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Investimentos internacionais ganham força em meio a tarifas, petróleo e risco fiscal no Brasil

No Global Wallet, Marcela Rocha, CIO da Avenue, analisa como geopolítica, juros, dólar e fiscal reforçam a importância da diversificação global.

Sofia TostaPor Sofia Tosta
03/06/2026

No Global Wallet, programa da BM&C News sobre investimentos internacionais, a conversa com Marcela Rocha, CIO da Avenue, partiu de um ambiente marcado por guerras, tensões geopolíticas, ameaças tarifárias, juros elevados e dúvidas sobre a trajetória da economia americana. A principal mensagem foi que o investidor precisa acompanhar esses riscos, mas sem abandonar a análise de fundamentos, alocação e diversificação.

Para Marcela, o mundo passou a conviver com fatores de instabilidade de forma mais persistente. Por isso, a estratégia de investimento exige a capacidade de separar ruídos de curto prazo, movimentos táticos e tendências estruturais, especialmente em mercados que reagem de formas diferentes a choques políticos, militares e econômicos.

“Tem que ser uma alocação ativa, atenta, no sentido de conseguir discernir o que é curto prazo, o que é longo prazo, o que pode ser tático e estrutural”, destacou Marcela Rocha.

Fundamentos das empresas seguem no centro da alocação

A executiva afirmou que, mesmo em um mundo com conflitos e ameaças tarifárias, os mercados globais continuam olhando para fundamentos corporativos. Bolsas em patamares elevados, resultados de empresas acima do esperado e juros globais mais altos indicam que os investidores passaram a conviver com a volatilidade sem necessariamente desmontar posições de longo prazo.

Marcela comparou essa postura com a dinâmica do mercado brasileiro, onde eventos políticos costumam gerar reações mais intensas nos ativos. Segundo ela, a experiência com gestão internacional mostra que o investidor americano tende a confiar mais nas instituições, nas regras do jogo e na capacidade das empresas de gerar lucro, crescer e entregar retorno ao acionista.

Tarifas de Trump expõem limites da negociação econômica

O debate também abordou o chamado tarifaço de Donald Trump e seus efeitos sobre a economia americana e global. Para Marcela, a estratégia do republicano misturou pressão política, tentativa de recompor parte da manufatura americana e uma lógica de negociação baseada em ameaças elevadas, mas com espaço posterior para recuo.

Na leitura da CIO da Avenue, Trump conseguiu impor tarifas mais altas do que as praticadas historicamente pelos Estados Unidos, mas teve dificuldade de sustentar a escalada contra a China. O impasse com Pequim mostrou que a rivalidade entre as duas potências não se resolve apenas por tarifas, já que os chineses também têm capacidade de resistência e instrumentos próprios de pressão.

“Contra a China foi a maior decepção em termos de tarifas, porque ali ele não conseguiu escalar”, avaliou Marcela Rocha.

Petróleo, Irã e inflação ampliam risco para os mercados

A tensão envolvendo Estados Unidos e Irã foi apontada como um risco mais sensível do que o próprio tarifaço. Marcela afirmou que uma escalada prolongada no Oriente Médio pode pressionar o petróleo, afetar cadeias de suprimentos, elevar custos de energia e contaminar outros preços, especialmente se o choque de oferta durar mais tempo do que o previsto.

Segundo ela, os mercados ainda trabalham com a hipótese de que o choque será temporário, mas a manutenção do petróleo em patamares elevados poderia alterar a estratégia de alocação global. O risco não está apenas na inflação, mas também no impacto sobre consumo, investimento, contratação e atividade econômica.

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“Esse petróleo nesse patamar de 100 dólares o barril, ele é muito perigoso para a economia”, alertou Marcela Rocha.

Diversificação global não deve depender apenas do câmbio

Ao tratar da alocação internacional, Marcela defendeu que investir fora do Brasil não deve ser uma decisão tomada apenas com base no câmbio do momento. Para ela, a diversificação em dólar permite acessar setores, regiões, empresas e teses que não estão disponíveis no mercado brasileiro, além de reduzir a concentração do patrimônio em um único país.

A executiva citou que, mesmo em meio à instabilidade global, o mercado americano teve períodos recentes de forte valorização, impulsionado por resultados corporativos e fundamentos. A mensagem para o investidor brasileiro é que tentar acertar o melhor ponto de entrada pode fazer com que oportunidades relevantes sejam perdidas.

“Uma diversificação internacional e a necessidade de ter a alocação lá fora e não tem que depender da taxa de câmbio atual”, explicou Marcela Rocha.

Brasil pode atrair fluxo, mas fiscal segue como principal fragilidade

Marcela avaliou que o Brasil tem elementos capazes de atrair investidores em um ambiente global mais complexo. O país não está diretamente envolvido em conflitos geopolíticos, tem juros elevados, ativos que já estiveram descontados e exposição relevante a commodities, além de potencial em minerais críticos associados à transição tecnológica e à inteligência artificial.

Apesar disso, a CIO da Avenue afirmou que o problema fiscal segue como o principal limitador para uma trajetória mais estável. Dívida elevada, juros altos, dificuldade de estabilizar as contas públicas e baixa previsibilidade política mantêm o país vulnerável a choques externos e a episódios recorrentes de volatilidade.

“Não importa esse pano de fundo global, esse evento lá fora é favorável, não importa o que aconteça com o desfecho de eleição, é uma questão difícil de ser resolvida”, ponderou Marcela Rocha.

Risco institucional diferencia Brasil e Estados Unidos

A conversa também passou pela diferença institucional entre Brasil e Estados Unidos, especialmente no papel dos bancos centrais. Marcela avaliou que a autonomia do Federal Reserve, a composição do comitê e a força das instituições americanas reduzem o risco de interferência direta, mesmo diante das críticas constantes de Trump ao presidente do Fed.

No Brasil, a independência do Banco Central foi vista como um avanço institucional recente, mas ainda sujeito a pressões políticas em períodos eleitorais. Para a executiva, a diferença entre os mercados está na previsibilidade das regras, na governança das instituições e na capacidade de reduzir ruídos políticos sobre decisões econômicas.

“Se continuar só criticando ali na eleição e usando como discurso, está ótimo. Já foi um ganho institucional enorme pro Brasil”, afirmou Marcela Rocha.

Investidor precisa olhar portfólio como proteção de longo prazo

A conclusão do Global Wallet foi que a diversificação internacional deve ser tratada como parte estrutural da construção patrimonial, e não apenas como reação a crises no Brasil. Mesmo quem não vive fora do país tem parte do consumo impactada pelo dólar, seja em produtos, serviços, tecnologia, viagens ou itens da cesta cotidiana.

Em um ambiente de conflitos, tarifas, petróleo pressionado, juros elevados e risco fiscal doméstico, a alocação global passa a ter papel de proteção e acesso a oportunidades. Para Marcela, o investidor brasileiro precisa separar conjuntura de estratégia e entender que a exposição internacional ajuda a reduzir a dependência dos ciclos políticos e econômicos locais.

“Você vai ficar exposto 100% ao país”, concluiu Marcela Rocha.

 

Foto: Reprodução BM&C NEWS

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