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O ouro caiu, mas não é isso que importa

Fabio OngaroPor Fabio Ongaro
31/03/2026

A queda recente do ouro surpreende apenas quem ainda interpreta os mercados pela lógica do passado. Em um ambiente marcado por guerra no Oriente Médio, choque energético e inflação crescente, seria natural esperar uma valorização do principal ativo de proteção global. No entanto, o metal acumula perdas relevantes, após ter atingido níveis próximos a US$ 5.400 por onça no início do ano, recuando para a faixa de US$ 4.400, com quedas mensais superiores a 10% em momentos de maior estresse.

A leitura mais superficial sugere uma falha do ouro como “porto seguro”. Essa interpretação, na minha opinião, é equivocada. O que está acontecendo é mais profundo: uma reprecificação global do custo do dinheiro, que está redesenhando os fluxos de capital e alterando a hierarquia dos ativos.

Nos Estados Unidos, o movimento é direto e mensurável. A Federal Reserve ajustou sua comunicação diante de uma realidade mais dura: inflação projetada em torno de 4,2% e impacto relevante da alta do petróleo, que saiu de cerca de US$ 60 para mais de US$ 100 por barril ao longo do ano.

Diante desse cenário, o mercado abandonou rapidamente a expectativa de cortes de juros. Se antes se projetavam reduções da ordem de 60 pontos-base até o final do ano, hoje a precificação aponta para estabilidade, com viés marginal de alta.

Esse ajuste teve efeito imediato nos fluxos. Com os Treasuries de 10 anos pagando acima de 4,2%, os títulos soberanos americanos voltam a oferecer retorno real competitivo em escala global. Isso altera a equação para o investidor institucional: manter posições em ouro, que não gera renda, passa a ter um custo de oportunidade elevado.

Não por acaso, observa-se uma rotação consistente de capital. Fundos institucionais reduziram exposição a metais preciosos após uma valorização anual superior a 48% e passaram a recompor posições em renda fixa. Trata-se menos de um movimento defensivo e mais de uma realocação racional.

Na Europa, o quadro é mais complexo e, potencialmente, mais sensível. O Banco Central Europeu enfrenta um dilema clássico: inflação em aceleração em um ambiente de crescimento já fragilizado.
As projeções foram revisadas. A inflação estimada para 2026 passou de cerca de 2% para 2,7%, com risco de deterioração adicional caso o preço da energia continue pressionado. O mercado reagiu rapidamente: expectativas que indicavam cortes de juros deram lugar à projeção de altas, cerca de 77 pontos-base ao longo do ano, equivalente a três elevações.

Esse movimento revela uma mudança de regime. A Europa está sendo forçada a adotar uma postura mais restritiva, não por escolha estratégica, mas por imposição do cenário externo, especialmente do choque energético ligado às tensões no Estreito de Ormuz.

O resultado tende a ser uma combinação delicada: política monetária mais dura em uma economia com baixa tração. Para os mercados, isso significa maior volatilidade e menor previsibilidade, reduzindo a atratividade relativa da região no curto prazo.

O Brasil se posiciona de forma distinta dentro desse novo contexto. De um lado, enfrenta os efeitos clássicos de um ambiente global mais restritivo: juros elevados nos Estados Unidos pressionam a liquidez internacional, fortalecem o dólar e tornam os fluxos para emergentes mais seletivos.

De outro, o país possui vantagens estruturais relevantes. A combinação de matriz energética limpa, abundância de recursos naturais e exposição positiva ao ciclo de commodities cria uma base de resiliência, especialmente em um mundo pressionado pelo custo da energia.

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Esse cenário abre espaço, na minha leitura, para uma assimetria interessante. Com petróleo elevado e commodities valorizadas, o Brasil pode capturar parte desse movimento global, sustentando termos de troca mais favoráveis.

No entanto, essa oportunidade é condicional. Em um ambiente internacional mais exigente, credibilidade fiscal e estabilidade institucional tornam-se fatores determinantes. Sem esses elementos, o prêmio de risco se amplia e neutraliza qualquer vantagem estrutural.

O comportamento recente do ouro não deve ser interpretado como um enfraquecimento do ativo, mas como um reflexo de uma transformação mais ampla no sistema financeiro global. Estamos migrando de um regime de liquidez abundante para um regime de custo de capital elevado. Nesse novo ambiente, ativos que oferecem rendimento ganham prioridade, enquanto instrumentos sem fluxo de caixa, como o ouro, passam a depender de momentos específicos do ciclo para se destacar.

O metal não perdeu sua função. Continua sendo uma reserva de valor relevante e um hedge importante em cenários extremos. Mas deixou de ser a resposta imediata ao risco. Hoje, a primeira reação do mercado não é mais comprar proteção, é buscar rendimento. E, na prática, é isso, mais do que o preço do ouro, que está definindo o novo jogo.

*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group  

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

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