O cheiro de maconha continua no ar, mas parece que o hype dos primeiros anos de “liberou geral” passou. Nova York continua mostrando a riqueza de sempre, especialmente em Midtown e no Upper East Side, onde old money e novos ricos se encontram nos restaurantes estrelados e na Begdorf Goodman.
O novo prefeito, Zohran Mamdani, no entanto, declarou recentemente que a cidade está quebrada. E, como bom socialista, não propôs cortes significativos de despesas para combater o rombo bilionário. Em vez disso (nenhuma surpresa), priorizou aumentos de impostos sobre os mais ricos, empresas e propriedades de luxo, além de uso de reservas municipais.
Ele decretou a taxação de imóveis avaliados acima de US$ 5 milhões e usados como segundas residências. Além disso, quer elevar alíquotas para empresas e taxar a renda de milionários. Caso essa sobretaxa não seja aprovada, vai aumentar o IPTU em até 10% como “medida drástica”.
O imposto sobre segundas residências de luxo provocou uma reação imediata no mercado imobiliário de alto padrão em Nova York. Segundo a a empresa de avaliação imobiliária Miller Samuel, as vendas de propriedades acima de US$ 5 milhões em Manhattan caíram 25% no mês passado. Incorporadoras suspenderam projetos no Upper East Side e em Hudson Yards diante da combinação de incerteza regulatória e disputas judiciais que irão surgir no front.
Mamdani é mais um prefeito com perfil à esquerda a mandar na cidade mais rica do mundo. Nova York segue uma tradição de décadas: desde 1900, Nova York elegeu 18 prefeitos democratas, 4 republicanos e 1 independente até 2026 (lembremos que oito alcaides, neste período, tiveram dois ou três mandatos). Curiosamente, um dos mais emblemáticos prefeitos locais foi o republicano Fiorello La Guardia, que dá o nome ao aeroporto nova-iorquino de voos domésticos.
Por que o eleitorado de Nova York é predominantemente democrata? Há várias teorias para isso. Os políticos de esquerda afirmam que a desigualdade social causa este fenômeno, pois os pobres enxergam sinais de riqueza o tempo todo. Outros, porém, afirmam que isso ocorre por conta do perfil populacional que conta, há muito, com muitos imigrantes na zona de pobreza. Hoje, por exemplo, 37% dos habitantes da cidade nasceram fora dos Estados Unidos – e, segundo o Censo americano de 2020, o idioma inglês é falado com exclusividade em apenas 51,7% dos lares nova-iorquinos. Em seguida, vem o espanhol, utilizado em 22,5% das residências.
A força eleitoral democrata também se explica pela própria estrutura urbana de Nova York. A cidade concentra universidades, centros culturais, sindicatos influentes e uma população jovem altamente escolarizada, fatores que historicamente favorecem candidatos alinhados a pautas progressistas. A presença de grandes corporações do setor financeiro e tecnológico cria um ambiente em que debates sobre regulação, impostos e políticas sociais ganham peso, alimentando uma dinâmica política distinta daquela observada em áreas suburbanas ou rurais dos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, a convivência entre um governo de esquerda e um dos maiores centros do capitalismo global produz tensões recorrentes. Empresários temem que aumentos de impostos reduzam a competitividade da cidade, enquanto movimentos sociais pressionam por mais investimentos em moradia, transporte e serviços públicos. Essa disputa permanente molda o cotidiano político nova-iorquino e reforça a imagem de uma metrópole que tenta equilibrar interesses divergentes sem perder sua vitalidade econômica.
Aqueles que vieram à Brazil Week para essa semana repleta de eventos e reuniões não percebem claramente essa tensão. Mas conseguem captar a vibração e a energia que correm soltas pela cidade, que exala empreendedorismo e opulência. E sempre nos brinda com grandes exemplos de inovação e novos negócios.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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