O teatro Lumière, principal palco do Palais des Festivals, recebeu nesta edição do Cannes Lions a empresária e ícone da TV norte-americana Oprah Winfrey para a entrega do LionHeart Award 2026. A honraria é concedida a líderes globais que utilizam seu alcance e plataformas para gerar impacto social. Após recusar convites consecutivos da organização desde 2012, Winfrey aceitou participar do evento e concedeu entrevista ao chairman do festival, Philip Thomas.
A executiva foi condecorada pela revista Forbes com o título exato de “Forbes’ Greatest Living Self-Made American”. Na lista geral e histórica da publicação — que engloba figuras já falecidas e é liderada pelo presidente Abraham Lincoln —, Winfrey alcançou o primeiro lugar entre todos os nomes vivos. Além disso, registrou a pontuação máxima histórica (Self-Made Score 10) segundo os critérios da revista, que medem o nível de adversidade superado para construir um império a partir do zero. Durante a conversa, Winfrey abordou a construção de marcas globais, processos de decisão e o papel da intenção como ativo corporativo.
Em sua exposição para uma plateia composta por CEOs, CMOs e investidores do setor criativo, Winfrey revelou que rejeitou o conceito de “marca” entre 1986 e 1989, nos primeiros anos de expansão de seu império de mídia.
“Quando comecei, resisti 100%. Nunca quis ser chamada de marca. Sentia que isso tirava do meu real propósito, que era prestar um serviço”, disse ela. A mudança de posicionamento ocorreu quando identificou que o alinhamento mais duradouro e rentável não deriva de fórmulas de marketing, mas da consistência entre propósito e execução. “E agora aceitei que sou uma marca, e aceito que meu coração é minha marca”, afirmou.
Ao reconhecer que sua própria identidade funcionava como marca, Winfrey estruturou plataformas de mídia e produtos editoriais com base nessa premissa, criando vínculo com o público sustentado por critérios que extrapolam métricas de exposição.
Essa abordagem redefiniu a governança da Harpo Productions. Após a leitura do livro The Seat of the Soul, de Gary Zukav, em 1989, a empresa instituiu procedimento interno segundo o qual nenhum projeto, programa ou entrevista é liberado sem avaliação prévia de intenção. “Eu disse a todos os meus produtores: não vamos fazer nenhum programa a menos que eu esteja alinhada com a sua intenção”, contou Winfrey. Reuniões obrigatórias de pré-produção definem o objetivo de cada entrega, enquanto reuniões pós-programa verificam se o propósito foi alcançado. “Tínhamos uma reunião antes de cada programa para falar sobre a intenção, e depois do programa perguntávamos: cumprimos a intenção?”
Winfrey citou episódios específicos para demonstrar como o alinhamento de propósito protege a operação contra decisões puramente comerciais e riscos de imagem. Um deles foi o caso de uma mãe que aceitou participar do programa após o assassinato da filha.
“Todo mundo quer falar sobre o assassinato. Mas minha filha tinha uma vida, e estou aqui para falar sobre a vida dela”, relatou a executiva.
Outro exemplo citado foi a entrevista com Whitney Houston, na qual a integridade da artista foi preservada durante a transmissão.
Ao tratar do comportamento do consumidor e da psicologia de audiência, Winfrey apresentou observação extraída de décadas de entrevistas com líderes globais, como Barack Obama, e com cidadãos em situações de vulnerabilidade. “Depois de cada programa, não importa quem seja — Barack Obama, a mulher na rua —, todos fazem a mesma pergunta: ‘Eu fui bem? Você me ouviu? O que eu disse significou algo para você?’” Para o mercado de marcas, o dado indica que, além de segmentações e análises de dados, o consumidor final busca ser reconhecido. A entrega dessa validação de forma autêntica constitui mecanismo de redução de atrito em relacionamentos com clientes e de construção de fidelidade de longo prazo.
Winfrey também detalhou sua visão sobre responsabilidade social corporativa ao relembrar o processo de estruturação de sua academia para meninas na África do Sul.
“Eu não construí aquela escola porque era uma menina do Mississippi sem água encanada. Eu a construí porque queria interromper a pobreza”, explicou.
A executiva afirmou que filantropia e investimento social não devem ser tratados como instrumentos de relações públicas ou ações pontuais, mas como mecanismos de mobilidade social e interrupção de ciclos de desigualdade. Ao mencionar sua própria trajetória, iniciada em condição de pobreza extrema no Mississippi rural, sem acesso a água encanada e sem presentes em datas comemorativas, Winfrey indicou que dificuldades operacionais e crises de percurso funcionam como fatores de desenvolvimento da capacidade de governança.
Ao encerrar a participação, Winfrey citou ensinamento de sua mentora, a escritora Maya Angelou, para reposicionar o conceito de retorno sobre investimento (ROI).
“Seu legado não é seu nome em um prédio. Seu legado é cada vida que você toca”, disse ela.
Segundo Winfrey, o legado de uma trajetória empresarial não se mede exclusivamente pelo nome em edificações ou por resultados financeiros positivos, embora lucro e escala integrem a operação de qualquer negócio sustentável. O impacto duradouro, afirmou, está na capacidade de uma marca estruturar transformações humanas em escala, mantendo a construção de relevância de mercado ancorada no compromisso de elevar o padrão da sociedade.

