Ontem foi o último dia em que a rádio Eldorado entrou no ar. Nessas últimas semanas, muito foi falado sobre a decisão do Grupo Estado de tirar a emissora do ar. Vários amigos lamentaram comigo o desaparecimento da rádio. Confesso que me senti da mesma forma. Afinal, a Eldorado fez parte da minha vida: meu pai foi diretor artístico da emissora durante muitos anos e foi ele quem lançou a gravadora Eldorado, aproveitando a existência de um estúdio de gravação espetacular que havia no prédio da rua Major Quedinho.
Durante a minha adolescência, sempre ia visitar meu pai na Eldorado. Curiosamente, quando comecei minha carreira no jornalismo, o primeiro endereço profissional que tive foi na Gazeta Mercantil, cujo prédio ficava ao lado. Conheci vários programadores, locutores e artistas por conta dele, que montou uma programação de altíssimo nível.
A Eldorado sempre foi uma emissora diferenciada, desde sua fundação em 1958, pois seis horas diárias de sua programação eram dedicadas à música clássica (antes que houvesse a faixa de frequência modulada). Há 67 anos, a programação da rádio começou a ser transmitida em 700 quilohertz pela faixa AM.
Quando o Aluizio Falcão sênior começou a trabalhar na Eldorado, não havia estúdio ou locutor ao vivo. A mesma voz aveludada acompanhava os ouvintes dia e noite, anunciando quem eram os intérpretes e os nomes das músicas tocadas. Como isso era possível? José Barroso, o locutor inconfundível dessa época, gravava previamente todas as suas entradas e um equipamento enorme, do tamanho de uma saleta, administrava fitas gigantescas de rolo com a programação (música, comerciais e locuções).
No início dos anos 1980, no entanto, meu pai propôs uma mudança radical e modernizou a programação, utilizando locutores ao vivo e equipamentos comuns às demais emissoras, com toca-discos e cartucheiras. Barrroso continou emprestando sua voz sofisticada à Eldorado AM. Já na FM, locutores mais modernos, como Wellington de Oliveira (também da TV Globo) entraram no ar e deram conta do recado. O perfil de programas sérios ao extremo foi trocado por uma linha mais moderna e de bom gosto – é essa Eldorado que ficou na memória das pessoas, pois este modelo acabou replicado por anos a fio.
A Eldorado que acabou ontem, no entanto, não era mais aquela rádio de antes. A emissora se transformou em um veículo muito mais informativo que musical (nada contra), bem diferente daquele modelo que a imortalizou junto a um público de bom gosto.
Para finalizar, uma informação que poucos devem saber: durante anos, o logotipo da rádio (e do estúdio) foi a estilização da atriz do cinema mudo Theda Bara. O logo, elaborado pelo artista plástico Edmar Salles, capturou um fotograma da atriz no filme Cleópatra. A ideia era usar o olhar marcante para simbolizar o mistério, a sofisticação e o exotismo que a rádio, voltada a um público de elite, queria passar para a audiência.
Este é mais um capítulo que se encerra neste mundo de transformações que estamos vivendo. O mercado de rádio está cada vez mais estreito e muitas vítimas, como a Eldorado, ainda vão surgir. Mas a elegância e o bom gosto que marcaram essa emissora em seu auge seguem vivos em cada um de nós que cresceu ouvindo seus sons e aprendendo, quase sem perceber, a reconhecer o valor do que é feito com cuidado, sensibilidade e propósito.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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