A XP revisou sua projeção para a Selic no fim de 2026 e passou a estimar uma taxa básica de juros mais alta do que previa anteriormente. Em relatório mensal de macroeconomia, a casa agora espera que a Selic encerre o ano em 14%, acima da estimativa anterior de 13,75%.
A mudança ocorre em meio a uma piora nas projeções de inflação. A XP elevou sua expectativa para o IPCA de 2026 de 5,3% para 5,5%. Para 2027, a previsão também subiu, de 4,0% para 4,2%. Com isso, o relatório aponta que o Banco Central deve ter menos espaço para avançar no ciclo de queda dos juros.
Em trecho assinado por Caio Megale, economista-chefe da XP, o relatório afirma que a piora do quadro inflacionário deve levar o Copom a uma atuação mais conservadora. “Diante da piora do quadro inflacionário, acreditamos que o Copom adotará uma postura ainda mais cautelosa do que se antecipava”, escreveu Megale.
Na prática, a XP agora projeta apenas dois cortes adicionais de 0,25 ponto percentual na Selic, seguidos por uma pausa para avaliação. Antes, a casa esperava três reduções de mesma magnitude. A revisão muda o tom da discussão sobre política monetária: o debate deixa de ser apenas sobre quando os juros vão cair e passa a ser sobre quanto espaço o Banco Central ainda tem para cortar a taxa sem comprometer as expectativas de inflação.
A deterioração do cenário vem tanto de fatores externos quanto domésticos. No ambiente global, a XP cita a continuidade das tensões no Oriente Médio, o petróleo em patamar elevado, a pressão sobre componentes tecnológicos provocada pela expansão dos investimentos em inteligência artificial e o risco de um El Niño severo, com possível impacto sobre os preços de alimentos.
No Brasil, a pressão vem também da demanda. Segundo o relatório, medidas fiscais e de crédito anunciadas pelo governo desde o fim de 2025 podem somar cerca de R$ 200 bilhões e adicionar até 1,5 ponto percentual ao crescimento do PIB em 2026. Esse impulso ajuda a sustentar a atividade no curto prazo, mas também dificulta o processo de desinflação.
A XP manteve a projeção de crescimento do PIB em 2,0% para 2026, apoiada pelo mercado de trabalho ainda aquecido e pelas medidas de estímulo à renda e ao crédito. Para 2027, porém, a expectativa é de desaceleração para 1,2%, diante da política monetária restritiva e de um impulso fiscal menor.
O relatório também destaca que o real tem ajudado a conter parte da pressão inflacionária importada. A moeda brasileira acumula valorização relevante no ano, o que reduz parte do impacto de preços globais mais altos sobre a inflação doméstica. Ainda assim, a XP avalia que o câmbio favorável não elimina os riscos, especialmente diante da volatilidade esperada no período eleitoral.
Para o investidor, a projeção de Selic mais alta reforça um cenário de juros elevados por mais tempo. Esse ambiente tende a manter a renda fixa atrativa, ao mesmo tempo em que aumenta o custo de capital para empresas e limita a recuperação de setores mais sensíveis ao crédito, como consumo, varejo, construção e companhias mais alavancadas.
A leitura central do relatório é que o ciclo de queda da Selic perdeu força. O Banco Central ainda pode reduzir os juros, mas a combinação de inflação mais alta, estímulo doméstico e choques globais reduziu a margem de manobra da autoridade monetária.














