A queda da Bolsa em períodos eleitorais costuma vir acompanhada de saída de capital estrangeiro e de aumento do medo, mas, na avaliação do comentarista Miguel Daoud, esse movimento tende a ser temporário e exige mais paciência do que ação precipitada por parte do investidor pessoa física.
O debate sobre volatilidade eleitoral voltou ao centro do mercado com a proximidade das urnas e relatos de vendas sucessivas na Bolsa. Em entrevista a BM&C News, o analista Miguel Daoud relaciona esse humor mais negativo à incerteza sobre os programas econômicos dos principais candidatos e à dificuldade de o investidor enxergar clareza na condução das contas públicas nos próximos anos.
A volatilidade eleitoral realmente afasta o investidor estrangeiro?
No programa, Daoud afirma que considera “natural” haver uma fuga de capital estrangeiro em momentos de eleição e polarização, associando esse comportamento à dúvida sobre “qual vai ser o destino do Brasil”. Trata-se de uma leitura de mercado, não de um dado estatístico apresentado em tela.
Quem quer confirmar se há, de fato, saída líquida de estrangeiros em ações pode recorrer a bases oficiais. A B3 divulga periodicamente os dados de fluxo de investidores não residentes em página própria, em “dados do fluxo de investimento estrangeiro”. O Banco Central também disponibiliza séries sobre investimentos em carteira, posição internacional de investimento e investimento direto, que ajudam a enxergar o apetite do capital externo para o país de forma mais ampla.
Essas estatísticas permitem separar narrativa de evidência: é possível verificar não apenas se há entrada ou saída líquida em um período, como também comparar ciclos eleitorais distintos e avaliar se o comportamento atual foge ao padrão histórico ou repete movimentos de outras eleições.
O que Miguel Daoud vê nos programas econômicos dos candidatos?
Na entrevista, Daoud critica a falta de detalhamento dos planos econômicos. Ele comenta o programa do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, que descreve como “mais do mesmo”, argumentando que o documento fala em redução da taxa de juros sem explicar o mecanismo, enfatiza o tema da soberania e menciona “ajustes” sem detalhar formato ou trajetória.
Sobre o principal adversário, a transcrição identifica o nome como “Flávio”, mas sem esclarecimento adicional. Daoud diz que o plano desse candidato ainda não estaria definido, citando apenas ideias soltas, como uso de fundos imobiliários, e resgata tentativa anterior atribuída a Paulo Guedes que, na visão dele, não funcionou.
Esses pontos são comentários opinativos sobre programas de governo que não são reproduzidos no vídeo nem na transcrição. Quem quiser confrontar essa leitura com os documentos originais precisa recorrer aos registros de planos de governo no Tribunal Superior Eleitoral ou a repositórios oficiais de campanha, que não fazem parte desta apuração.
Como acompanhar, na prática, se o gringo está entrando ou saindo da Bolsa?
Para além das percepções de analistas, o investidor pode acompanhar diretamente as estatísticas de capital estrangeiro em ações e demais ativos listados no Brasil. As principais portas de entrada são:
| Tipo de informação | Onde consultar | O que mostra |
|---|---|---|
| Fluxo de estrangeiros em ações na B3 | Página de fluxo de investimento estrangeiro da B3 | Entradas e saídas diárias ou mensais de não residentes na Bolsa, por segmento de negociação |
| Estoque de investimentos em carteira | Base “24015 – Investimentos em carteira – estoque” do dados abertos do Banco Central | Posição consolidada de ativos detidos por não residentes, como ações e títulos |
| Investimento estrangeiro direto (IED) | Tabela consolidada de IED do Banco Central | Fluxos e estoques de investimento de longo prazo em empresas no país |
| Posição Internacional de Investimento (PII) | Série histórica de PII do Banco Central | Panorama geral dos ativos e passivos externos da economia brasileira, incluindo capital de não residentes |
Ao cruzar essas fontes, o investidor tem condições de responder perguntas objetivas: o estrangeiro está vendendo ações brasileiras ou apenas mudando a composição entre Bolsa e renda fixa? O estoque de capital externo no país está mais alto ou mais baixo que em ciclos anteriores? O dado confirma ou contraria o discurso dominante nas redes sociais e nos relatórios?
