A situação fiscal, o custo do crédito e a ausência de um planejamento de longo prazo permanecem no centro das preocupações de empresários e investidores. Durante o Painel BM&C, o economista Carlos Honorato, o analista de economia e política Miguel Daoud e o empresário Marcelo Cherto discutiram a distância entre os indicadores apresentados pelo governo e as dificuldades enfrentadas na economia real.
Embora o governo projete melhora das contas públicas e resultado superavitário em 2027, o Tesouro Nacional busca ampliar o limite para a emissão de títulos no exterior. Para os participantes, captar recursos internacionais não representa, por si só, um problema, desde que os custos e os prazos sejam adequados. A operação, no entanto, não substitui um ajuste estrutural das despesas públicas.
“Os dados comprovam e mostram que a situação fiscal brasileira não é adequada”, avalia Carlos Honorato.
Juros elevados pressionam empresas e consumidores
A taxa básica de juros próxima de 15% ao ano amplia o custo dos financiamentos e chega ao setor produtivo em percentuais ainda maiores. Empresas que contrataram crédito durante a pandemia a taxas reduzidas passaram a enfrentar encargos superiores a 20%, enquanto parte do setor privado recorre à recuperação judicial ou à renegociação de dívidas para preservar suas operações.
A pressão também alcança os consumidores. O avanço da inadimplência, a redução da capacidade de compra e o parcelamento de despesas de baixo valor indicam que parte das famílias enfrenta dificuldades para financiar gastos cotidianos. Para Marcelo Cherto, que atua com grandes empresas e pequenos franqueados, o enfraquecimento da atividade é percebido nas duas pontas do mercado.
“Estão contando histórias completamente diferentes”, compara Marcelo Cherto ao confrontar o discurso oficial com a realidade vivida pelos empresários.
Transparência fiscal é necessária para recuperar confiança
A gestão da dívida pode reduzir custos e alongar vencimentos, mas não resolve isoladamente o desequilíbrio das contas públicas. Na análise dos debatedores, sucessivas exceções, mudanças de regras e mecanismos contábeis dificultam a compreensão do resultado fiscal efetivo e reduzem a previsibilidade necessária para decisões de investimento.
Os participantes defenderam uma apresentação mais clara do déficit, das despesas obrigatórias e do volume destinado ao pagamento de juros. Também destacaram a necessidade de avaliar a qualidade dos gastos públicos, o peso das emendas parlamentares e os privilégios existentes em determinados segmentos do Estado antes de ampliar a arrecadação sobre empresas e consumidores.
“É melhor você ter uma situação fiscal clara e transparente”, argumenta Carlos Honorato.
Falta de projeto aumenta incerteza econômica
Além do desequilíbrio fiscal, o painel apontou a ausência de um projeto de desenvolvimento capaz de estabelecer prioridades para saúde, infraestrutura, endividamento das famílias e inserção internacional. Segundo os debatedores, a polarização política concentra a discussão em ataques entre grupos adversários, enquanto propostas técnicas e estratégias de longo prazo recebem menos espaço.
Essa falta de planejamento influencia diretamente a formação das expectativas. Empresas precisam decidir sobre abertura de unidades, contratações e investimentos sem clareza sobre o comportamento futuro dos juros, dos tributos e das despesas públicas. Para o mercado, a previsibilidade pode pesar tanto quanto a orientação ideológica de um governo.
“Nós não discutimos um projeto pro Brasil”, alerta Miguel Daoud.
Arrecadação desafia o papel do Estado
A regulamentação das plataformas de apostas foi citada como exemplo do conflito entre a necessidade de arrecadação e a responsabilidade social do poder público. Embora o setor gere receitas tributárias, os participantes destacaram os efeitos do vício, do endividamento e da transferência de renda para empresas estrangeiras, além da influência da publicidade sobre consumidores financeiramente vulneráveis.
A recuperação da confiança na economia brasileira, na avaliação do painel, dependerá de maior transparência sobre os números públicos, controle das despesas e definição de prioridades. Sem um projeto que articule responsabilidade fiscal, proteção social e condições para o setor privado investir, o país tende a continuar administrando desequilíbrios sem enfrentar suas causas estruturais.
“O Brasil precisa de um projeto e não somos nós aqui que vamos fazer um projeto”, conclui Miguel Daoud.














