A Índia deixou de ser promessa demográfica para se tornar variável estratégica. Com mais de 1,4 bilhão de habitantes, crescimento consistente e política industrial assertiva, ela ocupa hoje o centro das conversas sobre diversificação de cadeias globais. Em um mundo que busca alternativas à concentração asiática e tenta equilibrar riscos geopolíticos, Nova Délhi surge como peça-chave.
Para o Brasil, a equação parece direta: crescimento indiano significa mais demanda por alimentos, energia e minerais. Mas é exatamente aí que mora o erro recorrente. A Índia não é milagre automático. É um mercado exigente, competitivo e seletivo. Ela premia estratégia, previsibilidade e escala; pune improviso e euforia diplomática. Tratar a aproximação como solução estrutural para nossas limitações internas é inverter a lógica. Antes de falar em ganhos, é preciso falar em capacidade de execução.
Há três caminhos com racionalidade econômica clara. O primeiro é agro e agroindústria, desde que combinados com contratos de médio prazo, previsibilidade logística e padrões elevados de rastreabilidade. A Índia protege setores sensíveis e negocia com firmeza; quem entrar apenas como vendedor oportunista de commodity será substituído.
O segundo eixo é energia e transição energética. Crescimento indiano exige segurança de abastecimento, e há espaço para biocombustíveis, bioenergia e arranjos estruturais que integrem tecnologia, financiamento e certificação. Não se trata apenas de exportar produto, mas modelo.
O terceiro vetor são minerais críticos, fundamentais para eletrificação e cadeias industriais modernas. Aqui o risco é repetir o passado: exportar bruto e celebrar volume. O ganho real está em processamento, contratos estáveis e governança confiável. Sem segurança jurídica e eficiência regulatória, a narrativa supera o investimento.
Do outro lado, dois atalhos perigosos precisam ser evitados. O primeiro é acreditar que o Brasil ganhará espaço relevante fornecendo manufaturados padronizados e intensivos em trabalho. A Índia já opera com escala, custo competitivo e estratégia de proteção industrial. Competir apenas por preço, carregando custos estruturais elevados, é ilusão.
O segundo equívoco é apostar em “saltos tecnológicos” sem presença local e sem encadeamento produtivo. O mercado indiano exige adaptação regulatória, assistência técnica e parceria estruturada. Tecnologia não viaja sozinha; exige relacionamento e comprometimento de longo prazo.
A conclusão é simples: a Índia é avenida, não elevador. Para o Brasil, a oportunidade existe — mas só será capturada com pragmatismo, planejamento e previsibilidade. O resto é entusiasmo passageiro.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista e empresário no Brasil, CEO da Energy Group e vice-presidente de finanças da Camara Italiana do Comércio de São Paulo – Italcam
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