A experiência acumulada em mais de duas décadas de atuação humanitária levou a advogada Daniela Kallas a revisar a forma como governos, organismos internacionais e organizações sociais enfrentam crises. Em entrevista ao BM&C Talks, ela afirmou que mudanças duradouras dependem do fortalecimento das pessoas e das comunidades diretamente afetadas.
A trajetória de Daniela começou no Direito Internacional Humanitário e passou por campos de refugiados, zonas de conflito e projetos de desenvolvimento em países como Palestina, Sudão, Haiti, Ucrânia, Nepal, Quênia e Angola. O contato com essas realidades alterou sua percepção sobre o alcance das normas internacionais e a capacidade das grandes instituições de promover mudanças concretas.
“Hoje em dia eu acredito muito mais na transformação local. Eu acho que o mundo ele vai ser transformado através do micro pro macro e não mais do macro pro micro”, afirma Daniela Kallas.
População civil permanece fora das narrativas de guerra
Segundo Daniela, a cobertura dos conflitos costuma se concentrar em disputas territoriais, estratégias militares e decisões políticas, enquanto as consequências para a população civil recebem menos espaço. Mulheres, crianças, refugiados e comunidades deslocadas enfrentam efeitos prolongados, que permanecem mesmo depois que uma guerra deixa de ocupar as manchetes.
Essa distância também influencia a maneira como governos, empresas e investidores interpretam acontecimentos internacionais. Indicadores como petróleo, inflação, juros e bolsas ajudam a dimensionar os impactos econômicos, mas não revelam integralmente a perda de renda, a interrupção da educação, os deslocamentos populacionais e a destruição da capacidade produtiva local.
“Eu não tô aqui levantando bandeira de um lado nem de outro. Eu tô querendo mostrar o sofrimento da população civil que decide muito pouco, que tem acesso a muito pouco”, explica Daniela Kallas.
Liderança local sustenta projetos humanitários
A atuação em diferentes comunidades mostrou que projetos desenvolvidos sem participação local podem perder resultados após a saída das organizações responsáveis. Para reduzir esse risco, Daniela defende que as iniciativas respeitem a cultura de cada território e sejam conduzidas por lideranças que conheçam as necessidades, os valores e as limitações daquela população.
Esse modelo exige cooperação, acompanhamento e persistência. Em vez de apresentar agentes externos como responsáveis por salvar comunidades, a proposta é criar condições para que os próprios moradores desenvolvam negócios, organizem serviços, ampliem o acesso à educação e construam fontes permanentes de renda.
“Você precisa de um líder local, porque é esse líder local que vai te direcionar e que vai fazer o negócio perdurar”, destaca Daniela Kallas.
Livro discute as fronteiras do colapso
Parte dessas experiências foi reunida no livro As Fronteiras do Colapso, escrito por Daniela em parceria com uma especialista em tráfico humano. A obra aborda a situação de mulheres e crianças em zonas de guerra, o uso da violência contra populações vulneráveis e a distância entre os objetivos internacionais de desenvolvimento sustentável e a realidade observada nos territórios.
A análise também questiona a capacidade do sistema multilateral de responder a conflitos prolongados e crises humanitárias. Para Daniela, os organismos internacionais continuam desempenhando funções relevantes, mas enfrentam dificuldades para converter recursos, normas e compromissos políticos em proteção efetiva para as populações atingidas.
“Eu acho que é um colapso moral que a gente não enxerga”, avalia Daniela Kallas.
Conflitos produzem efeitos econômicos de longo prazo
A leitura histórica dos conflitos é necessária para compreender seus impactos econômicos e geopolíticos. Intervenções externas, disputas por recursos naturais, mudanças de governo e ocupações territoriais criam consequências que podem atravessar décadas e afetar cadeias produtivas, fluxos migratórios, preços de commodities e relações comerciais.
Nesse contexto, decisões orientadas apenas por objetivos imediatos podem ampliar a instabilidade. A reconstrução institucional, a geração de oportunidades e o fortalecimento da economia local exigem políticas de longo prazo, especialmente em países marcados por colonização, guerras civis ou sucessivas intervenções estrangeiras.
“Então eu acho que tudo, toda ocupação vai chegar na gente de alguma forma, com aumento de preço de alguma coisa, com a falta de algum insumo”, observa Daniela Kallas.
Empresas podem combinar lucro e impacto social
No setor privado, Daniela defende que retorno financeiro e impacto social não são objetivos incompatíveis. Investimentos voltados à redução de resíduos, à criação de empregos, à capacitação profissional e ao desenvolvimento das comunidades podem gerar receita e, simultaneamente, responder a problemas ambientais e sociais.
A discussão será aprofundada no programa Impacto SA, idealizado por Daniela e previsto para estrear em 16 de agosto na BM&C News. A proposta é apresentar iniciativas de empresas, executivos e empreendedores que incorporam o impacto social às estratégias de negócio, mostrando como as decisões empresariais podem produzir efeitos além dos resultados financeiros.
“A gente visa o lucro, a gente quer ganhar dinheiro, não tem problema nenhum, a gente não é contra o capitalismo, mas a gente quer construir algo que traga uma solução para um problema ambiental”, ressalta Daniela Kallas.
Desenvolvimento depende da criação de oportunidades
Os exemplos apresentados durante a entrevista indicam que o impacto social pode partir tanto de grandes empresas quanto de empreendedores inseridos nas próprias comunidades. Projetos conduzidos por mulheres, pequenos produtores e lideranças locais mostram que o acesso a capital, tecnologia, capacitação e redes de apoio pode estimular novos negócios e manter a renda circulando dentro dos territórios.
Para investidores e empresários, essa perspectiva amplia a análise sobre desenvolvimento. Além dos indicadores financeiros, torna-se necessário observar a capacidade de cada iniciativa de gerar oportunidades, reduzir vulnerabilidades e permanecer ativa no longo prazo. Na avaliação de Daniela, fortalecer estruturas locais é um caminho para transformar ações pontuais em mudanças econômicas e sociais permanentes.














