Para fugir das dívidas, o primeiro passo é encarar a própria vida financeira, separar o que é dívida saudável do que é endividamento fora de controle e organizar, por escrito, quanto entra e quanto sai antes de qualquer nova compra.
O programa Sou Bem Sucedido, da BM&C News, dedicou dois episódios ao tema das dívidas com o especialista em finanças e mentor de alta performance Henrique Pelissari. A conversa mostra que o problema central de grande parte das famílias brasileiras não é a existência de dívida em si, mas a combinação de juros altos com falta de planejamento e consumo por impulso.
Dívida é sempre um problema ou pode ser usada a seu favor?
Na entrevista, Henrique Pelissari faz uma distinção central para quem quer organizar a vida financeira. Dívida, na visão dele, é o compromisso assumido com clareza sobre quanto se ganha e com capacidade de pagamento. Endividamento é quando os compromissos ultrapassam o que a pessoa consegue pagar, começam a atrasar e passam a afetar a vida emocional, familiar e profissional.
Ele lembra que usar o cartão de crédito, por exemplo, pode ser parte de um planejamento, desde que a fatura caiba no orçamento e seja paga integralmente. O problema surge quando o crédito é usado como extensão da renda, não como meio de pagamento. Nessa transição, a dívida deixa de ser ferramenta e vira sintoma de desorganização.
Relatórios do Banco Central sobre cidadania financeira reforçam essa abordagem ao tratar endividamento das famílias com o sistema financeiro como algo que precisa ser acompanhado em relação à renda ao longo do tempo, e não apenas como um número isolado de contratos em aberto. Esses materiais podem ser consultados diretamente no site de cidadania financeira do Banco Central.
Como o comportamento financeiro alimenta o endividamento?
Ao longo do programa, o especialista enfatiza que o comportamento pesa tanto quanto a taxa de juros. Entre os fatores citados por ele:
– Falta de educação financeira básica
– Ausência de planejamento de gastos mensais
– Compras por impulso, muitas vezes estimuladas por descontos e promoções nas redes sociais
– Uso de crédito rotativo de cartão e cheque especial sem cálculo do impacto no orçamento
Pelissari destaca que, com a popularização de plataformas de venda ao vivo e ofertas relâmpago, o processo de compra ficou mais fácil do que o processo de reflexão. Sapatos, roupas ou eletrônicos aparecem com grandes descontos, em parcelamentos longos, e a decisão de poucos cliques pode comprometer meses de orçamento.
Essa dinâmica, apontada no programa, dialoga com a visão do Banco Central em seus relatórios de cidadania financeira, que tratam o consumo por impulso e a falta de informação como elementos de risco para a saúde financeira das famílias.
O que é a “Regra das 24 horas” para evitar compras por impulso?
Para lidar com o consumo emocional, Henrique Pelissari propõe uma técnica prática, apelidada por ele de “Regra das 24 horas”:
1. Você navega em um site, marketplace ou rede social e encontra um produto que deseja.
2. Em vez de clicar em “finalizar compra” na hora, coloca o item no carrinho.
3. Pausa a decisão e espera 24 horas.
4. No dia seguinte, revisa a compra: ainda faz sentido? Cabe no orçamento deste mês? Há outras prioridades?
Se, depois desse intervalo, a compra continuar racionalmente justificada e estiver dentro do limite de gastos que você definiu, a compra tende a ser mais consciente. Em muitos casos, porém, o desejo diminui, e o próprio consumidor percebe que estava apenas respondendo a um estímulo momentâneo.
Essa regra é um exemplo de como transformar educação financeira em rotina prática, e não em teoria abstrata.
Preciso gostar de matemática para organizar minhas dívidas?
Um ponto recorrente no debate foi o medo de muitas pessoas em relação à matemática. Pelissari relata que muita gente confunde educação financeira com cálculos complexos e, por não gostar de matemática, simplesmente evita olhar para os números.
Na visão do especialista, educação financeira é muito mais comportamental do que matemática avançada. Para começar:
– É suficiente saber somar e subtrair o que entra e o que sai.
– Calculadoras simples, planilhas, aplicativos e até ferramentas de inteligência artificial podem ajudar nas contas.
– Se ainda assim houver dificuldade, é possível pedir apoio a alguém de confiança para montar o primeiro diagnóstico.
O passo que não pode ser terceirizado é o da decisão de encarar o problema. Evitar olhar a fatura, ignorar ligações de cobrança e não abrir o extrato não fazem a dívida desaparecer, apenas aumentam o custo financeiro e emocional.