Essa checagem independente ajuda a reduzir o ruído típico de período eleitoral, em que relatórios de bancos, como o suposto rebaixamento de recomendação do Brasil por parte do JP Morgan mencionado pelo apresentador, circulam com velocidade, mas nem sempre são analisados na íntegra pelo público.
Vender na queda ou manter a posição, o que o analista defende?
O ponto central de Miguel Daoud é comportamental. Ele diz que muitos investidores pessoa física que entraram na Bolsa em momentos de otimismo tendem a se apavorar na primeira sequência de quedas e a vender justamente no pior momento, “realizando prejuízo”.
Na visão do especialista, enquanto o investidor não vende, a perda é “virtual” e faz parte da volatilidade natural do mercado acionário, principalmente em fases de incerteza política. Por isso, ele defende uma postura de paciência, com foco no longo prazo, evitando o efeito manada alimentado por discursos catastrofistas.
Essa é uma tese clássica da literatura de finanças comportamentais, mas não elimina a necessidade de cada pessoa avaliar perfil de risco, horizonte de investimento e necessidade de liquidez. A mesma queda que para um investidor de longo prazo pode ser ruído de curto prazo, para alguém que precisa do dinheiro em poucos meses pode representar um risco concreto.
Uma forma prática de organizar as decisões é separar o que depende do indivíduo do que depende do cenário:
| Dimensão | Depende de você | Depende do cenário |
|---|---|---|
| Horizonte de investimento | Definir se os recursos para Bolsa são de longo prazo ou têm data certa para uso | Eleições podem alongar ou encurtar ciclos de recuperação de preços |
| Tolerância a perdas | Avaliar quanto de oscilação você suporta sem tomar decisões impulsivas | A volatilidade aumenta em ciclos eleitorais e de crise externa |
| Diversificação | Distribuir recursos entre classes de ativos de acordo com seu perfil | Taxa de juros, câmbio e confiança afetam o desempenho relativo de cada classe |
A decisão de vender, manter ou reforçar posição não deve ser tomada apenas com base no medo ou em opiniões isoladas, mas em critérios objetivos, coerentes com a estratégia pessoal.
O que não muda mesmo com a incerteza eleitoral?
Um ponto incômodo, que muitas vezes passa ao largo da comunicação oficial, é que eleição não altera a natureza de risco da renda variável. A Bolsa continuará sujeita a ciclos de euforia e pânico, independentemente de qual candidato vença, e o investidor minoritário seguirá com pouca influência direta sobre política econômica de governo.
Daoud lembra que já presenciou crises como as da Ásia, da Rússia e da desvalorização cambial, e que todas seguiram um roteiro parecido de pânico seguido de acomodação. A mensagem implícita é que o Brasil já atravessou choques relevantes sem que o mercado de capitais deixasse de existir ou de oferecer oportunidades em algum momento posterior.
Outro aspecto estrutural destacado por ele é que o país conta hoje com um mercado mais organizado, com grande número de investidores, empresas listadas e gestores profissionais qualificados. Esses fundamentos institucionais não se alteram de um dia para o outro com a troca de governo e ajudam a dar alguma continuidade ao ambiente de negócios, ainda que o noticiário político seja ruidoso.
Como usar essas informações para decidir com mais calma?
Para quem está incomodado com a queda da Bolsa e com as manchetes sobre saída de capital estrangeiro, alguns passos ajudam a transformar ansiedade em processo:
Na prática, a melhor defesa contra a volatilidade eleitoral é combinar informação de qualidade, uso das bases oficiais e uma estratégia pessoal clara. O mercado vai continuar reagindo às disputas políticas, mas a forma como cada investidor se organiza diante disso é o ponto em que há, de fato, poder de escolha.
Assista ao vídeo abaixo:















