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Guerra, petróleo e Fed: risco de alta nos juros dos EUA muda o tabuleiro para emergentes

Alex Agostini afirma que inflação resistente nos Estados Unidos reduz espaço para cortes e aumenta pressão sobre Brasil e demais mercados emergentes

Renata NunesPor Renata Nunes
22/05/2026

A tensão envolvendo Irã, Estados Unidos e petróleo passou a mexer não apenas com o preço dos ativos, mas também com a expectativa para os juros americanos. O que antes era discutido como um ciclo de queda nos Estados Unidos começa a ganhar uma nova camada de risco: a possibilidade de manutenção dos juros em patamar elevado por mais tempo ou, em um cenário mais adverso, até uma nova alta.

Em entrevista à programação da BM&C News, o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, afirmou que o mercado passou a recalcular as perspectivas para a política monetária global diante da combinação entre conflito geopolítico, petróleo mais caro e inflação resistente.

Segundo ele, a narrativa de Donald Trump perdeu força como fator de alívio para os mercados. As falas sobre avanço ou fim da guerra deixaram de ser suficientes para reduzir a percepção de risco, porque os agentes passaram a olhar mais para os efeitos concretos do conflito sobre energia, inflação e juros.

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“A intensidade e a duração desse conflito parecem estar diminuindo, mas os efeitos para a política monetária já estão colocados à mesa”, avaliou Agostini.

Bancos centrais voltam ao dilema entre inflação e crescimento

O ponto central da análise é que os bancos centrais terão de escolher o que priorizar nos próximos meses. De um lado, a inflação segue resistente e pode ser alimentada por petróleo, energia e custos de produção. De outro, juros elevados por muito tempo aumentam o risco de desaceleração econômica.

Agostini afirma que esse dilema não está restrito aos Estados Unidos. Ele também deve aparecer no Brasil e na Europa, com autoridades monetárias tentando equilibrar inflação acima da meta, atividade econômica e risco externo.

Na prática, os bancos centrais podem ser obrigados a conviver por mais tempo com inflação resistente, mantendo juros altos, ou aceitar algum grau de inflação acima do desejado para evitar uma recessão mais profunda.

“É difícil olhar para frente e ter melhor previsibilidade diante desse cenário que muda a cada hora”, disse Alex Agostini.

A frase resume o ambiente atual dos mercados: menos confiança em projeções lineares e mais necessidade de recalcular cenários a cada novo movimento geopolítico.

Fed pode ter menos espaço para cortar juros

A mudança mais importante está nos Estados Unidos. Antes da última reunião do Federal Reserve, segundo Agostini, ainda havia expectativa de que os juros americanos pudessem voltar a cair. Mas a resistência da inflação e os efeitos do conflito reduziram esse espaço.

O economista destacou que a inflação americana continua distante da meta de 2%, especialmente quando se observa o núcleo do índice de consumo das famílias, uma das referências acompanhadas pelo Fed.

Pela análise de Agostini, mesmo em um cenário mais favorável, com inflação mensal moderada nos próximos meses, a convergência para a meta ainda seria lenta. Isso torna difícil justificar cortes rápidos de juros.

“Nesse cenário, eu acho muito difícil reduzir os juros”, afirmou Agostini.

Mais do que isso: o mercado passou a discutir um risco que parecia fora do radar há pouco tempo, que é a possibilidade de alta nos juros americanos. Agostini não vê esse movimento como cenário-base, mas afirma que ele passou a fazer parte do tabuleiro global.

Emergentes sentem a pressão

Juros mais altos nos Estados Unidos costumam afetar diretamente os mercados emergentes. Quando o retorno dos títulos americanos sobe, o investidor global tende a exigir mais prêmio para manter recursos em países com maior risco. Isso pode pressionar moedas, bolsas, fluxos de capital e curvas de juros.

Agostini afirmou que esse é um dos fatores por trás da saída de estrangeiros do Brasil, ainda que o país esteja em posição relativamente melhor do que outros emergentes.

A diferença brasileira, segundo ele, está principalmente na matriz energética. Em um mundo em que inteligência artificial, data centers e carros elétricos devem ampliar a demanda por energia, o Brasil aparece com vantagens estruturais.

O país tem uma matriz mais diversificada e potencial de oferta em um momento em que outras regiões enfrentam custos maiores, especialmente no Sudeste Asiático e no Leste Europeu, onde a dependência de gás e energia importada pesa sobre empresas e consumidores.

“O Brasil tem uma matriz energética que o coloca em situação privilegiada”, disse Agostini.

Oportunidade brasileira esbarra no fiscal

Apesar da vantagem energética, Agostini alerta que o Brasil ainda não consegue capturar plenamente essa janela de oportunidade por causa de problemas domésticos. O principal deles é o fiscal.

Na avaliação do economista, o país precisaria colocar na mesa um ajuste fiscal mais profundo e uma visão de longo prazo. Ele diferencia um plano de governo, voltado ao ciclo político de quatro anos, de um plano de Estado, pensado para a próxima geração.

Esse ponto é decisivo para o investidor. Em um cenário externo mais duro, com juros americanos elevados e maior aversão a risco, países emergentes que combinam vantagens estruturais com disciplina fiscal tendem a ser mais bem avaliados. Já economias com incerteza fiscal podem perder parte do benefício de suas vantagens naturais.

Cautela volta a ser palavra-chave

A entrevista de Alex Agostini reforça que o mercado entrou em uma fase de menor previsibilidade. O conflito no Oriente Médio, o petróleo, a inflação americana e o Fed passaram a formar um único bloco de risco.

Para o Brasil, o cenário tem duas leituras. A primeira é positiva: o país pode se beneficiar da sua matriz energética em um mundo mais preocupado com segurança de abastecimento. A segunda é de alerta: sem ajuste fiscal e sem uma estratégia de longo prazo, essa vantagem pode não se converter em atração consistente de capital.

No curto prazo, a palavra que domina a política monetária é cautela. O Fed pode não cortar juros tão cedo, os emergentes terão de administrar fluxos mais voláteis e o Banco Central brasileiro precisará continuar olhando para o exterior antes de qualquer mudança relevante na taxa Selic.

O tabuleiro global mudou. E, como alertou Agostini, o risco que antes era de queda de juros nos Estados Unidos agora passou a incluir uma possibilidade mais incômoda para os mercados: juros altos por mais tempo, ou até uma nova alta, caso a inflação continue resistindo.

juros nos Estados Unidos

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