O acesso a recursos de longo prazo influencia diretamente a capacidade das empresas de investir, modernizar operações e ampliar a produção. No Brasil, o mercado de capitais passou a ocupar uma parcela relevante desse financiamento, conectando investidores a companhias que buscam recursos para executar projetos de expansão, inovação e aumento de produtividade.
Atualmente, 33,6% dos recursos levantados por companhias não financeiras têm origem no mercado de capitais, segundo dados da Anbima. Há dez anos, girava em torno de 16%.
Mercado de capitais amplia capacidade de investimento
A diversificação das fontes de recursos possibilita que o financiamento seja estruturado de acordo com os prazos e as características de cada projeto, especialmente em investimentos que exigem maior volume de capital e apresentam retorno de longo prazo.
Com acesso a esses recursos, as empresas podem investir na aquisição de máquinas, na digitalização de processos, no desenvolvimento de tecnologias, na modernização da logística, na eficiência operacional e na ampliação da capacidade produtiva.
O avanço aparece na expansão do estoque de recursos canalizados pelo mercado financeiro. O volume passou de R$ 3,8 trilhões em 2018 para R$ 8 trilhões em 2025, alcançando o equivalente a 68,5% do Produto Interno Bruto brasileiro.
Entre 2021 e 2025, período marcado pela ampliação das emissões e negociações, o PIB brasileiro registrou crescimento médio anual de 3,33%. Nos dez anos anteriores, a média havia sido de 1,41%. Os números mostram que a expansão do mercado ocorreu em um período de maior crescimento econômico, embora não permitam estabelecer, isoladamente, uma relação direta de causa e efeito.
A atividade permaneceu em nível elevado em 2026. No primeiro semestre, as ofertas encerradas somaram R$ 361,8 bilhões. O montante representa um aumento de 9,8% em relação ao mesmo período do ano anterior, mesmo diante dos juros elevados e da maior seletividade dos investidores.
Instrumentos atendem diferentes necessidades das empresas
A diversidade do mercado de capitais permite que as empresas encontrem alternativas compatíveis com seu porte, setor de atuação, estágio de desenvolvimento e objetivo de investimento. Os recursos podem financiar desde capital de giro e modernização de instalações até projetos de tecnologia, infraestrutura e aumento da produção.
As debêntures e as notas comerciais permitem que companhias captem recursos diretamente com investidores. As notas comerciais chegaram a um número de operações inédito para o primeiro semestre (considerando a série histórica) somando 123 operações, 43% maior na comparação com 2025. O instrumento segue como um dos principais de financiamento empresarial no período.
Os fundos estruturados ampliam esse conjunto de possibilidades. Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios, os FIDCs, financiam empresas por meio de recebíveis. Já os Fundos de Investimento em Participações, os FIPs, podem aportar capital em startups, companhias inovadoras e negócios em fase de crescimento.
Nesse segmento, os fundos de venture capital e private equity participam do desenvolvimento de empresas que precisam de recursos para executar projetos, fortalecer sua estrutura e ampliar as operações.
Os fundos imobiliários, os FIIs, podem financiar empreendimentos corporativos, industriais e logísticos. Os Fiagros direcionam recursos para diferentes elos do agronegócio, como produção, armazenagem, infraestrutura e distribuição. No primeiro semestre deste ano, os FIIs captaram R$ 39,5 bilhões, enquanto os Fiagros somaram R$ 8,3 bilhões.
As debêntures incentivadas têm papel específico no financiamento de projetos de energia, saneamento, transporte e telecomunicações. Esses setores fornecem serviços e estruturas que afetam os custos operacionais e a competitividade de empresas de diferentes atividades econômicas.
Ativos digitais e operações de tokenização também começam a integrar esse ambiente.
“Essas ferramentas têm potencial para tornar as captações mais ágeis, eficientes e flexíveis, embora ainda representem uma nova fronteira do mercado”, afirma Zeca Doherty, diretor-executivo da Anbima.
Em conjunto, esses instrumentos formam uma estrutura capaz de financiar projetos de inovação, transformação tecnológica, infraestrutura e expansão produtiva. A variedade de alternativas aumenta a possibilidade de as empresas encontrarem formas de captação adequadas aos prazos e às necessidades de cada investimento.
Pequenas e médias empresas também ganham espaço
A ampliação do mercado de capitais também começa a alcançar pequenas e médias empresas, responsáveis por 65% dos empregos formais no país, pelos dados do SEBRAE. Iniciativas como o Regime Fácil e o crowdfunding regulado buscam reduzir barreiras de entrada e criar caminhos de captação compatíveis com a estrutura dessas companhias.
Com acesso a investidores, empresas menores podem complementar o crédito bancário, diversificar suas fontes de financiamento e obter recursos para capital de giro, aquisição de equipamentos, digitalização, lançamento de produtos e ampliação das operações.
O avanço desses mecanismos permite que negócios com participação relevante na geração de emprego e renda fortaleçam sua estrutura financeira e aumentem sua capacidade de investir em inovação, modernização e produtividade.
Desafios para ampliar o acesso ao mercado de capitais
Apesar dos avanços, a entrada no mercado de capitais ainda exige estrutura financeira, transparência, governança e capacidade de fornecer informações aos participantes das ofertas.
Para Doherty, a ampliação do acesso depende de medidas como simplificação regulatória e tributária, melhoria da qualidade das informações financeiras, modernização dos registros de crédito e garantias e integração de dados cartoriais, além disso o fortalecimento da educação financeira de empresas e investidores é outra condição para ampliar a participação nesse mercado.
Com mais instrumentos, investidores e empresas participantes, o mercado de capitais funciona como uma infraestrutura de financiamento da economia. Sua expansão não substitui o crédito bancário, mas amplia as alternativas disponíveis para que as companhias invistam em tecnologia, capacidade produtiva e eficiência, fatores que influenciam diretamente sua competitividade.

