O Irã vive uma das mais graves ondas de instabilidade interna das últimas décadas. Segundo a organização Human Rights Activists (HRANA), ao menos 2.003 pessoas morreram desde o início dos protestos antigoverno no país. Do total, cerca de 1.850 eram manifestantes, além de integrantes das forças ligadas ao governo, civis e menores de idade. O grupo também estima que mais de 16,7 mil pessoas foram presas.
A dimensão real da repressão ainda é incerta. As autoridades iranianas cortaram o acesso à internet e às linhas telefônicas em diversos momentos, isolando o país do exterior e dificultando a verificação independente das informações.
Os protestos começaram no final de dezembro, inicialmente motivados pela inflação elevada e pelo aumento abrupto de preços de alimentos básicos, como frango e óleo de cozinha. A insatisfação se espalhou rapidamente pelos bazares de Teerã e ganhou caráter nacional, evoluindo para manifestações mais amplas contra o regime.
A crise econômica foi agravada pela decisão do banco central iraniano de encerrar um programa que permitia a importadores acessar dólares a uma taxa subsidiada. O movimento provocou alta imediata nos preços, fechamento de lojas e reforçou a insatisfação popular, inclusive entre os bazaaris.
Crise de legitimidade e colapso institucional no Irã
Para o economista VanDyck Silveira, o Irã atravessa um momento de ruptura profunda, que vai além de uma crise econômica pontual. Segundo ele, o regime islâmico, no poder desde a Revolução de 1979, enfrenta uma perda irreversível de legitimidade.
“Nós estamos falando de um regime opressor, uma teocracia extremamente rígida, que já dura mais de 45 anos. O que vemos agora é a população deixando de acreditar que o regime funciona”, detalha.
Silveira destaca relatos de repressão extrema, incluindo execuções, corpos deixados nas ruas e pressão sobre famílias para que aceitem versões oficiais sobre as mortes.
“Existem relatos de cerca de 2.000 pessoas assassinadas pelo regime. Há corpos espalhados por Teerã e o governo tem coagido famílias a aceitarem versões falsas para poderem recuperar os corpos.”
Na avaliação do economista, mesmo que o regime siga formalmente operando, ele já perdeu o controle político e social sobre a população.
“O regime continua funcionando, mas sem qualquer poder real sobre a sociedade. É uma questão de tempo até que ele caia definitivamente.”
Risco de intervenção militar e impacto geopolítico
A fragilidade institucional do Irã elevou o risco de uma ação militar externa, especialmente por parte dos Estados Unidos e de Israel. O governo iraniano já sinalizou que reagirá em caso de intervenção, enquanto Washington avalia os desdobramentos da repressão violenta.
Para Silveira, o cenário atual cria uma janela estratégica para uma ação coordenada.
“Existe uma grande probabilidade de uma ação militar conjunta de Israel e dos Estados Unidos, aproveitando essa fraqueza institucional irreversível do Irã.”
Segundo ele, além da instabilidade interna, pesa no cálculo geopolítico o risco de avanço do programa nuclear iraniano.
“Colocar um fim à ditadura islâmica do Irã teria dividendos relevantes para a paz regional e impediria qualquer tentativa de desenvolvimento de armas nucleares.”
Na leitura do economista, uma intervenção direta poderia acelerar a queda de um regime já fragilizado internamente.
“Do ponto de vista do interesse nacional dos EUA e de Israel, ajudar a concluir esse processo estaria totalmente alinhado com seus objetivos estratégicos.”
Por que o Irã voltou ao radar global
O agravamento da crise iraniana adiciona mais uma frente relevante ao já complexo cenário geopolítico global, que envolve disputas no Oriente Médio, tensões energéticas e riscos sobre a oferta de petróleo.
Para os mercados, o desdobramento da crise no Irã pode ter impactos diretos sobre preços de commodities, percepção de risco global e fluxos financeiros, especialmente se houver escalada militar.
Enquanto isso, o país permanece sob forte repressão, com uma população cada vez mais distante do regime e um ambiente institucional que, segundo analistas, caminha para um ponto de ruptura.













