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Como fica a Selic? Economistas analisam os dados do IPCA

Inflação de junho mostrou melhora nos alimentos, nos núcleos e em parte dos serviços; economistas projetam corte de 0,25 ponto em agosto, mas veem risco de pausa diante do cenário externo

Renata NunesPor Renata Nunes
11/07/2026

A inflação brasileira perdeu força de maneira mais intensa do que o mercado esperava em junho e ampliou o espaço para o Banco Central reduzir a Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). O movimento, no entanto, ainda não é suficiente para garantir uma sequência prolongada de cortes nos juros.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 0,16% no mês, após alta de 0,58% em maio. O resultado ficou bem abaixo das projeções, que se concentravam entre 0,31% e 0,32%. Em 12 meses, a inflação desacelerou de 4,72% para 4,64%.

A surpresa positiva fortaleceu a possibilidade de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em agosto, dos atuais 14,25% para 14% ao ano. A continuidade da flexibilização, porém, dependerá da inflação de serviços, das expectativas e, principalmente, dos efeitos da alta do petróleo sobre os preços domésticos.

IPCA melhora composição da inflação

A principal contribuição para a desaceleração veio do grupo Alimentação e bebidas, que registrou queda de 0,24%, após avançar 1,33% em maio. A alimentação no domicílio recuou 0,39%, com reduções nos preços das carnes, do café moído e das frutas.

Além dos alimentos, a composição do IPCA apresentou sinais favoráveis em segmentos considerados mais relevantes para a condução da política monetária. Os serviços subjacentes, os bens industrializados e a média dos núcleos vieram abaixo das projeções.

Para Alexandre Maluf, economista da XP, o resultado não foi positivo apenas no índice cheio.

“No geral, o qualitativo desse IPCA foi benigno”, avaliou Maluf.

A média dos núcleos avançou 0,21% no mês, abaixo da projeção de 0,33% da XP. Na métrica de três meses anualizada e ajustada sazonalmente, o indicador recuou de 5,3% para 4,9%, segundo o economista.

Serviços desaceleram, mas ainda exigem cautela

A inflação de serviços também veio abaixo das expectativas, especialmente por causa da alimentação fora do domicílio, que subiu 0,15%. O componente representa parcela relevante dos serviços subjacentes e ajudou a melhorar a leitura qualitativa do índice.

Segundo Maluf, a métrica anualizada de três meses da inflação de serviços recuou de 5,6% para 4,8%, indicando uma moderação na margem.

Apesar do movimento, serviços mais associados ao mercado de trabalho continuam pressionados. Itens como empregado doméstico e cabeleireiro ainda registram reajustes e mostram que a inflação ligada à atividade econômica permanece resistente.

Julio Barros, economista do Daycoval, afirmou que os serviços subjacentes seguem desacelerando, mas alertou que os componentes intensivos em trabalho permanecem em patamar elevado e continuam sendo um desafio para o Banco Central.

Essa resistência ajuda a explicar por que um IPCA abaixo do esperado pode permitir o início ou a continuidade de um movimento de corte, mas não necessariamente autoriza uma flexibilização rápida da política monetária.

Mercado projeta corte de 0,25 ponto em agosto

O cenário-base apresentado pela XP contempla uma redução de 0,25 ponto percentual na reunião de agosto. Depois disso, a instituição projeta uma pausa no ciclo, com retomada dos cortes apenas em 2027.

A projeção mostra que o mercado pode interpretar o IPCA de junho como suficiente para uma redução pontual, mas ainda insuficiente para justificar cortes consecutivos. A inflação acumulada em 12 meses permanece em 4,64%, acima do limite superior de 4,5% citado nas análises.

André Matos, CEO da MA7 Negócios, também considera provável uma redução de 0,25 ponto percentual.

“Para a Selic, o resultado reforça a aposta de corte de 0,25 ponto em agosto, dos atuais 14,25% para 14%”, afirmou Matos.

O economista pondera, entretanto, que o Banco Central deve manter a cautela até entender se o choque recente no petróleo será passageiro ou persistente.

Petróleo pode alterar cenário para os juros

Embora o IPCA tenha mostrado uma desaceleração doméstica mais consistente, as análises indicam que o principal risco para a inflação se deslocou para o ambiente externo.

O dado de junho ainda não incorpora integralmente a alta mais recente do petróleo, ocorrida após uma nova escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã. Uma valorização prolongada da commodity pode pressionar os combustíveis, os fretes e os custos de produção, além de produzir efeitos sobre o câmbio.

Em junho, os combustíveis ajudaram a conter a inflação. O grupo recuou 0,48%, com quedas de 3,09% no etanol, 1,19% no diesel e 0,12% na gasolina. Esse comportamento pode não se repetir caso o petróleo permaneça em níveis elevados.

“O número tranquiliza no campo doméstico, e a preocupação maior passa a ser o risco importado”, declarou Matos.

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, avalia que a desaceleração reduz as preocupações com a dinâmica interna dos preços, mas aumenta a importância do cenário internacional.

“Esse resultado fortalece a leitura de que o Banco Central ganhou espaço para seguir o ciclo de flexibilização monetária, desde que os choques geopolíticos permaneçam contidos e as expectativas de inflação continuem convergindo”, analisou Lima.

Energia elétrica pressiona o índice

Enquanto alimentos e combustíveis contribuíram para o alívio, o grupo Habitação avançou 0,63% em junho. A energia elétrica residencial subiu 1,53% e apresentou o maior impacto individual sobre o IPCA.

O movimento refletiu a manutenção da bandeira tarifária amarela e reajustes autorizados em algumas concessionárias. Apesar de ser um preço administrado, a energia pode gerar efeitos indiretos sobre os custos das empresas e sobre os preços de outros produtos e serviços.

Na avaliação de Barros, a alta da energia elétrica e a leve queda da gasolina já eram esperadas e não representaram uma surpresa relevante na leitura dos preços administrados.

O risco para o Banco Central está na possibilidade de a pressão da energia se combinar com um choque do petróleo, produzindo impactos mais amplos sobre a inflação e dificultando a convergência das expectativas.

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Selic deve cair, mas ciclo pode ser curto

O IPCA de junho fortalece o cenário de redução da Selic em agosto, mas não elimina os motivos para uma postura conservadora do Copom. A melhora dos núcleos e dos serviços subjacentes favorece o corte, enquanto a resistência dos serviços intensivos em trabalho e os riscos externos limitam o espaço para reduções adicionais.

O cenário mais provável apresentado pelos especialistas é de um corte de 0,25 ponto percentual, seguido de uma avaliação cuidadosa dos próximos indicadores. A trajetória posterior dependerá menos do resultado isolado de junho e mais da continuidade da desaceleração da inflação doméstica.

Também será necessário observar se a alta do petróleo será temporária ou se terá força para atingir combustíveis, câmbio, fretes e expectativas. Um choque persistente poderia interromper precocemente o ciclo de flexibilização.

Para os investidores, a perspectiva de juros menores tende a favorecer ativos de risco e títulos prefixados e indexados à inflação de prazos intermediários. A volatilidade externa, porém, mantém a necessidade de seletividade.

O IPCA abriu a porta para um corte da Selic em agosto, mas o Banco Central ainda não encontrou condições para deixá-la totalmente aberta. A inflação doméstica apresenta sinais mais favoráveis, enquanto o petróleo pode definir se o movimento será o início de um ciclo ou apenas uma redução pontual.

IPCA

Foto: Gerada por IA

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