No Leaders Connection, apresentado por Isaelson Oliveira, Ana Paula D’Avila, CEO da Maxipark Estacionamentos, e Adriana Ricci, fundadora da SHS Investimentos, discutiram os desafios de liderar empresas em ambientes nos quais a previsibilidade é limitada. A conversa aproximou dois setores diferentes, mobilidade urbana e mercado financeiro, a partir de um ponto comum: a necessidade de tomar decisões sob pressão, sustentar operações complexas e construir confiança em contextos de risco.
No caso da mobilidade urbana, Ana Paula explicou que os estacionamentos deixaram de ser apenas um serviço de apoio e passaram a integrar a dinâmica das cidades. Com o crescimento da frota, as limitações do transporte público e a expansão de grandes empreendimentos residenciais e comerciais, a operação de estacionamento passou a ter impacto direto sobre o fluxo urbano e a experiência dos usuários.
“Se o estacionamento não funcionar, a cidade trava”, afirma Ana Paula D’Avila.
Tecnologia redefine negócios tradicionais
A transformação dos estacionamentos em empresas de mobilidade baseadas em tecnologia mostra como setores tradicionais passaram a incorporar dados, automação e integração digital. Reserva antecipada de vaga, leitura de placa, pagamento sem contato e processos de entrada e saída mais fluidos passaram a compor uma jornada menos dependente de intervenção manual.
No mercado financeiro, Adriana relacionou sua decisão de empreender à busca por um modelo mais alinhado ao propósito de cuidar de patrimônio, planejamento e educação financeira. Segundo ela, permanecer em uma estrutura que limitava sua atuação passou a representar um risco maior do que construir uma empresa própria, especialmente diante do impacto que decisões financeiras têm sobre famílias, empresas e legados.
“Nós não cuidamos apenas de números, nós cuidamos de vidas, de famílias, de patrimônios”, destaca Adriana Ricci.
O limite entre automação e experiência humana
Apesar do avanço da tecnologia, Ana Paula avaliou que o ganho competitivo não está apenas na digitalização dos processos, mas na inteligência de gestão que ela permite. Para a executiva, a tecnologia contribui para decisões estratégicas e para a longevidade das companhias, mas o atendimento continua sendo determinante na ponta, sobretudo em operações sensíveis, como estacionamentos ligados a hospitais e serviços de saúde.
A lógica também aparece no mercado financeiro. Adriana afirmou que a humanização é um valor central na SHS Investimentos, tanto no relacionamento com clientes quanto na gestão do time. Em um setor marcado por pressão, volatilidade e excesso de informações, ela defendeu que equilíbrio emocional, escuta e acolhimento são diferenciais para sustentar relações de longo prazo.
“O fator humano se torna imprescindível”, observa Adriana Ricci.
Crescimento exige cultura, base e processo
A conversa também abordou os riscos de confundir expansão com crescimento saudável. Ana Paula afirmou que, antes de acelerar, uma empresa precisa preparar sua base, reforçar processos e garantir que o time consiga absorver a nova demanda. Sem essa estrutura, o crescimento pode comprometer a qualidade da operação e transformar uma empresa rentável em uma organização desordenada.
Para a CEO da Maxipark, a cultura empresarial também aparece na capacidade de resposta. Em operações de grande volume, erros podem ocorrer, mas precisam ser corrigidos rapidamente e convertidos em aprendizado. Essa agilidade, segundo ela, ajuda a preservar a confiança do cliente e evita que falhas pontuais se transformem em problemas estruturais.
“A gente precisa crescer sustentável e baseado em cultura para que isso não se perca”, pontua Ana Paula D’Avila.
Retenção de clientes como sinal de empresa saudável
No mercado financeiro, Adriana apontou que uma empresa cresce de forma saudável quando consegue manter consistência, preservar sua carteira e transformar clientes em propagadores da marca. Em um ambiente de concorrência crescente, a permanência do cliente passa a ser um indicador de confiança, vínculo e qualidade da entrega.
A fundadora da SHS Investimentos também alertou para sinais de crescimento desordenado, como alta rotatividade de clientes, mudanças constantes de posicionamento e perda de clareza sobre a proposta de valor. Para ela, empresas que tentam aproveitar todas as oportunidades ao mesmo tempo correm o risco de se desconectar da própria identidade.
“Hoje, o nosso maior marketing é o nosso cliente”, ressalta Adriana Ricci.
Cidades inteligentes e gestão integrada dos fluxos
Ao tratar do futuro das cidades, Ana Paula afirmou que muitos gestores ainda erram ao olhar apenas para o resultado financeiro, sem considerar como a operação funciona de forma integrada. Na visão dela, reduzir investimento ou estrutura apenas para gerar fluxo pode produzir ganhos de curto prazo, mas aumenta o risco de falhas operacionais.
A executiva defendeu que estacionamentos precisam fazer parte do debate sobre cidades inteligentes, especialmente diante do crescimento dos carros por aplicativo, da necessidade de integração entre modais e da busca por maior fluidez urbana. Nesse contexto, mobilidade não depende apenas de grandes obras, mas também de gestão inteligente de espaços, fluxos e conveniência.
“Você precisa olhar como ela funciona como um todo e o resultado é consequência de uma boa gestão”, avalia Ana Paula D’Avila.
Liderança feminina, cultura e complementaridade
A liderança feminina também foi tema do programa. Adriana afirmou que o mercado financeiro ainda é majoritariamente masculino, embora tenha avançado em relação ao passado. Para ela, a presença de mulheres em ambientes de alta performance amplia a visão sobre relacionamento, cuidado, escuta e construção de confiança.
Ana Paula avaliou que o momento atual é mais favorável para mulheres em posições de liderança porque temas como vulnerabilidade, colaboração e escuta ganharam espaço na gestão. A executiva defendeu que homens e mulheres se complementam dentro das organizações e que o avanço ocorre quando competências são reconhecidas sem que a liderança feminina seja interpretada como enfrentamento.
“Cada vez mais o mercado tá olhando para competências, independente de ser homem ou mulher”, reforça Ana Paula D’Avila.
Mitos da gestão e convivência no trabalho
No quadro “Mito ou Verdade”, as executivas discutiram frases recorrentes do mundo corporativo. Sobre a ideia de que o cliente sempre tem razão, ambas classificaram a afirmação como mito, mas defenderam que o cliente precisa ser ouvido. A escuta, nesse caso, deve vir antes da decisão, sem eliminar critérios, limites e o cuidado com o cliente interno.
O home office também foi tratado como um desafio para a cultura organizacional. Adriana afirmou que cultura é construída no dia a dia, nas interações informais, nos momentos de pressão e na convivência entre equipes. Para ela, modelos totalmente remotos podem enfraquecer vínculos e reduzir a percepção sobre comportamentos que sustentam a identidade da empresa.
“O cliente nem sempre tem razão, mas nós temos dois ouvidos”, conclui Adriana Ricci.














