as famílias que cruzaram a vida em duas cidades com o mesmo nome, o visitante encontra uma das narrativas mais singulares do sertão.
Você precisa conhecer Petrolândia e ver com os próprios olhos a igreja que sobrevive no meio do São Francisco, lembrando a cidade que não existe mais.














