O crescimento das franquias no Brasil depende não apenas da abertura de unidades, mas da capacidade de transformar conhecimento, cultura e experiência em processos replicáveis. Durante o Leaders Connection, realizado na ABF Expo 2026, Gustavo Albanesi, cofundador e CEO do Buddha Spa, e Clayton Vittor, fundador e CEO da Só Multas, analisaram os desafios de estruturar redes em segmentos distintos.
Embora atuem nos mercados de bem-estar e serviços de trânsito, os empresários concordam que uma expansão sustentável exige clareza sobre a proposta da marca, organização operacional e consistência na entrega. Antes de franquear, o empreendedor precisa compreender qual problema pretende resolver, quais são os diferenciais do negócio e quais elementos devem ser preservados em todas as unidades.
“Eu acho que, para todo o negócio, primeira coisa é o porquê, é o propósito. Onde você quer chegar, por que que você tá empreendendo naquele segmento e não em outro?”, afirma Gustavo Albanesi.
Expansão testa logística e rentabilidade
A trajetória da Só Multas mostra que o crescimento de uma rede nem sempre segue o planejamento geográfico considerado ideal. Fundada em Belo Horizonte, em 2015, a empresa abriu sua primeira franquia fora de Minas Gerais, na Bahia, movimento que elevou os custos logísticos e exigiu ajustes para manter preços e padrões de atendimento em diferentes regiões.
A expansão também obrigou a franqueadora a revisar processos, custos e a divisão dos resultados com os franqueados. Segundo Vittor, parte dos serviços inicialmente gerava prejuízo, situação corrigida à medida que a operação ganhou escala e aprimorou seus controles. A experiência reforçou a importância de testar a viabilidade financeira do modelo antes de acelerar a presença nacional.
“Só que, quando você é pequeno, você não escolhe onde você vai vender uma franquia. Você é buscado por pessoas que querem investir no seu negócio”, relata Clayton Vittor.
Padronização precisa preservar a experiência
No setor de bem-estar, o desafio está em estabelecer procedimentos comuns sem retirar o componente humano do atendimento. O Buddha Spa estruturou protocolos para diferentes etapas da jornada do consumidor, da recepção à realização dos serviços, e criou uma escola própria para formar profissionais, promover reciclagens e acompanhar o desenvolvimento das equipes.
Albanesi avalia que manuais e treinamentos técnicos, isoladamente, não garantem uma experiência uniforme. Os colaboradores precisam compreender o propósito de cada etapa e o impacto dos rituais sobre o consumidor. A cultura organizacional funciona, portanto, como a base para que os processos sejam executados com consistência, sem tornar o atendimento mecânico.
“Na hora que você protocola a rotina do que você tem que fazer a cada passo, você tem uma receita do bolo. Mas o mais difícil é fazer acontecer”, explica Gustavo Albanesi.
Inteligência artificial amplia a eficiência interna
A inteligência artificial já modifica a gestão das redes, principalmente nas atividades internas das franqueadoras. No Buddha Spa, a tecnologia é aplicada em processos comerciais, auditorias, produção de conteúdo, revisão de contratos e relacionamento com clientes. A empresa também desenvolve agentes de IA para executar tarefas específicas, com validação posterior das equipes responsáveis.
Na Só Multas, a aplicação está concentrada no tratamento de documentos e no acompanhamento de processos administrativos. Como a companhia precisa consultar periodicamente órgãos de trânsito, a automação reduziu a necessidade de ampliar o quadro de funcionários na mesma proporção do crescimento da base de clientes. Os profissionais passaram a supervisionar e treinar os sistemas, em vez de realizar manualmente todas as consultas.
“Eu não precisei mandar ninguém embora depois da IA, mas eu deixei de contratar porque os humanos são pessoas que são treinadores de IA hoje”, destaca Clayton Vittor.
Inovação deve acompanhar a identidade da marca
O uso da tecnologia precisa ser incorporado aos diferentes departamentos sem afastar a empresa de sua proposta central. Para Albanesi, inovação não deve ser tratada apenas como responsabilidade da área de tecnologia, mas como parte da rotina dos setores comerciais, jurídicos, operacionais e de comunicação. A adoção de novas ferramentas precisa gerar velocidade, qualidade e maior assertividade.
“A gente não pode ser o mesmo há um ano atrás. Isso daí mantém a gente sempre atuando no norte, fortalecendo o negócio”, pondera Gustavo Albanesi.
Execução sustenta a expansão das franquias
A verticalização de atividades também ajuda as franqueadoras a proteger elementos considerados estratégicos. O Buddha Spa controla a formação dos terapeutas e o desenvolvimento dos produtos utilizados nas unidades, enquanto a Só Multas mantém uma estrutura própria dedicada à criação dos sistemas utilizados pelos franqueados. Essas iniciativas reduzem a dependência de fornecedores externos e ampliam o controle sobre a experiência entregue ao consumidor.
“Não adianta você ter um bom modelo de negócio com uma execução ruim. A execução é a grande parte do resultado”, reforça Clayton Vittor.
A perenidade de uma franquia depende, assim, da combinação entre propósito, método, acompanhamento, capital e capacidade de adaptação. Uma marca pode atrair investidores e acelerar a abertura de unidades, mas a confiança dos franqueados e consumidores será definida pela qualidade da execução em cada ponto de contato. Crescer com consistência exige proteger os padrões da rede sem impedir a inovação e as contribuições que surgem na operação.














