O diesel costuma aparecer no debate público quando o preço sobe. Mas o risco mais sensível para a economia brasileira vai além da bomba: está na possibilidade de interrupção do abastecimento. Em um país fortemente dependente das estradas para transportar alimentos, combustíveis, medicamentos, insumos industriais e produtos de consumo, qualquer restrição relevante na oferta pode se espalhar rapidamente pela cadeia econômica.
Em entrevista à BM&C News, Francisco Neves, diretor executivo da ANDC, afirmou que “o diesel é o combustível mais importante comercializado no país”.
Segundo ele, uma interrupção, ainda que parcial, teria impacto negativo relevante sobre a economia nacional.
Por que o diesel é tão decisivo para o Brasil?
O diesel é a base do transporte rodoviário, modal responsável por boa parte da circulação de mercadorias no país. Isso significa que o combustível está presente, direta ou indiretamente, em quase tudo que chega ao consumidor: alimentos, remédios, produtos industriais, combustíveis e insumos usados por empresas.
Na prática, uma crise no diesel não ficaria restrita aos postos. Ela poderia atingir toda a engrenagem da economia.
Os principais pontos de atenção são:
- transporte de cargas e distribuição de mercadorias;
- movimentação da safra agrícola;
- operação de máquinas no campo;
- abastecimento de alimentos;
- logística de medicamentos e insumos essenciais;
- custos para indústria, comércio e serviços;
- pressão sobre preços ao consumidor.
Segundo Neves, o diesel viabiliza a movimentação da maioria das mercadorias produzidas e consumidas no mercado nacional.
“Por isso, uma crise de abastecimento poderia impor restrições aos setores primário, secundário e terciário da economia”, analisa.
O problema não é só preço
A alta do diesel já costuma pressionar fretes, custos logísticos e inflação. Mas, na avaliação do diretor da ANDC, o desabastecimento é ainda mais grave porque combina dois efeitos: falta de produto e aumento de preços.
“Há uma correlação direta entre o risco de desabastecimento e o preço”, afirmou Francisco Neves.
Ou seja, quando a oferta fica restrita, o preço tende a subir. O impacto pode aparecer em sequência: primeiro no transporte, depois na produção, na distribuição e, por fim, no bolso do consumidor.
| Área afetada | Como o impacto aparece | Possível consequência |
|---|---|---|
| Transporte rodoviário | Menor circulação de caminhões e cargas | Atrasos na entrega de produtos |
| Agropecuária | Restrição a máquinas, colheita e transporte | Pressão sobre a safra e alimentos |
| Indústria | Dificuldade no recebimento de insumos | Risco de paralisações pontuais |
| Comércio | Problemas de reposição de estoque | Falta de produtos em algumas regiões |
| Consumidor | Alta de custos na cadeia | Pressão sobre preços finais |
| Serviços essenciais | Dependência de logística e abastecimento | Risco de restrições operacionais |
Em quanto tempo a falta de diesel chegaria ao consumidor?
Um dos pontos mais relevantes da entrevista é o prazo estimado para que uma interrupção no suprimento começasse a gerar efeitos no mercado interno.
Segundo Francisco Neves, uma restrição relevante no abastecimento poderia ser sentida em quatro ou cinco dias.
Esse prazo mostra a sensibilidade da logística brasileira. Como o país depende muito do transporte rodoviário, a margem de segurança é limitada quando há risco de ruptura na oferta do combustível.
Brasil importa parte do diesel que consome
A entrevista também chama atenção para outro ponto: o Brasil importa cerca de 30% do diesel consumido no mercado interno. Para Neves, essa dependência parcial não significa, por si só, uma vulnerabilidade automática.
“O risco maior, está em dois fatores: possíveis restrições ao comércio exterior do diesel e incertezas regulatórias no mercado doméstico”, analisa.
A decisão de importar depende de viabilidade econômica. Empresas avaliam preço internacional, câmbio, custo de entrada no país, regras vigentes e preço interno antes de trazer o produto. Quando o ambiente regulatório fica instável, a tomada de decisão tende a ficar mais difícil.
Estoques ajudam, mas têm limite
Na entrevista, Francisco Neves diferencia os estoques estratégicos, de natureza pública, dos estoques comerciais, mantidos pelos agentes do mercado com base em regras da ANP.
Segundo ele, o Brasil não teria, com base no histórico, razão para imobilizar recursos públicos na formação de estoques estratégicos.
Os estoques comerciais existentes têm funcionado e a flexibilização recente das regras ajudou a ampliar a oferta de produto no mercado interno.
Agro e alimentos seriam diretamente afetados
No campo, a falta de diesel teria efeito imediato sobre a operação. Máquinas agrícolas, transporte da safra, armazenamento e beneficiamento dependem do combustível.
Segundo Neves, uma interrupção no suprimento impactaria toda a atividade agropecuária brasileira e poderia levar à elevação dos preços dos alimentos.
Esse é um dos pontos mais sensíveis para a economia. Quando o diesel falta ou encarece, o impacto pode deixar de ser apenas logístico e chegar à inflação de alimentos.
Outros modais conseguiriam compensar?
Para o diretor da ANDC, não. Ferrovias, hidrovias e outros modais não teriam capacidade, na estrutura atual, para absorver a carga hoje movimentada pelas rodovias.
Esse ponto revela uma fragilidade antiga da economia brasileira: a baixa diversificação logística. Enquanto o transporte rodoviário seguir dominante, o diesel continuará sendo uma peça central para o funcionamento do país.
Diesel virou tema de segurança econômica
A discussão sobre diesel não envolve apenas combustíveis. Ela passa por abastecimento, inflação, produção agrícola, comércio exterior, logística e infraestrutura.
A entrevista de Francisco Neves mostra que uma eventual crise no suprimento poderia ter efeitos rápidos e espalhados por diferentes setores.
Em um país que transporta boa parte de sua economia sobre rodas, o diesel segue como um dos principais pontos de atenção para empresas, governo e consumidores.














