Os aeroportos regionais passaram a ocupar uma posição central na estratégia da Infraero após o ciclo de concessões dos principais terminais do Brasil. Em entrevista ao BM&C Talks, apresentado por Isabela Tacaki, o diretor comercial da estatal, Guilherme Sanches Ribeiro, afirmou que a ampliação da conectividade aérea pode gerar renda, empregos, turismo e oportunidades de negócios em regiões atualmente atendidas de forma limitada.
Segundo Ribeiro, a Infraero precisou rever seu modelo de atuação depois das concessões iniciadas em 2011. A companhia, que anteriormente operava quase a totalidade do tráfego aéreo nacional, passou a concentrar parte de suas atividades na gestão de aeroportos regionais, na elaboração de projetos, na manutenção de estruturas, na capacitação de operadores e na prestação de serviços para governos e empresas privadas.
A empresa também busca utilizar sua experiência operacional para apoiar municípios e estados que não conseguem manter uma estrutura aeroportuária própria. O entrevistado citou ainda o Projeto Ampliar, vinculado ao MPOR, como uma das iniciativas voltadas à integração de aeroportos menores aos modelos de concessão.
Aeroportos regionais e desenvolvimento econômico
Para o diretor, a falta de conectividade reduz a capacidade de determinadas regiões atraírem empresas, turistas e investimentos. Ele afirmou que a infraestrutura aeroportuária precisa estar integrada a outros serviços, como transporte terrestre, saúde e educação, para produzir efeitos econômicos permanentes.
“Então são bilhões e bilhões que a gente acaba perdendo por uma falta de desenvolvimento regional”, afirmou Ribeiro.
O primeiro setor a responder à abertura ou modernização de um aeroporto, segundo o diretor, costuma ser o turismo. Na sequência, os impactos podem alcançar o agronegócio, o varejo, os serviços e a logística.
“Turismo é o primeiro, primeiro lugar, não tem como fugir”, disse o diretor comercial.
Ribeiro mencionou o projeto de construção de um aeroporto em Olímpia como exemplo de expansão da infraestrutura. Segundo ele, o terminal é planejado porque o aeroporto de São José do Rio Preto possui limitações físicas para ampliar a pista e receber aeronaves maiores. A distância aproximada entre os dois municípios seria de 50 quilômetros, permitindo atender também cidades próximas e eventos realizados na região.
O planejamento de aeroportos regionais, entretanto, precisa considerar a demanda das companhias aéreas. Ribeiro explicou que a construção de um terminal sem diálogo com as empresas pode resultar em uma estrutura com poucos voos. Nesses casos, áreas aeroportuárias podem receber centros de distribuição, armazéns, hangares, estabelecimentos comerciais e operações logísticas.
Receitas comerciais entram no centro da estratégia
A Infraero projeta receber aproximadamente R$ 410 milhões em receitas no ano, segundo os números apresentados pelo diretor. Desse total, cerca de R$ 240 milhões seriam provenientes de receitas aeroportuárias, enquanto aproximadamente R$ 170 milhões viriam de atividades comerciais.
Essas receitas incluem a exploração de lojas, estacionamentos, publicidade, hotéis, áreas de armazenagem e outros serviços. A estratégia é utilizar os recursos comerciais para complementar a arrecadação com tarifas aeroportuárias, especialmente em terminais que ainda movimentam poucos passageiros.
O modelo também utiliza o subsídio cruzado, no qual os resultados de aeroportos superavitários ajudam a financiar terminais deficitários.
“Você tem um aeroporto superavitário que dá receita e com ele você consegue fazer os investimentos necessários nos deficitários”, explicou Ribeiro.
O principal ativo da companhia nesse modelo é o Aeroporto Santos Dumont. Ribeiro estimou que o terminal pode gerar entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões em receitas aeroportuárias e comerciais. Segundo ele, a restrição do movimento para 6 milhões de passageiros por ano teria reduzido a receita aeroportuária em aproximadamente R$ 110 milhões anuais.
O diretor afirmou que, com uma operação próxima de 10 milhões de passageiros, a receita total do Santos Dumont poderia superar R$ 500 milhões. Esses recursos são utilizados para financiar investimentos e a operação dos demais aeroportos da carteira.
Reestruturação e independência do Tesouro
A Infraero também passou por uma redução do quadro de funcionários durante o processo de reestruturação. De acordo com Ribeiro, a companhia tinha aproximadamente 14 mil empregados em 2011 e conta atualmente com cerca de 890. A meta apresentada para o ano é realizar mais 200 desligamentos incentivados, levando o quadro para perto de 600 funcionários ativos.
O diretor afirmou que a empresa é independente do Tesouro Nacional para o pagamento de suas despesas operacionais. Segundo os números citados na entrevista, a Infraero registrou prejuízo aproximado de R$ 238 milhões em 2024 e lucro de R$ 316 milhões em 2025. Para 2026, a projeção apresentada foi de lucro próximo de R$ 4 milhões, antes da entrada de recursos relacionados à saída de participações em aeroportos concedidos.
A companhia participou com 49% das concessionárias responsáveis pelos aeroportos de Guarulhos, Galeão, Confins, Viracopos e Brasília. Segundo Ribeiro, a Infraero precisava realizar aportes nessas empresas, mas não recebeu distribuição de lucros durante o período citado na entrevista.
Com a saída das participações, a expectativa apresentada é de ingresso de R$ 411 milhões, mais 49% do caixa, no caso do Galeão, e de aproximadamente R$ 670 milhões em Confins. O valor relacionado ao aeroporto de Brasília ainda não estava definido no momento da entrevista. Ribeiro afirmou que os recursos podem ser direcionados à manutenção e à modernização dos terminais regionais.
Tecnologia e futuro da operação
A Infraero também avalia investimentos em canais de inspeção, equipamentos de segurança e sistemas digitais aplicados a projetos de engenharia. Entre as iniciativas mencionadas está o uso do BIM, modelo que integra informações de planejamento, construção e operação de estruturas.
A empresa começou ainda a discutir a infraestrutura necessária para a operação dos chamados carros voadores. Entre os pontos analisados estão áreas de pouso, decolagem e carregamento dos veículos. Segundo Ribeiro, a companhia acompanha os testes realizados em São José dos Campos e aguarda definições regulatórias da ANAC.
Para os próximos anos, o diretor avalia que a Infraero deverá combinar a gestão de aeroportos regionais com a prestação de serviços, a elaboração de projetos e a assessoria técnica para terminais concedidos.
“Eu vejo a Infraero como uma prestadora de serviço”, afirmou Ribeiro.
A definição desse novo papel, segundo ele, também dependerá de estudos e decisões do ministério responsável pela supervisão da empresa. A estratégia apresentada envolve utilizar a experiência acumulada pela Infraero para ampliar a conectividade e reduzir o custo operacional dos aeroportos regionais.

