A proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros passou a ser analisada por especialistas como um risco que vai além do comércio exterior. Embora a medida ainda não esteja em vigor e tenha uma lista ampla de exceções, a avaliação é que o episódio pode afetar câmbio, fluxo de capitais, planejamento tributário das empresas e percepção de risco sobre o Brasil.
A medida foi formalizada pelo USTR, o escritório do representante comercial dos Estados Unidos, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O processo ainda prevê audiência pública em 6 de julho e decisão final até 15 de julho.
Até lá, o cenário permanece aberto para negociação, acordo parcial ou eventual ampliação da lista de isenções.
Por que a tarifa preocupa o mercado?
Para analistas, o principal efeito da proposta não está apenas na cobrança da tarifa em si, mas no sinal de tensão institucional e comercial entre Brasil e Estados Unidos. Esse tipo de ruído pode afetar a percepção de risco do investidor estrangeiro, pressionar o câmbio e elevar o prêmio exigido para investir em ativos brasileiros.
Fábio Murad, sócio e fundador da Ipê Avaliações, avalia que a proposta deve ser lida como risco macroeconômico real. Segundo ele, mesmo com exceções relevantes, o mercado tende a reagir ao sinal de tensão entre os dois países porque isso afeta percepção de risco, fluxo estrangeiro, câmbio e prêmio exigido para investir no Brasil.
A leitura é semelhante à de André Matos, CEO da MA7 Negócios. Para ele, a tarifa não deve ser tratada como simples ruído político, mas também não justifica pânico.
O ponto central, segundo a análise, é dimensionar o impacto e acompanhar a negociação até julho.
Impacto direto pode ser limitado pelas exceções
Apesar da tarifa proposta de 25%, especialistas destacam que o desenho inicial da medida reduz parte do impacto agregado sobre a economia brasileira. A lista de isenções tem 73 páginas e exclui produtos considerados estratégicos ou relevantes para o abastecimento americano.
Entre os itens citados como fora do alcance da tarifa estão aeronaves civis, medicamentos, fertilizantes, terras raras, suco de laranja, café, petróleo e derivados, além de outros produtos ligados ao agronegócio e à indústria. Na avaliação de André Matos, boa parte do que o Brasil exporta para os Estados Unidos, especialmente no agronegócio e na indústria aeronáutica, está protegida nesse desenho inicial.
Volnei Eyng, CEO da Multiplike, também chama atenção para esse ponto. Segundo ele, os próprios Estados Unidos isentaram da tarifa produtos dos quais dependem para abastecer seu mercado interno, como alimentos tropicais, aeronaves e fertilizantes.
Para o executivo, isso mostra que a medida tem limites práticos e que ainda há espaço para negociação.
Empresas podem enfrentar pressão sobre preços, contratos e caixa
Do lado empresarial, a principal preocupação envolve o planejamento de companhias exportadoras ou integradas a cadeias internacionais. A tarifa pode obrigar empresas a rever preços, contratos, margens, créditos tributários e fluxo de caixa, especialmente em um ambiente já marcado pela transição da reforma tributária.
Mary Elbe Queiroz, advogada tributarista e presidente do Cenapret, afirma que a tarifa americana pode transformar um risco comercial em um problema de planejamento tributário, financeiro e regulatório.
Para ela, setores afetados tendem a pressionar o governo por compensações, incentivos ou regimes emergenciais para preservar competitividade.
A advogada alerta que uma resposta fiscal improvisada pode gerar novas distorções, elevar a litigiosidade e reduzir previsibilidade. Na avaliação dela, o Brasil precisa tratar a tensão com os Estados Unidos com cautela técnica, sem ampliar a instabilidade normativa para empresas que produzem, exportam e investem.
O risco para o investidor estrangeiro
A proposta também amplia o debate sobre o comportamento do capital estrangeiro no Brasil. Para os especialistas, o impacto sobre o investidor não ocorre de forma direta pela tarifa, mas pela deterioração da percepção de risco.
André Matos avalia que o capital externo é sensível ao prêmio de risco país e à percepção de deterioração da relação bilateral. Segundo ele, em um ambiente já marcado por ruído eleitoral, dívida bruta em 80,1% do PIB e Selic em 14,50%, qualquer tensão adicional pode desacelerar o fluxo de R$ 67 bilhões que entrou na B3 em 2026.
Cassio Viana de Jesus, diretor de Investimentos e Novos Negócios da Pilar Capital, afirma que o investidor de portfólio tende a reagir rapidamente a risco institucional e imprevisibilidade regulatória. Esse movimento pode reduzir exposição a ativos brasileiros, pressionar o dólar e abrir a curva de juros.
Apesar disso, Cassio avalia que o efeito sobre o investimento estrutural tende a ser menor, ao menos em um primeiro momento. Para ele, parte relevante do Ibovespa é menos exposta diretamente ao choque, por incluir empresas de commodities precificadas globalmente e bancos com negócios domésticos.
Tarifa pode afetar inflação no Brasil?
Um ponto destacado nas análises é que a tarifa não impacta diretamente o IPCA. Como a cobrança recairia sobre o importador americano, o efeito mais imediato tende a aparecer no consumidor dos Estados Unidos.
Para o Brasil, o canal inflacionário seria indireto, principalmente via câmbio. Se a tensão comercial pressionar o real de forma persistente, produtos importados podem ficar mais caros, o que poderia dificultar o ciclo de juros no Brasil.
Cassio Viana resume que o tema passa a virar risco macroeconômico quando afeta de forma duradoura três canais: balança comercial e conta corrente, câmbio e inflação, além de fluxo de capitais e prêmio de risco.
Cenário pede atenção, mas não paralisia
Apesar dos riscos, a avaliação predominante entre os especialistas é que o cenário ainda é administrável enquanto a proposta estiver em fase de negociação, com exceções relevantes e prazo definido para decisão.
Volnei Eyng afirma que o empresário precisa acompanhar o processo, entender onde sua operação está exposta e aguardar julho. Para ele, o cenário exige atenção, mas não paralisia.
Na mesma linha, Fábio Murad defende que o investidor deve evitar decisões emocionais baseadas no ruído de curto prazo. A tensão pode reduzir o apetite no curto prazo, mas também reforça a importância de diversificação, análise setorial e visão de longo prazo.
O consenso das análises é que a tarifa não deve ser ignorada, mas também não configura, neste momento, um choque macroeconômico pleno. O risco maior está na persistência da tensão, na possibilidade de escalada e na transmissão para câmbio, juros, fluxo de capitais e decisões de investimento.













