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Ata do Fed reforça juros altos por mais tempo e expõe divisão sobre inflação nos EUA

Documento mostra preocupação com inflação resistente, impacto do Oriente Médio sobre energia e possibilidade de novos aumentos de juros se os preços seguirem acima da meta

Maurílio GoeldnerPor Maurílio Goeldner
21/05/2026

A ata do Federal Reserve divulgada nesta quarta-feira (20) reforçou a leitura de que os juros nos Estados Unidos devem permanecer elevados por mais tempo. O documento referente à reunião de abril mostrou um banco central mais preocupado com a inflação, menos confortável com cortes no curto prazo e dividido sobre o rumo da política monetária.

O FOMC manteve a taxa básica na faixa entre 3,50% e 3,75%, mas o conteúdo da ata indicou que a discussão interna ficou mais dura. Segundo o documento, quase todos os membros apoiaram a manutenção dos juros, enquanto Stephen Miran defendeu um corte de 0,25 ponto percentual. Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan apoiaram a manutenção da taxa, mas não concordaram com a permanência de uma linguagem que sugeria viés de afrouxamento monetário.

Ata do Fed reforça cenário de “higher for longer”

A principal mensagem da ata foi a preocupação com a inflação. O Fed afirmou que os preços seguem elevados, em parte por causa da alta global de energia, e que os desdobramentos no Oriente Médio aumentam a incerteza sobre a economia americana. O documento também indicou que as decisões futuras continuarão dependentes dos dados de inflação, emprego e condições financeiras.

Na avaliação dos dirigentes, a inflação pode demorar mais para voltar à meta de 2%. A ata apontou que a continuidade de leituras elevadas de preços, somada à incerteza sobre a duração e os impactos econômicos do conflito no Oriente Médio, pode exigir a manutenção da atual postura de política monetária por mais tempo do que o esperado anteriormente.

O documento também deixou aberta a possibilidade de um aperto adicional. Segundo o Fed, uma maioria dos participantes destacou que algum aumento de juros pode se tornar apropriado caso a inflação continue persistentemente acima de 2%. Essa sinalização reduz a convicção do mercado sobre cortes e reforça o cenário de “higher for longer”.

Inflação, energia e Oriente Médio pesam na decisão

A ata mostrou que a inflação total e o núcleo de inflação continuavam acima da meta no momento da reunião. O Fed informou que a inflação ao consumidor medida pelo PCE estava em 2,8% em fevereiro, enquanto o núcleo do PCE estava em 3,0%. Com base em dados de preços ao consumidor e ao produtor, a equipe técnica estimou que a inflação total pelo PCE teria subido para 3,5% em março, impulsionada pela alta de energia.

O impacto do Oriente Médio aparece como um dos principais fatores de risco. Os dirigentes observaram que preços mais altos de combustíveis já vinham pressionando outros itens, como fretes e passagens aéreas. A ata também citou efeitos sobre fertilizantes e outras commodities não energéticas, além de pressões recentes no setor de tecnologia da informação.

Além disso, o documento trouxe uma leitura mais ampla sobre inteligência artificial. O Fed reconheceu que o otimismo com IA ajudou bolsas internacionais, mas também indicou que investimentos fortes no setor podem elevar custos de insumos em diferentes indústrias. Ao mesmo tempo, algumas empresas podem adiar ou reduzir contratações diante da incerteza econômica ou da expectativa de adoção de novas tecnologias.

Especialistas veem Fed dividido

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Para William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, a ata não trouxe uma grande surpresa, mas confirmou um Federal Reserve dividido. Segundo ele, o documento mostra que parte dos dirigentes quer manter todos os instrumentos na mesa diante da inflação ainda elevada.

“É uma ata que reforça uma visão de um Fed dividido”, afirmou William Castro Alves.

O estrategista destacou que a ata se refere a uma decisão tomada antes dos dados mais recentes de inflação, que vieram mais fortes nos Estados Unidos. Para ele, esse ponto reduz o grau de conforto do banco central para cortar juros no curto prazo.

“Não há um cenário muito claro olhando à frente”, avaliou William Castro Alves.

Na leitura de William, a principal inovação da ata foi admitir que, se a inflação continuar elevada, o Fed pode eventualmente ter que subir juros. Ele também chamou atenção para a disputa em torno do chamado “easing bias”, ou seja, a sinalização sobre a direção futura da política monetária. Parte dos dirigentes queria retirar essa indicação de viés de corte, mas a formulação acabou sendo mantida.

Mercado olha para guerra, petróleo e rotação setorial

Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, avaliou que a ata, apesar do tom negativo, não alterou a dinâmica principal dos mercados nesta quarta-feira. Para ele, o que está fazendo preço no curto prazo são as declarações de Donald Trump sobre a guerra no Irã e a percepção de que o governo americano pode buscar uma solução sem uso direto da força.

“A ata do Fed não alterou a dinâmica do mercado”, afirmou Gabriel Mollo.

Segundo o analista, esse movimento ajuda a explicar a rotação setorial observada no mercado brasileiro. Ações não ligadas a petróleo e gás passaram a subir, enquanto papéis de empresas do setor de óleo e gás recuaram, diante da leitura de alívio nas tensões e possível queda no prêmio de risco do petróleo.

Ainda assim, Mollo considerou o conteúdo da ata negativo para ativos de risco. Na avaliação dele, a sinalização de que pode haver aumento de juros para controlar a inflação deveria pesar sobre a renda variável, já que juros mais altos tornam a renda fixa mais atrativa e reduzem o apetite por ações.

“Se o mercado estivesse seguindo a ata, deveria começar a cair”, disse Gabriel Mollo.

Créditos: depositphotos.com / steveheap

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