Flávio Bolsonaro escolheu um ótimo momento para visitar o presidente Donald Trump e cortar um pouco a crise envolvendo seu nome, o do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e a produção do filme “Dark Horse”. Ao se afastar do Brasil, abafou um pouco o episódio que o fez recuar nas pesquisas e criou, ao mesmo tempo, uma nova pauta – a sua reunião com Trump.
Do ponto de vista institucional, a visita à Casa Branca pode ser vista como positiva. Afinal, nenhum outro candidato ao Planalto – pelo menos até onde vai a memória – foi recebido no Salão Oval. Não é o primeiro postulante à presidência recebido por Trump. Em maio do ano passado, ele se encontrou com Karol Nawrocki, que na época buscava o comando da Polônia.
O caso de Karol Nawrocki ajuda a contextualizar o encontro de Flávio Bolsonaro dentro de uma estratégia mais ampla de Trump: usar reuniões com candidatos estrangeiros como instrumento de influência e demonstração de poder internacional. Quando recebeu Nawrocki em maio de 2025, Trump enviou um recado claro ao eleitorado polonês e ao establishment europeu, reforçando seu alinhamento com forças conservadoras.
O gesto teve impacto real: Nawrocki venceu a eleição meses depois. Ao repetir o movimento com Flávio, Trump sinaliza que está disposto a intervir simbolicamente em disputas políticas de países aliados, oferecendo um selo de legitimidade que pode ser explorado eleitoralmente. A diferença é que, no caso brasileiro, o efeito é mais incerto: o Brasil não vive o mesmo ambiente político da Polônia e o peso do apoio de Trump é mais ambíguo, podendo mobilizar tanto simpatizantes quanto críticos.
Flávio colocou na pauta um tema importante para o presidente americano e os eleitores brasileiros: a violência urbana. O senador pediu a Trump que classificasse o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
A Casa Branca já deseja fazer isso há algum tempo, mas esbarra na resistência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Enquanto o Lula vai de joelhos, rastejando para implorar ao presidente americano Trump que não declare organizações criminosas como CV e PCC como terroristas, eu faço o contrário. Eu fui exatamente fazer esse pedido expresso a ele para que ele declare organizações CV e PCC como organizações terroristas, sim, que é o que eles são”, declarou Flávio.
Como a segurança pública é um tema preponderante na ribalta política e sensibiliza os eleitores, este movimento pode render frutos ao pré-candidato do PL. Trump também perguntou pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e, segundo, Flávio foi bastante gentil, em um encontro que durou cerca de uma hora e meia.
Tudo muito bom, tudo muito bem. Por que, então, Trump demonstra um sorriso tão forçado nas fotos oficiais?
O sorriso forçado de Trump abre uma camada adicional de interpretações. O presidente americano domina como poucos a comunicação visual e raramente deixa escapar expressões que não estejam alinhadas à mensagem que deseja transmitir.
Um sorriso tenso pode indicar pressa, desconforto com o timing da visita ou simplesmente a tentativa de manter uma distância simbólica de um aliado que, embora útil, não é central para sua agenda doméstica. Também pode refletir o fato de que encontros com pré‑candidatos estrangeiros não fazem parte do protocolo tradicional da Casa Branca, o que o obriga a equilibrar cordialidade com cautela. Em outras palavras, a foto registra não apenas um gesto político, mas também a ambiguidade de um apoio que é útil para Flávio – mas não necessariamente prioritário para Trump.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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