Jovens sempre foram rebeldes – até quando fazem parte de uma geração conservadora. Faz parte do comportamento da juventude contestar tudo, em especial as escolhas dos mais velhos. Neste contexto, as escolhas políticas da atual geração seguem o mesmo roteiro: o de rejeitar o passado. Não é à toa, portanto, que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja rejeitado por quase ¾ das pessoas que têm entre 16 e 34 anos.
O colunista Preto Zezé, em texto publicado ontem no jornal “O Globo”, discutiu esse tema: “O jovem não reconhece a autoridade herdada, reage mal à pedagogia tradicional e mostra pouca paciência para discursos que não dialogam com a vida concreta. […] Parte da análise pública escorrega ao explicar o afastamento como simples virada ideológica. A ideia de migração automática para a direita pode confortar alguns diagnósticos, mas não dá conta da complexidade do fenômeno, em que o mais evidente não é adesão plena a outro campo e sim um deslocamento de confiança em relação ao que está posto”.
É um “nós contra eles” diferente daquele pregado pelo PT. Em vez de ricos contra pobres, temos aqui novas ideias em contraposição a conceitos arcaicos. A juventude rejeita a fórmula que nos levou ao cenário atual e busca soluções inéditas.
O jovem, assim, se sensibiliza com políticos que se contraponham ao chamado establishment e que se mostrem contrários a quem ocupa o poder. Nomes como Renan Santos, Nikolas Ferreira e André Ferreira. Do outro lado do tabuleiro ideológico, deputadas como Tábata Amaral e Sâmia Bomfim também se ganham destaque entre o eleitorado jovem. Tábata é mais pragmática e Sâmia tem um perfil mais combativo. Mas ambas questionam os modelos estabelecidos e apresentam mais projetos que a média observada na Câmara.
O presidente Lula se afastou dessa nova geração e não parece entendê-la. Continua acreditando em uma pauta política baseada em questões trabalhistas ou assistenciais, sem se preocupar quais são as questões sociais que realmente estão preocupando essa geração. Neste sentido, Lula e uma boa parte da classe política tentam sensibilizar quem busca ideias novas com velhas fórmulas.
Até a década de 1920, 90% dos lares nas grandes cidades americanas tinham armários refrigerados – caixas que utilizavam blocos de gelo, entregues a domicílio, para conservar alimentos e refrescar bebidas. Foi nesta época que surgiram as geladeiras elétricas, que geraram enorme interesse entre os consumidores. O que fizeram os fabricantes de gelo? Investiram em uma estratégia agressiva de aumento na produção e redução de custos (os preços do gelo chegaram a cair 50% neste período, anunciados em campanhas publicitárias que destacavam a pureza do gelo natural frente aos supostos gases tóxicos das geladeiras).
Como se sabe, as geladeiras tomaram conta do mercado e varreram os fabricantes de gelo do mapa. Essa metáfora ajuda a explicar o quadro político atual. Não adianta dar uma roupagem moderna a velhas ideias, como quer o governo. É preciso entender o que os jovens desejam – mesmo que eles não saibam explicar direito.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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