No programa Global Wallet, da BM&C News, Rafael Lara recebeu Felipe Manzo e Sean Connor, da Blue Owl, para discutir o avanço dos mercados privados, o crescimento do private credit e a busca de investidores por alternativas de diversificação fora das bolsas. A conversa passou por temas como data centers, inteligência artificial, presença da gestora no Brasil e o papel dos investimentos alternativos em carteiras de longo prazo.
A Blue Owl se apresenta como uma gestora focada em mercados privados, com atuação em private credit, ativos reais, infraestrutura digital e participações em outras gestoras. A estratégia, segundo os executivos, combina geração de renda, preservação de capital e exposição a segmentos que não estão plenamente disponíveis nos mercados públicos, especialmente nos Estados Unidos.
“Nosso foco é muito voltado à geração de renda. Muitas das nossas estratégias buscam entregar uma renda corrente elevada em relação a uma alternativa equivalente no mercado público. E queremos proteger o capital”, afirmou Sean Connor.
Mercados privados avançam com menos empresas listadas em bolsa
A redução do número de empresas abertas nos Estados Unidos foi apontada como uma mudança estrutural relevante para investidores. Connor explicou que as companhias hoje conseguem captar recursos em mercados privados, por meio de crédito ou capital, sem necessariamente recorrer a uma abertura de capital. Esse movimento amplia o universo de oportunidades fora das bolsas.
Na avaliação apresentada no programa, o crescimento dos mercados privados altera a forma como investidores acessam empresas em expansão. Para pessoas físicas e investidores institucionais, a falta de exposição a esse universo pode significar concentração em companhias já maduras e listadas, deixando de fora uma parcela relevante do mercado investível.
“Há menos demanda para abrir capital e, ao mesmo tempo, há mais oferta de soluções para apoiar o desenvolvimento das empresas nos mercados privados”, explicou Sean Connor.
Investimentos alternativos e o perfil do investidor brasileiro
Felipe Manzo destacou que a Blue Owl atua exclusivamente com alternativas, em três verticais principais. Segundo ele, a gestora busca ser “estreita no foco e profunda na execução”, com atuação em áreas nas quais enxerga mercados amplos e desequilíbrios entre oferta e demanda de capital. No caso da América Latina e do Brasil, a proposta é adaptar essas estratégias ao perfil local.
Para Manzo, o investidor brasileiro tem afinidade com renda fixa, geração de renda e ativos imobiliários. Por isso, produtos de private credit, real estate e infraestrutura podem dialogar com carteiras que buscam previsibilidade, diversificação e menor correlação com ativos tradicionais, desde que sejam explicados de forma adequada ao público local.
“Em tudo o que fazemos, não estamos tentando buscar um retorno extraordinário a qualquer custo, mas sim retornos consistentes, estáveis e defensivos”, destacou Felipe Manzo.
IA amplia demanda por infraestrutura digital
A inteligência artificial foi um dos principais temas da entrevista. Connor explicou que a demanda por computação já vinha crescendo com a expansão da computação em nuvem, mas ganhou uma nova dimensão com os investimentos em IA. Segundo ele, grandes empresas de tecnologia seguem ampliando gastos de capital para sustentar data centers, energia, processamento e armazenamento de dados.
A Blue Owl busca capturar essa tendência por meio de infraestrutura digital, desenvolvendo, administrando ou financiando data centers para grandes companhias. A tese apresentada no programa não depende da escolha de uma empresa vencedora em IA, mas da necessidade estrutural de capacidade computacional para sustentar o avanço do setor.
“A forma como buscamos participar desse movimento não é escolhendo o vencedor da inteligência artificial ou os três vencedores da inteligência artificial”, observou Sean Connor.
Risco de bolha em IA exige leitura seletiva
Ao tratar do debate sobre uma possível bolha em inteligência artificial, Connor diferenciou a aposta em companhias específicas da exposição à infraestrutura necessária para o funcionamento do setor. Segundo ele, parte do risco está nas empresas diretamente ligadas à IA que ainda precisam provar rentabilidade, mas a demanda por data centers tende a permanecer relevante mesmo com mudanças entre vencedores e perdedores.
Essa leitura coloca os data centers como uma forma mais defensiva de acessar a megatendência da IA. Em vez de apostar em modelos, aplicativos ou plataformas específicas, a estratégia descrita na entrevista busca receber pagamentos de companhias com elevada qualidade de crédito, como grandes empresas de tecnologia.
“O que queremos é, simplesmente, que nossas contas sejam pagas”, pontuou Sean Connor.
Brasil entra na estratégia de longo prazo da Blue Owl
O Brasil foi descrito pelos executivos como um mercado relevante para a expansão da gestora na América Latina. Mesmo em ano eleitoral e em meio à volatilidade, Connor afirmou que a decisão de atuar no país não está ligada a um ciclo político específico, mas a uma visão de longo prazo sobre tamanho da economia, sofisticação dos investidores e potencial de diversificação.
Felipe Manzo afirmou que os primeiros anos da atuação na região foram marcados por educação do mercado, construção de confiança e parcerias com instituições financeiras. A gestora também passou a adaptar estruturas para investidores locais, incluindo produtos com características mais próximas da realidade brasileira e presença física no país.
“O momento atual, com eleições e manchetes, pode parecer um pouco conturbado, mas estamos olhando 10, 15 anos à frente”, avaliou Felipe Manzo, em tradução livre.
Diversificação internacional segue como eixo de decisão
Na parte final da entrevista, Connor reforçou que a diversificação é um dos principais argumentos para investidores brasileiros alocarem parte do patrimônio fora do país. Para ele, os Estados Unidos seguem como o maior mercado investível do mundo, com características econômicas diferentes das observadas no Brasil, o que pode reduzir a dependência de um único ciclo político, cambial ou econômico.
A mensagem central deixada no Global Wallet é que mercados privados, private credit, infraestrutura digital e diversificação internacional devem ganhar espaço em carteiras que buscam renda, preservação de capital e exposição a tendências estruturais. Em um cenário de volatilidade global, a leitura dos executivos é que disciplina, horizonte longo e acesso a gestores especializados podem ser decisivos para capturar oportunidades sem depender apenas do mercado público.
“A única coisa gratuita que existe nos investimentos é a diversificação”, concluiu Sean Connor, em tradução livre.














