O Pix se consolidou como uma forma de transferir dinheiro de maneira instantânea. Mas, nos aplicativos de bancos e fintechs, uma modalidade diferente vem ganhando espaço: a possibilidade de fazer um Pix usando crédito e pagar o valor posteriormente ou em parcelas.
Embora a transferência continue sendo realizada pelo sistema Pix, para quem envia o dinheiro existe uma operação de crédito associada. Isso significa que podem existir juros, IOF e outros encargos.
Por isso, o principal número a ser observado antes da contratação não é apenas o valor da parcela. É o Custo Efetivo Total (CET), que reúne os custos envolvidos na operação.
O Banco Central chegou a trabalhar na criação de uma padronização específica para o chamado Pix Parcelado. Em outubro de 2025, a autoridade monetária informou que preparava uma regulamentação que definiria o produto e buscaria padronizar a experiência do usuário.
Em dezembro daquele ano, porém, o BC decidiu não avançar, no curto prazo, com essa regulamentação específica. As ofertas privadas continuaram disponíveis. Segundo informações divulgadas após reunião do Fórum Pix, o uso do nome “Pix Parcelado” também foi restringido, enquanto expressões como “Pix no crédito” e “parcelamento do Pix” permaneceram possíveis.
Como funciona o Pix no crédito?
Para quem recebe, pouco muda: o dinheiro normalmente entra integralmente na conta no momento da transferência, como ocorre em um Pix convencional. Para quem envia, a situação é diferente. Em vez de utilizar o saldo disponível na conta, o cliente utiliza uma linha de crédito oferecida pela instituição financeira.
Existem diferentes modelos no mercado. Em algumas instituições, o cliente utiliza o limite do cartão de crédito. O valor enviado aparece posteriormente na fatura e pode ser dividido em parcelas.
Em outras, a instituição oferece uma linha de crédito pré-aprovada, sem necessidade de cartão. As parcelas podem ser cobradas diretamente da conta do cliente.
O Santander, por exemplo, informa que o Pix no cartão utiliza o limite do cartão e pode ser parcelado em até 12 vezes com juros. O Banco do Brasil também oferece uma modalidade em que as parcelas podem ser debitadas automaticamente da conta corrente.
Portanto, embora o dinheiro seja transferido pelo Pix, o parcelamento é uma operação de crédito.
Pix no crédito tem juros?
Na maior parte das ofertas, sim. Não existe uma taxa única para esse tipo de operação. Os juros podem variar conforme a instituição, o perfil do cliente, o limite disponível, o valor enviado e a quantidade de parcelas.
Além dos juros, a operação pode envolver IOF e outros encargos. Por isso, comparar apenas a taxa mensal pode levar a uma avaliação incompleta do custo. O consumidor deve verificar principalmente o Custo Efetivo Total, que mostra de maneira mais ampla quanto custa o crédito contratado.
A Resolução CMN nº 4.881 determina que as instituições abrangidas pela norma devem informar o CET antes da contratação da operação de crédito.
Isso significa que a ausência de uma regulamentação específica para o Pix parcelado não deixa essas operações sem regras de crédito.
O que é o CET e por que ele importa?
O Custo Efetivo Total reúne os encargos associados à operação e permite comparar diferentes ofertas de crédito. Uma taxa de juros aparentemente baixa pode resultar em um custo maior quando impostos, tarifas e outros encargos são considerados.
Por esse motivo, duas instituições que oferecem a mesma quantidade de parcelas podem apresentar valores finais bastante diferentes.
Antes de confirmar a operação, o consumidor deve verificar:
- o valor que efetivamente será enviado;
- o número de parcelas;
- o valor de cada parcela;
- a taxa de juros;
- o CET anual informado;
- a incidência de IOF e outros encargos;
- e, principalmente, o valor total que será pago até o fim da operação.
Quais bancos oferecem Pix no crédito?
A modalidade já está disponível em diferentes bancos e fintechs. Os prazos e condições variam entre as instituições e podem depender da análise de crédito de cada cliente.
PicPay: permite parcelar Pix e boletos em até 36 vezes pelo PicPay Parcela. A empresa também permite usar cartões cadastrados, com condições diferentes de parcelamento.
Bradesco: permite utilizar o limite de saque do cartão de crédito para realizar um Pix e parcelar a operação em até 24 vezes.
Banco Inter: o Crédito Inter permite parcelar o Pix em até 18 vezes, respeitando parcela mínima de R$ 5. A contratação depende de análise e disponibilidade de crédito.
Santander: oferece Pix utilizando o limite do cartão, com parcelamento em até 12 vezes com juros. O banco também oferece o produto conhecido como Divide o Pix.
Itaú: permite realizar Pix utilizando o cartão de crédito e dividir a operação em até 12 vezes, sujeito à análise e às condições disponíveis no aplicativo.
