Quando Elon Musk tinha apenas três anos de idade, um engenheiro brasileiro já apresentava ao mundo um carro elétrico desenvolvido no Brasil. Em 1974, durante o Salão do Automóvel de São Paulo, João Gurgel revelou o Itaipu, considerado o primeiro carro elétrico desenvolvido na América Latina. O projeto nasceu em um período em que praticamente ninguém discutia transição energética, descarbonização ou mobilidade sustentável. Décadas antes de Tesla, BYD e tantas outras fabricantes transformarem o setor automotivo, um brasileiro já tentava construir uma alternativa ao motor à combustão.
A história é fascinante não apenas pela inovação tecnológica, mas principalmente pelo que ela revela sobre o Brasil. Em 1981, a Gurgel deu um passo além e lançou o Itaipu E-400, o primeiro veículo elétrico produzido em série no país. O modelo chegou a ser utilizado por empresas estatais e órgãos públicos, demonstrando que havia demanda e aplicações práticas para a tecnologia.
Mas a iniciativa não prosperou. As limitações tecnológicas da época eram evidentes. As baterias eram pesadas, caras, tinham baixa autonomia e exigiam longos períodos de recarga. Além disso, o ambiente econômico brasileiro era marcado por inflação elevada, instabilidade, burocracia e um sistema tributário complexo que dificultava investimentos de longo prazo. O resultado foi que um projeto promissor acabou não encontrando as condições necessárias para evoluir. O mais interessante é observar o que aconteceu nas décadas seguintes.
Enquanto o Brasil abandonava gradualmente essa agenda, outros países decidiram transformá-la em estratégia nacional. A China, talvez, seja o exemplo mais emblemático. Durante anos, o governo chinês promoveu investimentos em pesquisa, produção de baterias, mineração de minerais estratégicos, infraestrutura de recarga e incentivos à indústria automotiva elétrica.
O resultado está diante dos nossos olhos. Hoje, empresas chinesas lideram a expansão global dos veículos elétricos. A BYD se tornou uma das maiores fabricantes do mundo e avança rapidamente no mercado brasileiro.
Outras montadoras chinesas também conquistam espaço relevante, trazendo modelos mais acessíveis e ampliando a concorrência no setor.
A comparação inevitavelmente levanta uma pergunta: o que teria acontecido se o Brasil tivesse mantido uma política consistente de desenvolvimento tecnológico e industrial ao longo dessas últimas cinco décadas?
Não existe resposta definitiva. Talvez a Gurgel não tivesse sobrevivido de qualquer forma. Talvez a evolução das baterias ainda representasse um obstáculo intransponível. Talvez o mercado brasileiro não tivesse escala suficiente para sustentar o projeto.
Mas o fato é que países que hoje lideram setores estratégicos da economia global fizeram algo que o Brasil raramente consegue fazer: pensar em horizontes de 20, 30 ou 40 anos.
O problema brasileiro não é a falta de talento, criatividade ou capacidade empreendedora. João Gurgel provou isso há mais de meio século. O problema está na dificuldade de transformar inovação em política de Estado, capaz de sobreviver às mudanças de governo, aos ciclos econômicos e às crises conjunturais.
A história do Itaipu é um lembrete poderoso de que oportunidades perdidas nem sempre desaparecem por falta de visão tecnológica. Muitas vezes elas desaparecem por falta de continuidade.
O Brasil já demonstrou inúmeras vezes que consegue gerar ideias pioneiras. O desafio continua sendo transformar pioneirismo em liderança duradoura.
Porque chegar primeiro importa. Mas permanecer na liderança é o que realmente transforma uma inovação em riqueza, empregos e desenvolvimento econômico.
*Coluna escrita por Bruno Corano, economista, investidor e empreendedor, fundador da Corano Capital, com escritórios em Nova York e São Paulo.
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