Materiais de educação financeira ligados a iniciativas oficiais como o programa Aprender Valor, do Banco Central, reforçam que competências básicas de matemática podem ser suficientes para melhorar muito a gestão do dinheiro quando combinadas com hábitos saudáveis de consumo.
O que a conversa não suaviza: o que não muda mesmo com mais educação financeira?
Embora o foco do programa esteja no comportamento individual, a discussão não ignora fatores estruturais que pesam no bolso do brasileiro:
– Juros elevados tornam erros de crédito muito caros, especialmente no rotativo de cartão e no cheque especial.
– A facilidade de acesso a crédito sem análise profunda da capacidade de pagamento pode empurrar famílias para ciclos de renovação de dívida.
– Diferenças de renda dentro da família e entre gêneros, mencionadas de forma geral na entrevista, ampliam a vulnerabilidade financeira de alguns grupos.
Esses elementos aparecem também em relatórios do Banco Central sobre endividamento e risco das famílias, disponíveis em séries específicas de dados abertos sobre endividamento das famílias com o sistema financeiro em relação à renda no portal Dados Abertos do BCB.
Para o leitor, o ponto central é: educação financeira e mudança de comportamento não anulam o peso dos juros, mas reduzem o quanto você se expõe a eles. Quanto menos você depender de crédito caro para fechar o mês, menos vulnerável fica às variações de política monetária e às ofertas agressivas de consumo.
Por onde começar, de forma prática, a sair das dívidas?
A experiência pessoal relatada por Henrique Pelissari no programa ilustra um caminho. Ao perceber o avanço do endividamento na própria família, ele ajudou a mãe a:
– Levantar todas as dívidas e credores
– Renegociar cartões e cheque especial
– Reduzir o número de instrumentos de crédito usados no dia a dia
– Tomar a decisão difícil de vender o carro para quitar débitos
A partir daí, a relação da família com o dinheiro mudou, com mais diálogo e menos tabu em torno do tema. Traduzindo esse percurso em passos práticos para qualquer pessoa, podemos organizar um roteiro de ação:
| Passo | O que fazer na prática | Ferramenta possível |
|---|---|---|
| 1. Encarar os números | Listar, em uma folha ou planilha, salário, outras rendas e todas as despesas fixas e variáveis | Caderno, planilha, app de finanças |
| 2. Mapear dívidas | Relacionar todas as dívidas, com valor total, parcela, taxa aproximada e atraso | Extratos bancários, faturas, apps |
| 3. Cortar vazamentos | Identificar gastos supérfluos mensais e cancelar ou reduzir imediatamente | Cancelar assinaturas, rever planos |
| 4. Aplicar a Regra das 24 horas | Suspender compras por impulso e rever após um dia à luz do orçamento | Carrinho de compras, lista de desejos |
| 5. Priorizar dívidas mais caras | Buscar, junto aos credores, renegociação começando pelas linhas com juros maiores | Canais oficiais de bancos e financeiras |
| 6. Simplificar o uso de crédito | Diminuir número de cartões e evitar rotativo e cheque especial como renda extra | Limites menores, menos cartões |
| 7. Criar rotina de acompanhamento | Reservar um dia fixo do mês para revisar orçamento e ajustar o plano | Agenda física ou digital |
Não há solução instantânea. Sair de uma situação de endividamento normalmente exige meses de disciplina e, em casos mais graves, anos. A vantagem de um roteiro claro é permitir que cada decisão de consumo seja tomada com base em uma fotografia real da sua vida financeira, e não em expectativas ou pressões externas.
Como dar o próximo passo sem depender de promessa milagrosa?
Quem busca reorganizar as finanças pode aproveitar dois tipos de apoio:
1. Fontes oficiais de informação, como os relatórios e séries estatísticas de cidadania financeira do Banco Central, que ajudam a entender como as famílias brasileiras, em média, usam crédito e se endividam.
2. Ferramentas simples de organização, das planilhas aos aplicativos, que permitem visualizar mês a mês se o plano está funcionando.
A partir daqui, a orientação prática é objetiva: escolha um dia nesta semana para montar seu diagnóstico financeiro básico, aplique a Regra das 24 horas em qualquer nova compra e, sempre que considerar uma renegociação ou linha de crédito, compare condições diretamente nos canais oficiais de bancos e instituições, sem se apoiar apenas em ofertas recebidas. A combinação de informação confiável, disciplina mínima e pequenos ajustes de comportamento tende a produzir mais resultado do que qualquer promessa de solução milagrosa para as dívidas.
Assista ao vídeo abaixo:
















