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Wall Street começa a transformar ações e títulos públicos em tokens

Bruno Corano Por Bruno Corano
03/08/2026
Em Bruno Corano

A tokenização de ativos financeiros está deixando de ser apenas uma promessa associada ao universo das criptomoedas para começar a fazer parte da infraestrutura tradicional de Wall Street.

JPMorgan, Goldman Sachs, BlackRock, Vanguard, Bolsa de Nova York e outras grandes instituições financeiras estão participando de um teste coordenado pela Depository Trust & Clearing Corporation, a DTCC, para transformar ações, ETFs e títulos do Tesouro americano em tokens digitais registrados em blockchain.

A diferença em relação a muitos dos chamados ativos sintéticos negociados atualmente é fundamental: os tokens criados pela DTCC representam juridicamente os ativos verdadeiros.

Quem possuir uma ação tokenizada continuará tendo os mesmos direitos econômicos e legais associados à ação tradicional, incluindo dividendos, participação patrimonial e, quando aplicável, direito de voto.

Não se trata, portanto, de criar uma criptomoeda cujo preço apenas acompanha determinada ação. A proposta é criar uma versão digital da própria ação.

O que está sendo testado

Quase 40 instituições financeiras e empresas de tecnologia participarão da fase de testes.

Entre os ativos selecionados estão:

  • ações da Microsoft; 
  • ações da Circle Internet Group; 
  • cotas do Invesco QQQ Trust; 
  • cotas do SPDR S&P 500 ETF Trust; 
  • cotas do iShares 0-3 Month Treasury Bond ETF; 
  • títulos do Tesouro americano com diferentes vencimentos. 

Durante o teste, as instituições participantes darão instruções à DTCC para liquidar operações específicas por meio de blockchain.

O JPMorgan, por exemplo, transformará em tokens uma parte de sua posição no Invesco QQQ mantida na própria DTCC. Essas unidades poderão posteriormente ser reconvertidas em cotas tradicionais do ETF.

Esse processo de conversão nos dois sentidos é uma das características mais importantes do projeto.

O ativo tokenizado não existirá isoladamente em um ambiente paralelo. Ele será intercambiável com o ativo financeiro convencional que representa.

O que é a DTCC e por que sua participação muda o jogo

A DTCC é uma das instituições mais importantes e menos conhecidas do sistema financeiro mundial.

Ela atua nos bastidores do mercado americano, realizando custódia, compensação, registro e liquidação de enormes volumes de operações.

Seus sistemas ajudam a garantir que, depois de uma ação, título ou ETF ser negociado, o comprador receba efetivamente o ativo e o vendedor receba o dinheiro.

A DTCC mantém sob custódia mais de US$ 114 trilhões em ativos financeiros. No último ano, suas subsidiárias processaram operações avaliadas em aproximadamente US$ 4,7 quadrilhões.

Esses números ajudam a dimensionar a importância do projeto.

A tokenização conduzida por uma instituição desse porte é muito diferente de uma experiência desenvolvida por uma pequena empresa de tecnologia financeira. A DTCC já ocupa uma posição central na infraestrutura do mercado.

Caso consiga integrar a blockchain aos processos que realiza atualmente, a transformação pode alcançar uma parte relevante do sistema financeiro sem exigir a substituição imediata de toda a estrutura existente.

Existem dois tipos muito diferentes de ações tokenizadas

É importante não tratar todos os produtos chamados de “ações tokenizadas” como se fossem iguais.

Atualmente, existem basicamente duas formas de colocar a exposição econômica a uma ação dentro de uma blockchain.

Tokens que apenas imitam o preço da ação

Na primeira modalidade, uma empresa cria um token cujo valor acompanha o preço de determinada ação.

Esse token funciona como uma espécie de embalagem financeira ou ativo sintético.

Ele pode permitir que o investidor obtenha exposição à valorização ou à queda de uma empresa, mas não necessariamente concede a propriedade jurídica da ação correspondente.

O comprador pode não ter direito de voto, dividendos diretos ou proteção equivalente à oferecida a um acionista registrado.

Além disso, passa a depender da instituição responsável pela emissão e pela estrutura do token.

Se essa empresa não tiver comprado ou mantido adequadamente os ativos que deveriam servir como garantia, o investidor poderá descobrir que possuía apenas uma promessa vinculada ao preço da ação.

