O Grupo Rão, foodtech brasileira fundada em 2013, prepara uma nova fase de crescimento com foco em abertura de capital, expansão por franquias, tecnologia própria e fortalecimento do modelo de delivery. A companhia, que nasceu com o Sushi Rão, construiu sua trajetória a partir de uma operação voltada exclusivamente para entregas, antes mesmo de conceitos como dark kitchen e cloud kitchen ganharem força no mercado de alimentação.
Em entrevista ao BM&C Business, da BM&C News, Guilherme Lemos, CEO e cofundador do Grupo Rão, afirmou que a origem da empresa esteve ligada à percepção de que o delivery poderia ser o centro do negócio, e não apenas um canal complementar de vendas.
“A premissa básica era você ser exclusivamente delivery, o que anos depois veio a alguns termos como cloud kitchen, dark kitchen, enfim, mas lá naquela época esses termos não existiam. Então, isso nos deu uma velocidade maior em relação aos nossos concorrentes, porque quando você era delivery naquela oportunidade, você tinha menos custos, mais velocidade na entrega”, afirmou Guilherme Lemos.
Segundo o executivo, esse posicionamento permitiu que a empresa ganhasse mercado com mais agilidade. Após cinco anos operando apenas com comida japonesa, o grupo iniciou um movimento de diversificação. A virada ocorreu em 2018, com a criação da Pizza do Rão e a formação de uma holding multimarcas.
“Quando a gente estava maduro o suficiente para entender que nós éramos especialistas não em delivery de japonês, mas em delivery. Para isso, a gente foi muito cauteloso, muito cuidadoso, porque como a gente é uma franchising, a gente lida muito com o dinheiro dos outros. São sonhos, são vidas, são famílias”, disse Lemos.
Modelo multimarcas e dark kitchens
O modelo do Grupo Rão combina diferentes marcas dentro de uma mesma estrutura produtiva. A operação permite que uma unidade concentre várias cozinhas e atenda diferentes ocasiões de consumo, como sushi, pizza, comida árabe, chinesa, hambúrgueres e grelhados.
De acordo com Lemos, esse formato ajuda a reduzir custos fixos, ampliar a eficiência operacional e melhorar a rentabilidade dos franqueados. A companhia atua majoritariamente por franquias, com presença forte no Rio de Janeiro e unidades em estados como São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Tocantins, além da operação em Portugal.
O executivo explicou que o conceito de dark kitchen, no caso do Grupo Rão, está ligado a uma estrutura em que o consumo acontece quase totalmente fora do salão. A empresa mantém pontos de retirada, mas a maior parte das vendas ocorre por entrega.
Na entrevista, Lemos afirmou que cerca de 95% das vendas do grupo são feitas via delivery. Para sustentar esse modelo, a companhia investe em engenharia de cozinha, padronização de processos, fornecedores homologados e verticalização parcial da operação.
Tecnologia própria como pilar de crescimento
Além da operação de alimentação, o Grupo Rão passou a desenvolver tecnologia própria para dar suporte ao crescimento da rede. A empresa criou sistemas internos para gestão de pedidos, integração com marketplaces, controle financeiro, CRM, promoções e relacionamento com clientes.
O aplicativo Mundo Rão, segundo o CEO, registra entre 50 mil e 60 mil pedidos por mês. A ferramenta passou a ser parte relevante da estratégia, sem substituir plataformas como iFood e 99, mas funcionando como um canal complementar dentro do ecossistema da companhia.
“Desde 2020, 2021, a gente achou um CTO, alguém que tivesse uma visão bem parecida com a gente, e começamos a desenhar o nosso sistema. E a coisa deu tão certo que a gente começa a pensar para fora, de ser um white label, poder fornecer sistema para outras empresas. Hoje tudo que a gente trabalha de tecnologia é criada pelo próprio Rão”, declarou Lemos.
Segundo ele, a decisão de criar soluções próprias surgiu da necessidade de adaptar a tecnologia à realidade operacional da empresa. Para o executivo, o diferencial está no fato de o sistema ter sido desenvolvido por uma companhia que já operava restaurantes e conhecia as demandas do delivery na prática.
Listagem no radar ainda em 2026
O Grupo Rão foi uma das empresas selecionadas no Rota Fácil, reality show exibido pela BM&C News, com foco em companhias com potencial de listagem no mercado de capitais. A empresa agora passa por uma etapa de preparação que inclui documentação, auditorias e adequações de governança.
Segundo Guilherme Lemos, a expectativa é que a listagem aconteça ainda em 2026. A companhia avalia alternativas ligadas a equity, private placement ou eventual movimento público, mas ainda não definiu qual será o formato mais adequado.
O executivo destacou que a entrada no mercado de capitais representa uma nova fase de maturidade para a empresa, com aumento de governança, transparência e responsabilidade perante investidores.
Receita, lucro e margem
Durante a entrevista, foram apresentados números da companhia, como valuation estimado em R$ 255 milhões, receita de R$ 16,1 milhões em 2025, lucro de R$ 8,3 milhões e crescimento de 22% até maio de 2026.
Lemos atribuiu o desempenho à combinação entre expansão de receita, controle de despesas e foco na experiência do consumidor. Segundo ele, a margem do grupo se aproxima de 50%, resultado considerado elevado para o setor de alimentação.
“A gente tem uma equação que a gente bate toda semana com o time, que é: mais receita, menos despesa e NPS. Eu tenho que faturar o máximo possível com menos custo possível e entregando atendimento ao nosso cliente. Isso garante que a margem do Grupo Rão é uma margem altíssima, próxima dos 50%”, afirmou o CEO.
O executivo também ressaltou que a melhora de margem veio acompanhada de maior profissionalização da gestão. Segundo ele, a companhia passou a realizar planejamento orçamentário com antecedência e a acompanhar os custos de forma mais técnica.
Delivery ainda tem espaço para crescer no Brasil
Na avaliação de Lemos, o mercado brasileiro de delivery ainda tem grande potencial de expansão. Ele comparou o Brasil aos Estados Unidos, onde uma parcela maior do consumo alimentar ocorre fora de casa ou por meio de entrega.
O executivo afirmou que mudanças nos hábitos de consumo, apartamentos menores, famílias menores e questões ligadas à segurança urbana tendem a impulsionar o setor nos próximos anos. Para ele, a experiência do delivery no Brasil também evoluiu de forma significativa, especialmente em embalagem, logística e qualidade do produto entregue.
A companhia cresceu 300% entre 2019 e 2021, período marcado pelo avanço do delivery durante a pandemia. Agora, o grupo vê uma nova janela de crescimento, apoiada em tecnologia, franquias e expansão geográfica.


