Há profissões em que os medíocres podem atuar sem gerar grandes problemas para a sociedade. Designers, bibliotecários e tradutores, por exemplo, podem gerar embaraços com demonstrações de incompetência. Mas essas manifestações de incapacidade não vão colocar em risco a vida de uma pessoa, como ocorre na medicina ou na engenharia (talvez os exemplos mais gritantes de profissões em que a mediocridade pode ser perigosa).
Mas há outra atividade em que a baixa performance tem efeitos malignos na vida de um indivíduo – a de professor. Um profissional de ensino displicente pode contribuir para a má formação de uma criança ou de um jovem, tanto pelo exemplo pessoal como por ensinamentos equivocados (não vamos entrar em questões de viés ideológico).
É por essa razão que um dado divulgado nesta semana pelo Ministro da Educação, Leonardo Barchini, chama atenção. Segundo avaliação do ministério, mais da metade dos formados em licenciatura em 2025 são estudantes de cursos à distância que tiveram notas insatisfatórias no exame de avaliação dos futuros professores (o teste é conhecido como ENADE das licenciaturas).
Os formandos são avaliados e têm notas de 1 a 5, sendo 3 a média satisfatória mínima. Notas de 1 a 2 significam que o curso não conseguiu oferecer aos alunos a proficiência básica. Isso ocorreu em 53% dos casos, o que abrange 155 500 dos novos professores.
O impacto de uma formação frágil chega à educação básica de maneira gradual, mas profunda. Professores que concluem licenciaturas com baixo domínio de conteúdos específicos ou de práticas pedagógicas enfrentam dificuldades para estruturar aulas consistentes, propor atividades que estimulem o pensamento crítico e adaptar estratégias para diferentes perfis de alunos. Essa limitação não decorre de falta de esforço individual, mas de lacunas acumuladas ao longo da formação técnica, que se tornam evidentes quando o docente precisa lidar com a complexidade real da sala de aula.
Com o tempo, essas fragilidades se refletem no cotidiano escolar. Turmas podem avançar menos nos conteúdos, apresentar maior dificuldade em leitura, escrita ou raciocínio lógico e depender mais de reforço externo para atingir níveis mínimos de aprendizagem. Em regiões onde a oferta de cursos de licenciatura é limitada e muitos deles têm desempenho baixo no ENADE, o efeito se intensifica: escolas inteiras passam a contar com profissionais que não tiveram acesso a uma formação sólida, criando um ciclo difícil de romper.
Esse cenário contribui para ampliar desigualdades educacionais. Alunos de escolas que recebem professores bem formados têm mais oportunidades de desenvolver habilidades complexas, enquanto aqueles atendidos por docentes ruins ficam restritos a um ensino deficiente. Assim, uma nota baixa no ENADE das licenciaturas é um sinal de alerta sobre a qualidade do ensino que chegará às crianças e jovens, influenciando diretamente suas trajetórias escolares e profissionais.
Em um país que sente diariamente os efeitos de uma educação precária, trata-se de algo inadmissível. Evidentemente, este cenário é fruto de um processo de longo prazo. Mas temos de lembrar que o ministério da Educação conta com verbas carimbadas e tem um dos maiores orçamentos da União. Portanto, o problema não é exatamente falta de dinheiro. Gasta-se muito e gasta-se mal.
Desde 2023, tivemos 16 anos e oito meses com o PT no poder, enquanto Michel Temer e Jair Bolsonaro governaram o país por 6 anos e 4 meses. Diante disso, é possível apontar as gestões petistas como principais responsáveis pelo desastre atual (embora os quatro ministros nomeados por Bolsonaro durante seu mandato também tenham deixado bastante a desejar).
A condução da educação brasileira permanece presa a modelos lentos, burocráticos e incapazes de acompanhar transformações tecnológicas que já moldam o presente. Além disso, a expansão acelerada das ferramentas de inteligência artificial deve ampliar esse descompasso, pois sistemas educacionais que não conseguem garantir sequer a formação mínima de seus professores correm o risco de se tornar ainda mais anacrônicos diante de tecnologias que exigem domínio de pensamento crítico, capacidade de análise e atualização constante.
Enquanto outros países discutem como integrar IA ao currículo e formar docentes para usá‑la de modo responsável, o Brasil ainda luta para assegurar que seus futuros professores dominem conteúdos básicos. Isso cria um abismo crescente entre o que a escola oferece e o que a sociedade demanda, com consequências diretas para a competitividade do país e para a autonomia intelectual das próximas gerações.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.
*Leia mais colunas do autor clicando aqui.