Tokens que representam ações verdadeiras

O modelo utilizado pela DTCC é diferente.

Cada token funciona como um equivalente digital de um ativo verdadeiro mantido dentro da infraestrutura de custódia.

A ação tokenizada e a ação tradicional possuem o mesmo valor econômico e podem ser convertidas entre si.

O detentor mantém os direitos legais, patrimoniais e econômicos associados ao ativo original, incluindo dividendos e direitos de governança.

Essa equivalência é o que pode permitir que a tecnologia seja utilizada por bancos, fundos, gestores e outras instituições reguladas.

Em contrapartida, os tokens não serão necessariamente negociados de maneira completamente aberta e anônima. Sua circulação poderá ficar restrita a instituições previamente autorizadas e identificadas.

Isso preserva controles relacionados a lavagem de dinheiro, custódia, identificação dos participantes e cumprimento das regras do mercado de capitais.

A ação não muda; o sistema de movimentação muda

A tokenização não altera a natureza econômica de uma ação ou de um título do Tesouro.

Uma ação da Microsoft continuará representando uma participação na Microsoft. Um Treasury continuará sendo uma obrigação do governo americano. Um ETF continuará obedecendo às regras e à composição de sua carteira.

O que muda é a maneira pela qual esses ativos podem ser registrados, movimentados, utilizados como garantia e liquidados.

Atualmente, grande parte das operações do mercado financeiro depende de diferentes bancos, câmaras de compensação, custodiantes, sistemas de registro e processos de conciliação.

Cada instituição mantém seus próprios registros. Quando uma operação acontece, essas informações precisam ser comparadas, atualizadas e confirmadas entre os participantes.

Em uma infraestrutura baseada em blockchain, os envolvidos podem compartilhar um registro comum e verificável da propriedade e das movimentações dos ativos.

Isso pode reduzir erros, eliminar etapas redundantes e acelerar a liquidação.

O principal benefício da blockchain no mercado financeiro talvez não esteja em permitir que investidores especulem com novos tokens, mas em modernizar a infraestrutura invisível que sustenta trilhões de dólares em operações.

Liquidação mais rápida e uso mais eficiente do capital

Uma das principais promessas da tokenização é reduzir o tempo necessário para concluir uma transação.

Mesmo com os avanços recentes, muitas operações financeiras ainda não são liquidadas de maneira instantânea. Existe um intervalo entre o momento em que o negócio é fechado e a transferência definitiva do dinheiro e dos ativos.

Durante esse período, as instituições precisam manter reservas, garantias e capital disponíveis para cobrir possíveis falhas.

Quanto maior o intervalo de liquidação, maior a quantidade de recursos que pode ficar temporariamente imobilizada.

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A tokenização permite, em tese, que a movimentação do ativo e do pagamento aconteça de maneira praticamente simultânea.

Quando o dinheiro é transferido, o ativo também muda de titular. Isso reduz o risco de uma parte cumprir sua obrigação enquanto a outra não consegue entregar o que prometeu.

O presidente da DTCC, Frank La Salla, destacou justamente o potencial de liberar liquidez que atualmente permanece presa nos processos tradicionais.

Em um mercado do tamanho de Wall Street, pequenas reduções na quantidade de capital imobilizado podem representar centenas de bilhões de dólares.

Tokens poderão ser utilizados como garantia

Os ativos tokenizados serão testados em diferentes tipos de operação, incluindo:

  • transferências de garantias; 
  • operações compromissadas, conhecidas como repos; 
  • compra e venda de ações; 
  • liquidação de transações entre instituições. 

O uso como garantia é especialmente relevante.

Bancos, fundos e outras instituições precisam transferir ativos diariamente para garantir empréstimos, derivativos e diversas operações financeiras.

Hoje, essa movimentação pode envolver diferentes sistemas, horários limitados e processos operacionais complexos.

Um título do Tesouro tokenizado poderia ser transferido como garantia de maneira mais rápida, inclusive fora do horário tradicional de funcionamento dos mercados.

Quando uma obrigação fosse encerrada, o ativo poderia retornar ao proprietário original quase imediatamente.

Essa flexibilidade pode aumentar a eficiência do mercado de garantias, uma área fundamental para o funcionamento do sistema financeiro.