Nubank: o Pix no crédito utiliza o limite disponível do cartão e permite pagamento em uma parcela ou divisão em até 12 vezes. Antes da confirmação, o aplicativo apresenta taxas e condições da operação.
Mercado Pago: oferece Pix utilizando linha de crédito, com possibilidade de parcelamento em até 12 vezes, dependendo do valor e das condições disponíveis para o usuário.
Banco do Brasil: oferece modalidades para parcelar Pix diretamente pelo aplicativo. Em uma delas, as parcelas são debitadas automaticamente da conta corrente; clientes Ourocard também podem realizar Pix utilizando o cartão de crédito.
A lista não é exaustiva. As ofertas podem ser alteradas e nem todos os clientes necessariamente têm acesso às mesmas condições.
Pix no crédito ou cartão parcelado: qual sai mais barato?
A comparação depende das condições oferecidas em cada compra. Imagine uma compra de R$ 1.000.
Se o estabelecimento permitir parcelamento no cartão em cinco vezes sem juros, o consumidor pagará:
5 parcelas de R$ 200
Total: R$ 1.000
Agora, suponha, apenas como exemplo, uma operação de crédito de R$ 1.000 parcelada em cinco vezes com juros de 4,5% ao mês, sem considerar IOF ou eventuais tarifas adicionais.
Nesse cenário, uma simulação com prestações constantes resulta aproximadamente em:
5 parcelas de R$ 227,79
Total: R$ 1.138,96
Ou seja, cerca de R$ 138,96 a mais que o preço original.
Na contratação real, o valor pode ser diferente porque o CET pode incluir impostos e demais custos da operação.
Por isso, quando existe a possibilidade de parcelar a compra no cartão sem juros, essa alternativa tende a ser financeiramente mais barata do que contratar crédito com juros para fazer um Pix.
E se a loja oferecer desconto no Pix?
Nesse caso, a comparação muda. Imagine um produto anunciado por R$ 1.000 no cartão e com desconto para pagamento via Pix. Para saber se vale a pena fazer o Pix usando crédito, não basta olhar para o percentual de desconto.
O consumidor precisa comparar:
preço com desconto + custo total do crédito
com
preço total do parcelamento no cartão.
Se os juros e demais encargos consumirem todo o desconto oferecido pela loja, a operação perde a vantagem.
Por isso, o desconto do Pix só torna a modalidade interessante quando a economia obtida na compra for maior do que o custo do crédito utilizado para financiar o pagamento.
Banco Central desistiu de regular o produto?
O Banco Central chegou a anunciar em 2025 que criaria uma regulamentação específica para o Pix Parcelado. A intenção era estabelecer uma definição padronizada para o produto e melhorar a experiência dos usuários.
Após adiamentos, a autoridade monetária decidiu, em dezembro de 2025, não avançar no curto prazo com a padronização específica. As instituições puderam continuar oferecendo suas próprias soluções de crédito associadas ao Pix.
A decisão foi criticada pelo Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), que afirmou que a falta de uma padronização específica poderia aumentar a heterogeneidade das ofertas e dificultar a comparação entre produtos.
Isso, porém, não significa que as operações ficaram sem regulamentação.
Quando existe concessão de crédito, continuam valendo as regras aplicáveis à operação financeira, incluindo, nos casos abrangidos, a obrigação de informar previamente o CET.
Pix no crédito pode afetar o orçamento?
Como qualquer linha de crédito, a modalidade cria uma obrigação de pagamento futuro. Ao dividir vários Pix ao longo do mês, o consumidor pode acumular parcelas em diferentes vencimentos e comprometer uma parcela maior da renda do que imaginava.
O risco aumenta quando o crédito é contratado olhando apenas para o valor de cada prestação, e não para a soma de todas as parcelas e para o custo total.
Também é importante lembrar que, nas modalidades vinculadas ao cartão, o atraso da fatura pode levar o consumidor a outras formas de crédito mais caras.
Quando o Pix no crédito pode fazer sentido?
A modalidade pode ser útil quando o consumidor precisa realizar uma transferência ou uma compra via Pix e não possui o valor disponível naquele momento.
Também pode fazer sentido quando existe um desconto relevante para pagamento via Pix e, mesmo após incluir os custos do crédito, o preço final continua menor que nas demais opções disponíveis.
A decisão, porém, deve ser feita com base no custo total.
O ponto principal é simples: o recebedor recebe um Pix, mas o pagador pode estar contratando crédito.
Antes de confirmar, é necessário conferir juros, número de parcelas, CET e valor total a pagar.
Com a Selic em 14% ao ano após a decisão do Copom de agosto de 2026, o ambiente de juros no Brasil continua elevado. Isso reforça a importância de comparar cuidadosamente qualquer modalidade de crédito antes da contratação.
Veja uma entrevista sobre o tema no programa Papo de Dinheiro da BM&C News.
















