Existe uma pergunta que me acompanha há muitos anos e que volta toda vez que viajo, converso com empresários estrangeiros ou observo como outras economias evoluíram nas últimas décadas. Por que um país com tantos ativos ainda entrega um nível de prosperidade muito inferior ao potencial que carrega?
O Brasil é, objetivamente, um país extraordinário. Poucos reúnem uma combinação tão ampla de vantagens competitivas: território continental, abundância de água, riqueza mineral, capacidade agrícola, uma matriz energética relativamente limpa, um mercado consumidor de mais de 200 milhões de habitantes, um sistema financeiro sofisticado e uma economia que, apesar de todas as dificuldades, permanece entre as dez maiores do planeta. Não lhe faltam recursos. Não lhe falta escala. Tampouco lhe faltam oportunidades. Por isso, talvez o fato de ser hoje a oitava, nona ou décima economia do mundo já não devesse ser tratado como uma conquista excepcional.
As explicações tradicionais são conhecidas e corretas. Educação, infraestrutura, produtividade, segurança jurídica, burocracia, sistema tributário. Tudo isso pesa e continuará pesando. Mas talvez exista uma variável menos discutida: a forma como o Brasil enxerga a si mesmo.
Durante décadas, acostumamo-nos a celebrar o potencial. O problema é que potencial não produz riqueza. Produz expectativa. Riqueza nasce quando o potencial encontra disciplina, planejamento, instituições eficientes e uma cultura de cobrança permanente por resultados.
Talvez tenha chegado o momento de o Brasil deixar de pensar como uma potência regional e começar a agir como uma potência global. Não se trata de negar sua identidade latino-americana, mas de mudar sua referência. Enquanto um país mede seu desempenho comparando-se apenas aos vizinhos, seu horizonte permanece limitado. Quando passa a comparar-se com aqueles que lideram o mundo, muda também o nível de exigência que impõe a si próprio.
Um exemplo interessante é a Coreia do Sul. Na década de 1960, sua renda per capita era inferior à brasileira. Não possuía a abundância de recursos naturais do Brasil, tinha um mercado interno pequeno, dependia de importações para boa parte das matérias-primas e convivia com a ameaça permanente de um conflito militar. Ainda assim, decidiu estabelecer para si um padrão de exigência compatível com suas ambições. Investiu pesadamente em educação, tecnologia, indústria e produtividade. O resultado está diante de todos: hoje abriga algumas das empresas mais inovadoras do mundo e alcançou um nível de desenvolvimento que parecia improvável poucas décadas atrás.
A Coreia do Sul não ficou rica porque tinha mais vantagens que o Brasil. Ficou rica porque decidiu extrair o máximo das poucas vantagens que possuía. Essa talvez seja a principal diferença.
O Brasil, por vezes, parece acreditar que suas vantagens naturais acabarão compensando suas deficiências institucionais. É uma expectativa confortável, mas historicamente equivocada. Recursos naturais explicam oportunidades. Prosperidade depende da qualidade das decisões.
Há também um aspecto cultural que merece reflexão. Existe entre nós uma certa tolerância com o “quase”. A obra quase termina. A reforma quase acontece. A simplificação tributária quase sai. O planejamento dura até a próxima eleição. A produtividade melhora um pouco, a educação avança um pouco, a infraestrutura evolui um pouco.
No curto prazo, essas pequenas concessões parecem irrelevantes. Somadas durante décadas, transformam-se em anos de crescimento perdidos. Curiosamente, quando brasileiros trabalham em empresas globais ou vivem em países altamente organizados, costumam demonstrar exatamente o mesmo nível de competência, criatividade e capacidade de execução observado em qualquer economia desenvolvida. Isso sugere que talvez o problema nunca tenha sido falta de talento. O desafio está muito mais na qualidade do ambiente institucional e, sobretudo, no grau de exigência que aceitamos como sociedade.
Durante décadas repetimos que o Brasil era “o país do futuro”. Talvez essa seja uma das frases mais prejudiciais da nossa história. O futuro tornou-se uma espécie de lugar confortável para onde sempre adiamos aquilo que deveria começar no presente.
As grandes potências não vivem esperando o futuro. Elas o constroem diariamente, por meio de instituições sólidas, previsibilidade, investimento e uma cobrança constante por desempenho.
O cenário internacional oferece hoje uma oportunidade rara. Em um mundo preocupado com segurança alimentar, transição energética, minerais estratégicos e reorganização das cadeias globais de produção, poucos países estão tão bem posicionados quanto o Brasil. Mas oportunidades não se transformam automaticamente em prosperidade. Talvez a mudança mais importante que o Brasil precise fazer não seja econômica, tecnológica ou mesmo política, mas psicológica.
O dia em que este país deixar de se encantar apenas com seu potencial e começar a cobrar de si mesmo resultados compatíveis com sua dimensão, deixará de perguntar quando finalmente se tornará uma potência. Passará simplesmente a comportar-se como uma.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group
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