O mercado de repos pode ser um dos principais beneficiados

As operações de repo estão entre os pilares do sistema financeiro americano.

Em uma operação desse tipo, uma instituição entrega temporariamente títulos, normalmente Treasuries, em troca de dinheiro e assume o compromisso de recomprá-los posteriormente.

Na prática, funciona como um empréstimo de curto prazo garantido por títulos públicos.

Bancos, fundos, corretoras e outras instituições utilizam esse mercado para administrar sua liquidez diariamente.

A tokenização pode permitir que o dinheiro e os títulos sejam transferidos de forma mais eficiente, com atualização automática dos registros e redução do tempo de liquidação.

Além disso, contratos programáveis poderiam ajustar garantias, calcular valores ou executar determinadas etapas automaticamente.

Isso não elimina os riscos financeiros da operação, mas pode reduzir os riscos operacionais e os custos administrativos.

Duas redes serão utilizadas

As operações do teste poderão ser liquidadas em duas infraestruturas diferentes.

Uma delas é a Hyperledger Besu, blockchain privada utilizada pela DTCC.

A outra é a Canton Network, uma rede voltada ao mercado financeiro e desenvolvida com foco em privacidade e interoperabilidade entre instituições.

O uso de redes privadas ou autorizadas mostra que Wall Street não pretende simplesmente transferir suas operações para blockchains públicas e irrestritas.

Bancos e gestores precisam proteger informações comerciais, posições de clientes, estratégias de negociação e dados confidenciais.

Uma blockchain financeira institucional precisa combinar registro compartilhado com controle de acesso.

Os participantes devem conseguir confirmar a validade de uma transação sem necessariamente tornar todos os seus detalhes visíveis para o restante do mercado.

O desafio está em preservar as vantagens da tecnologia sem eliminar a privacidade exigida pelas instituições.

A aprovação regulatória foi decisiva

A subsidiária da DTCC responsável pela custódia dos ativos recebeu autorização da Securities and Exchange Commission, a SEC, para operar um serviço de tokenização de ativos reais.

A aprovação, concedida no final do ano passado, ficou inicialmente restrita a ativos altamente líquidos.

Essa limitação é compreensível.

Ações amplamente negociadas, grandes ETFs e títulos do Tesouro possuem preços transparentes, mercados profundos e processos de custódia já consolidados.

Eles oferecem um ambiente mais seguro para testar a nova tecnologia.

Ativos menos líquidos, privados ou de avaliação difícil apresentam riscos maiores. A tokenização não resolve automaticamente problemas de precificação, qualidade de crédito ou falta de compradores.

Transformar um ativo ruim em token não o transforma em um bom investimento.

O que a tecnologia pode fazer é melhorar a forma de registrar e transferir sua propriedade.

O programa deve ser lançado em outubro

Depois da fase de testes, a DTCC pretende lançar formalmente o programa de tokenização em outubro.

As instituições que mantêm ativos dentro da infraestrutura da companhia poderão solicitar a conversão de determinados títulos em tokens digitais.

O lançamento não significa que o mercado financeiro inteiro será imediatamente transferido para uma blockchain.

A transformação tende a ocorrer gradualmente.

Primeiro, serão utilizados ativos líquidos, operações entre instituições autorizadas e situações nas quais os ganhos de eficiência podem ser medidos com clareza.

Somente depois de testar segurança, liquidação, custódia, governança e compatibilidade entre sistemas será possível ampliar o alcance da tecnologia.

A história da infraestrutura financeira mostra que mudanças desse porte raramente acontecem de uma só vez.

Sistemas antigos e novos costumam coexistir durante vários anos.

Por isso, a capacidade de converter um token novamente em uma ação tradicional é essencial para a adoção inicial.

O que muda para o investidor comum

No primeiro momento, a maior parte dos benefícios será percebida pelas instituições financeiras, e não diretamente pelo pequeno investidor.

A tokenização pode reduzir custos de custódia, liquidação e movimentação de garantias. Também pode ampliar o horário de funcionamento dos mercados e tornar determinadas operações mais eficientes.

Parte dessas economias poderá, com o tempo, ser repassada aos clientes por meio de taxas menores, spreads reduzidos ou novos produtos.

