Os Estados Unidos e Japão decidiram enfrentar uma das operações mais tradicionais e volumosas do mercado financeiro global. Após o iene atingir o menor patamar em cerca de 40 anos diante do dólar, os dois países realizaram uma intervenção coordenada para sustentar a moeda japonesa e impedir que a desvalorização avançasse de forma desordenada.
O Tesouro americano vendeu euros para comprar ienes, reforçando uma operação iniciada pelas autoridades japonesas. Foi a primeira compra de ienes pelas autoridades dos Estados Unidos desde 1998.
A reação foi imediata: o dólar, que havia superado 163 ienes, recuou para perto de 155 ienes após as ações coordenadas.
Intervenção no iene enfrenta a força do carry trade
A origem da pressão sobre o iene está na diferença entre as taxas de juros praticadas no Japão e em economias como a dos Estados Unidos. Durante anos, o custo reduzido do dinheiro japonês incentivou investidores a tomar empréstimos em ienes e direcionar os recursos para países que oferecem rendimentos maiores.
Essa estratégia é conhecida como carry trade. O investidor se financia em uma moeda com juros baixos, converte o dinheiro e aplica em ativos com taxas mais altas. O ganho ocorre enquanto o rendimento da aplicação supera o custo do empréstimo e a moeda utilizada no financiamento permanece relativamente estável.
“Os investidores acabavam pegando esse dinheiro emprestado no Japão e investiam em lugares que tinham uma taxa de juros mais alta. Enquanto a moeda ficava relativamente estável, era possível ter esse ganho em termos de juros”, explicou Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue, em entrevista à BM&C News.
A manutenção dessa estratégia, porém, aumenta a venda de ienes e a procura por outras moedas, principalmente o dólar. O resultado é uma pressão adicional sobre a moeda japonesa, que também encarece no Japão a importação de combustíveis, alimentos, matérias-primas e outros produtos cotados no mercado internacional.
O risco escondido nos títulos americanos
A desvalorização também passou a provocar questionamentos sobre o comportamento dos investidores japoneses. O Japão é o maior detentor estrangeiro de títulos públicos dos Estados Unidos, e uma mudança brusca no câmbio poderia incentivar a retirada de recursos aplicados no exterior.
Segundo Yamashita, participantes do mercado poderiam vender parte das posições em títulos americanos e repatriar o dinheiro caso passassem a esperar uma valorização mais consistente do iene.
“Os participantes poderiam reduzir posições, vender uma posição de Treasury americana e trazer esse dinheiro de volta, pensando que, se o iene se valorizasse, também poderiam ter esse ganho do lado da moeda”, afirmou.
A participação dos Estados Unidos na operação, portanto, não representa apenas uma ajuda ao Japão. Washington também tem interesse em evitar uma eventual venda desordenada de Treasuries, que poderia pressionar os juros de longo prazo americanos e aumentar a volatilidade dos mercados globais. A escolha de vender euros para comprar ienes também evitou que a operação dependesse diretamente da venda de ativos americanos.
Comprar moeda não muda os fundamentos
Apesar do impacto imediato sobre o câmbio, Bruno Yamashita considera que a intervenção no iene tem caráter pontual. A ação pode reduzir movimentos excessivos e dificultar novas apostas contra a moeda, mas não altera sozinha os fatores que provocaram sua desvalorização.
“Na nossa visão, é uma intervenção muito mais pontual. Ela acontece também em outros bancos centrais pelo mundo, inclusive no Brasil, para buscar estabilidade da moeda ou estabilidade global diante de um impacto específico”, declarou.
Para o especialista, uma recuperação duradoura do iene dependeria de mudanças estruturais na economia japonesa. Entre elas estão a redução da diferença de juros em relação aos Estados Unidos, maior confiança na condução fiscal e alterações na política monetária do país.
“Existem outros fatores mais estruturais para uma valorização do iene. Uma responsabilidade fiscal muito maior por parte do governo japonês poderia trazer um ganho real para a moeda. A intervenção, estruturalmente, não é um fator de valorização”, disse Yamashita.
O real pode entrar na rota do ajuste?
O Brasil também participa desse debate porque oferece uma das maiores taxas de juros reais entre as principais economias. Em teoria, parte dos recursos captados a baixo custo no Japão pode ter sido direcionada para ativos brasileiros ou para outros mercados que oferecem remuneração superior.
Caso o iene passe por uma valorização prolongada, investidores poderiam desmontar essas operações, vender ativos em reais e recomprar a moeda japonesa para quitar os empréstimos. Esse movimento poderia retirar recursos do Brasil e pressionar o câmbio.
Yamashita, entretanto, avalia que a operação anunciada até agora não tem força suficiente para provocar uma retirada significativa de capital dos mercados emergentes.
“Não acreditamos que haverá um impacto significativo para os mercados nem para a moeda brasileira. Seria necessário um movimento mais estrutural de valorização do iene para provocar esse tipo de efeito”, afirmou.
A intervenção conjunta demonstra que Estados Unidos e Japão estão dispostos a agir diante de movimentos considerados excessivos. No entanto, comprar moeda pode interromper uma queda, elevar o risco de quem aposta contra o iene e reduzir a volatilidade no curto prazo. Sem mudanças nos juros e na política econômica japonesa, porém, a operação pode apenas comprar tempo em uma disputa que continua sendo determinada pelos fundamentos.

