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Alta do petróleo e o ‘fantasma’ da estagflação: especialista avalia o dilema dos BCs

Em entrevista ao programa Global Wallet, Roberto Dumas afirma que choque de oferta pode contaminar toda a cadeia de preços e pressionar economias com baixo crescimento

Renata NunesPor Renata Nunes
21/05/2026

O avanço do petróleo em meio às tensões envolvendo Irã e Estados Unidos voltou a colocar uma palavra incômoda no radar dos mercados: estagflação. O termo, que combina inflação elevada com atividade econômica fraca ou em recessão, representa um dos cenários mais difíceis para qualquer banco central.

Em entrevista ao programa Global Wallet, da BM&C News, o mestre em economia Roberto Dumas explicou que ainda é cedo para afirmar que o mundo caminha para uma estagflação generalizada. No entanto, ele alertou que algumas regiões podem enfrentar exatamente essa combinação: crescimento baixo, inflação mais resistente e menor margem de manobra para a política monetária.

“É um dilema horroroso para qualquer Banco Central”, afirmou Dumas.

A dificuldade está no próprio funcionamento da política monetária. Quando há inflação, o banco central tende a subir juros para conter a demanda. Quando há recessão, a resposta tradicional é reduzir juros para estimular a economia. Mas, quando os dois problemas aparecem ao mesmo tempo, qualquer escolha tem custo.

Se os juros sobem, a inflação pode perder força, mas a atividade econômica piora. Se os juros caem, a economia ganha algum fôlego, mas a inflação pode se espalhar. É essa “escolha de Sofia” que torna o choque atual especialmente sensível para bancos centrais.

Choque de oferta também exige resposta

Um dos pontos centrais da análise de Dumas é a discussão sobre choques de oferta. Parte do mercado costuma argumentar que aumentos de preços provocados por petróleo, energia ou guerra não deveriam ser combatidos com juros, já que a política monetária não consegue produzir petróleo nem resolver conflitos geopolíticos.

Dumas discorda dessa leitura simplificada. Para ele, mesmo quando o choque começa pela oferta, há risco de transmissão para a demanda e para o restante da cadeia produtiva.

“Você tem que responder sim a um choque de oferta”, disse Roberto Dumas.

A lógica é que o aumento do petróleo não afeta apenas o preço do combustível. Ele passa por transporte, logística, produção, fretes, alimentos, passagens aéreas e custos industriais. Se o choque for curto, o banco central pode atravessar o período sem agir. Mas, se durar meses, o aumento inicial pode se transformar em inflação mais persistente.

Nesse cenário, a taxa de juros funciona como uma barreira contra o repasse integral dos custos. Ela não reduz o preço internacional do petróleo, mas limita a capacidade das empresas de transferirem todo o aumento ao consumidor final.

Ásia aparece como região mais vulnerável

Dumas destacou que o impacto do petróleo pode ser especialmente duro para países asiáticos com estoques menores de energia. Segundo ele, enquanto o Japão tinha cerca de 254 dias de estoque de petróleo em março, a China tinha aproximadamente 100 dias. Já países como Tailândia, Malásia, Indonésia, Singapura, Taiwan e Hong Kong teriam estoques bem menores, entre 20 e 30 dias.

Essa diferença muda completamente o grau de vulnerabilidade. Economias com menor colchão de energia podem enfrentar racionamento, queda no transporte, menos voos, redução da atividade e aumento de custos.

“O preço sobe e a atividade econômica cai”, explicou Dumas.

Esse é justamente o núcleo do risco estagflacionário: energia mais cara reduz a produção e o consumo, ao mesmo tempo em que pressiona a inflação. Para bancos centrais dessas regiões, a escolha passa a ser entre proteger a moeda e os preços ou evitar uma desaceleração mais forte da economia.

Europa tem problema estrutural adicional

Além da Ásia, Dumas também chamou atenção para a zona do euro. Na avaliação dele, a região tem uma fragilidade de origem: uma moeda única e uma política monetária comum, mas sem uma política fiscal plenamente unificada.

Na prática, o Banco Central Europeu define uma taxa de juros para economias com realidades muito diferentes. O problema aparece quando uma mesma política monetária atende bem a países como Alemanha, mas pode ser inadequada para países com outra dinâmica de inflação, crédito, dívida ou crescimento.

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Dumas lembrou que essa arquitetura já criou distorções no passado, como bolhas imobiliárias na Espanha e na Irlanda antes da crise de 2008. Com juros reais negativos para algumas economias, houve excesso de liquidez em ativos, especialmente no setor imobiliário.

A crise posterior mostrou como desequilíbrios nacionais podem se espalhar dentro de uma união monetária. A preocupação com a Grécia, por exemplo, não era apenas a economia grega em si, mas o risco de contágio para bancos, investidores e outros países da zona do euro.

O novo risco global

A análise de Roberto Dumas mostra que o petróleo não é apenas uma variável de mercado. Ele pode reorganizar expectativas de inflação, juros, crescimento e risco global.

O ponto principal é que o mundo ainda não está necessariamente em um cenário clássico de estagflação global. Mas algumas regiões podem entrar em uma dinâmica de baixo crescimento com inflação mais alta, especialmente se o choque de energia se prolongar.

Para investidores, isso significa olhar além do preço diário do barril. O risco está no tempo de duração do choque, na capacidade de estoques, no impacto sobre cadeias produtivas e na reação dos bancos centrais.

Em um ambiente de energia mais cara, menos previsibilidade geopolítica e atividade econômica mais frágil, o mercado volta a operar com uma pergunta central: até onde os bancos centrais poderão combater a inflação sem aprofundar a desaceleração?

petróleo e estagflação

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