Também existe a possibilidade de ampliar o fracionamento de ativos.

Um token pode representar uma fração muito pequena de uma ação ou de um título, facilitando o acesso de investidores com menos capital.

No entanto, o mercado americano já permite a compra fracionada de ações por meio de diversas corretoras. Portanto, esse provavelmente não será o principal benefício.

A transformação mais relevante está na infraestrutura, e não na possibilidade de comprar uma pequena parte de uma ação.

Tokenização não significa ausência de intermediários

Um dos discursos mais comuns no universo das criptomoedas afirma que a blockchain eliminará bancos, bolsas, custodiantes e câmaras de compensação.

O projeto da DTCC mostra um caminho diferente.

Os intermediários não estão necessariamente desaparecendo. Eles estão adotando a tecnologia.

A própria DTCC continuará responsável pela custódia, pela conversão dos ativos e pela integridade do sistema. Instituições autorizadas continuarão realizando as operações. Reguladores continuarão definindo as regras.

A blockchain será incorporada ao sistema financeiro regulado, e não necessariamente utilizada para substituí-lo.

Isso pode frustrar quem imaginava um mercado completamente descentralizado, mas aumenta significativamente a possibilidade de adoção em larga escala.

Instituições financeiras precisam saber quem controla os ativos, como os registros podem ser corrigidos, o que acontece em caso de fraude e qual legislação se aplica a cada operação.

Sem respostas claras para essas questões, dificilmente fundos de pensão, bancos e grandes gestores movimentariam trilhões de dólares por meio de uma nova infraestrutura.

Os riscos continuam existindo

A tokenização pode melhorar a eficiência operacional, mas também cria novos riscos.

Entre eles estão:

  • falhas em contratos programáveis; 
  • ataques cibernéticos; 
  • problemas de compatibilidade entre diferentes blockchains; 
  • concentração da infraestrutura em poucas redes; 
  • erros na conversão entre tokens e ativos tradicionais; 
  • indefinições jurídicas em situações de insolvência; 
  • dependência de sistemas tecnológicos disponíveis permanentemente; 
  • necessidade de proteção de informações confidenciais. 

Também será necessário definir quem terá autoridade para cancelar ou corrigir uma transação realizada incorretamente.

Em uma blockchain pública, costuma-se destacar a imutabilidade dos registros. No sistema financeiro, porém, existem situações em que decisões judiciais, fraudes, erros operacionais ou processos sucessórios exigem alterações.

A infraestrutura precisará conciliar segurança e irreversibilidade com a capacidade de cumprir determinações legais.

A verdadeira importância desse movimento

O aspecto mais relevante da iniciativa não é simplesmente a criação de versões digitais da Microsoft, do QQQ ou de títulos do Tesouro.

O que está em jogo é uma possível modernização da base tecnológica de Wall Street.

Se ativos tokenizados puderem ser movimentados mais rapidamente, utilizados como garantia durante mais horas do dia e liquidados com menos intermediários operacionais, o mercado poderá funcionar com menos capital imobilizado e menor custo.

A entrada de JPMorgan, Goldman Sachs, BlackRock, Vanguard, Bolsa de Nova York e DTCC mostra que a tokenização deixou de ser um experimento periférico.

Ela começa a ser tratada como uma mudança estrutural na forma de registrar e transferir ativos financeiros.

Isso não significa que todas as ações estarão em uma blockchain amanhã. Também não significa que o sistema financeiro será descentralizado ou que os intermediários desaparecerão.

A transformação provavelmente será muito mais pragmática.

Ações, ETFs e Treasuries continuarão existindo. Bancos, custodiantes e reguladores também. O que muda é a tecnologia utilizada para movimentar e liquidar esses ativos.

A blockchain talvez não substitua Wall Street. Wall Street está começando a incorporá-la.

Nota: Informações sobre instituições participantes, ativos selecionados, estrutura jurídica dos tokens, redes utilizadas e cronograma de lançamento com base nos dados divulgados pela DTCC e apresentados no material original. Os valores referentes aos ativos mantidos e às operações processadas pela instituição refletem as informações disponíveis em 15 de julho de 2026.

*Coluna escrita por Bruno Corano, economista, investidor e empreendedor, fundador da Corano Capital, com escritórios em Nova York e São Paulo.

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

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