Pular para o conteúdo
Mercados
IBOV 188.268 +0.00% USD/BRL R$ 5,07 -0.42% EUR/BRL R$ 5,89 -0.49% BTC/BRL R$ 394.923 +0.83% PETR4 R$ 48,36 -1.55% VALE3 R$ 78,24 +0.01% WEGE3 R$ 52,44 +0.52% ITUB4 R$ 42,42 +0.17% BBDC4 R$ 18,50 +0.11% BBAS3 R$ 22,88 +0.35% BPAC11 R$ 61,02 +0.94% ABEV3 R$ 15,74 +0.00% CYRE3 R$ 25,94 -0.88%
Miguel Daoud

Banco Master: a falência que colocou as instituições no centro da crise

Eu acompanhei de perto a evolução do sistema financeiro brasileiro. Vivi o pregão físico, a informatização das bolsas, planos econômicos, hiperinflação, crises cambiais, moratórias, quebras de bancos, escândalos corporativos e choques globais. O mercado sempre conviveu com excessos, erros, ganância e correções dolorosas. Nada disso é novidade.

O que chama atenção no caso do Banco Master, recentemente analisado pela The Economist, é que não estamos diante de mais um episódio de imprudência financeira. Trata-se de algo qualitativamente diferente: uma crise que deixa o ambiente de mercado e passa a tocar diretamente a credibilidade das instituições que sustentam a República.

Bancos quebram. Sempre quebraram. Crescimentos artificiais, promessas de rentabilidade fora da curva e estruturas frágeis de ativos fazem parte do manual clássico das crises financeiras. Ao longo dos anos, vi esse filme se repetir inúmeras vezes.

O Banco Master seguiu esse roteiro até certo ponto. O enredo muda quando, em vez de o próprio mercado impor seus limites, surgem tentativas de blindagem política e institucional. Quando a matemática deixa de ser o fator decisivo e o poder entra em cena, o problema deixa de ser apenas financeiro.

Mercados erram. Instituições não podem errar por conveniência.

É justamente aqui que essa crise se torna singular. Historicamente, fraudes financeiras terminam nos balanços, nos tribunais ou nas páginas policiais. Raramente avançam sobre a estrutura dos Poderes do Estado. No caso do Banco Master, o noticiário passou a revelar uma teia de relações envolvendo figuras do Judiciário, do Legislativo e do Executivo.

Independentemente do desfecho jurídico, o simples fato de essas conexões existirem, e serem publicamente debatidas, já produz um dano relevante. Não é necessário provar conluio para que a dúvida se instale. E a dúvida, no mundo institucional, corrói.

A ganância sempre foi parte do mercado. Em doses controladas, ela move investimentos. Fora de controle, destrói valor. O que preocupa neste episódio é quando a ganância privada passa a operar sob a percepção de que as regras podem ser relativizadas por influência.

Quando isso acontece, o prejuízo deixa de ser individual. Ele passa a ser institucional. O sistema financeiro perde credibilidade. Autoridades reguladoras são questionadas. O Judiciário entra no radar da suspeita. E o cidadão comum passa a duvidar da imparcialidade do jogo.

A crise deixa de ser do banco e passa a ser do sistema.

Depois de tantos ciclos vividos, posso afirmar com convicção: esta não é uma crise comum. Não é apenas sobre má gestão, fraude contábil ou risco excessivo. É uma crise que expõe o ponto mais sensível de qualquer democracia, a confiança na separação, na independência e na integridade dos Poderes.

Quando um banco quebra e arrasta consigo suspeitas sobre relações institucionais, o dano é muito mais profundo do que qualquer rombo financeiro. Ele atinge o coração do contrato social: a crença de que as regras valem para todos, independentemente do tamanho do patrimônio ou da proximidade com o poder.

O colapso do Banco Master deixa uma lição dura. Fraudes financeiras podem ser absorvidas pelo mercado com o tempo. Crises institucionais, não. Elas exigem transparência, investigação rigorosa e respostas claras do Estado.

Não se trata de demonizar o sistema financeiro nem de generalizar comportamentos. Trata-se de preservar aquilo que sustenta tudo: credibilidade, previsibilidade e confiança. A história mostra que os mercados se recuperam. Democracias fragilizadas, nem sempre.

Quando um banco quebra sozinho, o mercado aprende. Quando a quebra envolve o poder, quem aprende é a sociedade inteiraquase sempre da forma mais dolorosa.

As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

FACHADA DO BANCO MASTER
Foto: Reprodução