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CRI e CRA: como funcionam os títulos de crédito privado e quais são os riscos para o investidor

Economista Daniel Faria explica no Wall Street Cast a estrutura dos CRIs e CRAs, os riscos de crédito e os desafios desses títulos no mercado brasileiro.

Sofia TostaPor Sofia Tosta
17/04/2026

O mercado brasileiro de renda fixa ganhou novos instrumentos nos últimos anos com a expansão do crédito privado voltado ao investidor pessoa física. Entre os produtos que passaram a ganhar maior espaço nas carteiras estão os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), títulos utilizados por empresas para antecipar receitas futuras e captar recursos no mercado de capitais.

Durante entrevista ao programa Wall Street Cast, da BM&C News, o economista Daniel Faria explicou o funcionamento desses instrumentos e destacou que, apesar de serem classificados como renda fixa e frequentemente oferecidos com isenção de imposto de renda para pessoa física, eles envolvem riscos relevantes que nem sempre são percebidos pelo investidor.

“Basicamente para falar sobre o produto rápido, nada mais é um crédito, como todo produto de renda fixa. É uma antecipação que tanto empresas do agronegócio como do setor imobiliário antecipam alguns recebíveis que elas já têm. O banco empacota isso e vende para as pessoas”, explicou Daniel Faria.

CRI e CRA e o crescimento do crédito privado no Brasil

Os CRIs e CRAs foram criados com o objetivo de estimular o financiamento de setores considerados estratégicos da economia, especialmente o mercado imobiliário e o agronegócio. Ao permitir que empresas antecipem recebíveis por meio da emissão desses títulos, o modelo contribui para ampliar o acesso ao crédito e fortalecer o mercado de capitais.

Na prática, esses instrumentos funcionam por meio da securitização de fluxos de caixa futuros. Receitas provenientes de vendas de imóveis, contratos agrícolas ou operações empresariais são transformadas em títulos distribuídos aos investidores.

Estrutura dos títulos e vínculo com os recebíveis

Segundo o economista, a estrutura desses títulos está diretamente relacionada à geração futura de receitas das empresas emissoras. Diferentemente de outros instrumentos de dívida corporativa, como as debêntures, o pagamento aos investidores costuma estar vinculado a fluxos de recebimento específicos que a empresa pretende antecipar.

Esse mecanismo faz com que o risco do investimento esteja ligado ao desempenho financeiro do projeto ou da atividade que gera os recebíveis utilizados como garantia.

“Quando você pega um CRI ou um CRA, você já está mostrando assim: ‘olha, eu tenho tantos recebíveis desse meu negócio que estou antecipando para pagar isso daqui para os clientes’”, afirmou Daniel Faria.

Liquidez limitada no mercado secundário

Outro ponto ressaltado na entrevista foi a baixa liquidez desses ativos. Como os títulos são estruturados para prazos longos, muitas vezes o investidor encontra dificuldade para vender o papel antes do vencimento.

Mesmo quando há possibilidade de saída antecipada, a venda costuma ocorrer com descontos relevantes em relação à rentabilidade originalmente contratada.

“São ativos que você tem que comprar sem realmente ter previsão de que vai precisar desse dinheiro”, alertou Daniel Faria.

Risco de crédito e concentração do investimento

O economista também destacou que, apesar da classificação como renda fixa, CRIs e CRAs carregam riscos significativos de crédito. Como muitas emissões estão associadas a projetos específicos ou empresas individuais, o investidor pode ficar excessivamente exposto ao desempenho de um único emissor.

Esse risco se torna ainda mais sensível em setores naturalmente voláteis, como o agronegócio ou o mercado imobiliário, que dependem de ciclos econômicos e condições de financiamento.

“Você tem um risco grande de crédito privado”, observou Daniel Faria.

Cenário econômico e impacto sobre os títulos

O ambiente macroeconômico também influencia diretamente o comportamento desses ativos. Mudanças no ciclo de juros, crises setoriais ou deterioração do crédito podem afetar a capacidade de pagamento das empresas responsáveis pelos recebíveis que lastreiam os títulos.

Na avaliação do economista, a volatilidade da economia brasileira torna esse tipo de investimento mais sensível às mudanças de cenário.

“Os ciclos econômicos no Brasil são muito mais agressivos”, analisou Daniel Faria.

Diversificação e análise de risco no crédito privado

Diante desse contexto, a análise de crédito e a diversificação da carteira tornam-se fatores centrais para investidores interessados nesse segmento. A concentração excessiva em um único título pode ampliar a exposição a eventuais problemas financeiros do emissor.

Nesse sentido, o economista destaca que muitos investidores pessoa física acabam acessando esses ativos sem realizar uma avaliação aprofundada da qualidade de crédito envolvida.

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“São poucas as casas de investimentos que fazem uma análise de crédito bem criteriosa”, ponderou Daniel Faria.

Perspectivas para o mercado de CRI e CRA

O crescimento das emissões de CRI e CRA nos últimos anos ocorreu em paralelo à busca por rentabilidades maiores em um ambiente de juros historicamente baixos no Brasil. Com a mudança do cenário macroeconômico e o aumento das taxas, a avaliação de risco desses ativos tende a ganhar ainda mais relevância.

Para o economista, compreender a relação entre retorno e risco é fundamental para decisões de investimento nesse segmento do mercado de capitais.

 

Foto: Reprodução BM&C NEWS

Foto: Reprodução BM&C NEWS

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