Paraíba e Piauí, juntos, têm cerca de 5,9 milhões de eleitores. Isso representa 3,8% do eleitorado brasileiro. Apesar disso, esses estados terão papel preponderante nas eleições de outubro – e podem até decidir quem será o vencedor. A importância dessas praças, no entanto, nada têm a ver com o número de votos que virá de suas urnas. O que ocorre nos bastidores políticos nesses estados é o que pode interferir (e bastante) no pleito presidencial.
Há alguns dias, o senador Ciro Nogueira, um dos nomes mais expressivos da oposição ao PT, fez um aceno ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Poderia trocar um eventual apoio à sua reeleição ao Senado pelo Piauí pelo afastamento de seu partido, o Progressistas, da candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência da República. Em uma eleição que, em tese, será decidida por margens mínimas, essa barganha tem o potencial de valer ouro para os petistas.
A sucessão local à Câmara Alta na Paraíba também pode interferir em uma eventual reeleição de Lula. O presidente da Câmara, Hugo Motta, sinalizou ao Planalto que iniciaria as discussões no plenário sobre o transporte público gratuito (uma das bandeiras eleitorais da situação) em troca do apoio à candidatura do pai, Nabor Wanderley, ao Senado.
Wanderley, atualmente, é prefeito de Patos, a quarta maior cidade paraibana, que conta com pouco mais de 100.000 habitantes (tamanho semelhante ao de Caçapava, no interior paulista). Apesar de ser pouco relevante do ponto de vista político ou econômico, essa cidadezinha acabou tendo o poder de influir fortemente na pauta da campanha deste ano.
Ocorre que Lula vai investir pesado no projeto de transporte público gratuito como um assunto importante a ser explorada na corrida presidencial. Para isso, precisa que o tema esteja no radar da Câmara, entrando na pauta dos veículos de imprensa e das redes sociais (a exemplo do que ocorreu com o debate em torno da jornada de trabalho 6×1).
Esse tópico tem tudo para acender a campanha – mas muitos analistas enxergam que houve um esgotamento das pautas sociais como ferramenta na obtenção de votos. Contudo, não é o que pensam os articuladores do Planalto, em especial o ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira. A campanha de Lula vai bater forte nesta tecla e a estratégia é fazer com que os empresários paguem a conta do ônibus gratuito.
É preocupante ver duas figuras célebres do Centrão mudarem de rumo em função de interesses pessoais. No caso de Hugo Motta, o presidente da Câmara protagonizou atritos relevantes com o governo Lula nos últimos meses: conduziu a derrubada do decreto do IOF e acusou o Planalto de criar “falsas narrativas” e operar na lógica do “nós contra eles”.
Ele também bancou um relatório duro do PL Antifacção, aprovado contra a orientação do governo, e criticou publicamente a posição do Executivo. Por fim, declarou que não preside a Casa para servir a um projeto político do governo em debate com a liderança do PT.
A coerência ideológica, assim, deu lugar à conveniência eleitoral do presidente da Câmara.
O governo precisa de aliados para transformar o transporte público gratuito em bandeira eleitoral e enxerga nesses acordos regionais uma oportunidade de impulsionar o tema. Paraíba e Piauí, assim, deixam de ser apenas estados do Nordeste e passam a influenciar a estratégia nacional, não pelo peso eleitoral, mas pela capacidade de seus líderes de alterar alianças e destravar pautas.
Se esses arranjos prosperarem, Lula ganha terreno para bombar a campanha. Se falharem, revelam a fragilidade de uma articulação dependente de figuras cuja lealdade dura apenas enquanto seus interesses forem atendidos. É essa instabilidade que torna Paraíba e Piauí peças decisivas em uma disputa ainda em formação.
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