Distrito de Guaraqueçaba, no litoral norte do Paraná, Ararapira já foi uma das vilas mais movimentadas de todo o trajeto entre São Paulo e Curitiba, até que o mar começou a levar tudo embora. Hoje, restam apenas as ruínas, uma igreja que data do século XVIII e o silêncio profundo da Mata Atlântica.
De movimentado entreposto colonial a vila fantasma no espaço de um século
São José do Ararapira foi uma das 21 vilas fundadas pela coroa portuguesa na Capitania de São Paulo ao longo do século XVIII, tendo sido elevada à condição de freguesia em 1776. Sua posição era bastante estratégica: a vila ficava bem no meio do caminho marítimo que ligava as baías de Cananéia e Paranaguá, servindo como ponto de parada quase obrigatório para viajantes, comerciantes e tropeiros que faziam a conexão entre São Paulo e Curitiba pela costa. A presença europeia na região, no entanto, é ainda mais antiga. O aventureiro alemão Hans Staden já havia registrado, em 1547, sua entrada na barra do Superagui durante uma forte tempestade, descrevendo o encontro com portugueses que já estavam por ali estabelecidos. Antes mesmo da expulsão dos jesuítas, a ordem religiosa fundou um estabelecimento de caráter agrícola no istmo do Superagui, local que é mencionado nas cartas de Anchieta como Supraya, um dos caminhos que levavam ao Paraguai.

Em seu período de maior prosperidade, que vai das décadas de 1930 a 1950, Ararapira chegou a abrigar cerca de 500 famílias. A vila contava com grandes armazéns que chegavam a vender tecidos vindos da Inglaterra, além de padarias, uma agência dos correios, cartório, uma delegacia que tinha até cela própria e um motor movido a diesel que era o responsável por fornecer energia elétrica para todos. Ao som das violas e das sanfonas, a comunidade inteira se reunia na praça central para dançar o tradicional fandango. As festas em homenagem ao padroeiro São José, celebradas todo dia 19 de março, eram consideradas as mais concorridas de todo o litoral que se estende entre os dois estados.

Os três duros golpes que esvaziaram a vila: o canal, a lei e o mar
O primeiro desses golpes foi de natureza política. No ano de 1920, uma lei de âmbito federal alterou os limites da divisa entre os estados de São Paulo e do Paraná, transferindo Ararapira do município de Cananéia (SP) para Guaraqueçaba (PR). Os moradores, que eram paulistas de nascimento, se revoltaram com a mudança. A maior parte deles decidiu abandonar a vila e acabou fundando o povoado de Ariri, que ficava do lado paulista, levando consigo uma boa parcela da vida econômica e social que até então sustentava o lugar.
O segundo golpe veio da geografia. Durante a década de 1950, a abertura do Canal do Varadouro acabou por transformar o istmo do Superagui em uma ilha artificial, o que alterou de forma significativa o regime das marés na região. As correntes marítimas começaram a corroer a planície costeira com uma velocidade cada vez maior. De acordo com relatos de antigos moradores, a força da erosão já foi responsável por levar embora mais de 70 metros de terra firme e por derrubar mais de vinte construções de valor histórico. Armazéns que antes abasteciam toda a região simplesmente desapareceram de um dia para o outro no fundo do canal lagunar. Ao mesmo tempo, as novas estradas que iam sendo abertas pelo interior do continente passaram a absorver todo o fluxo de tráfego entre os dois estados, e a vila foi perdendo a sua principal razão de existir como ponto de parada e entreposto comercial.
O terceiro golpe foi ambiental. Na década de 1990, a criação do Parque Nacional do Superagui proibiu plantações e inviabilizou a permanência de quem ainda resistia. Em 1999, a UNESCO declarou a região Patrimônio Natural da Humanidade. Em 2000, a última moradora fixa faleceu durante uma viagem de barco rumo a Paranaguá, e Ararapira ficou oficialmente desabitada.
Quem busca mistérios em lugares abandonados, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Marcel Jurado – FPV BACANA, que conta com mais de 1.400 mil visualizações, onde Marcel explora a cidade fantasma de Ararapira sumindo no mar:
O que o tempo não levou: ruínas entre a mata e o canal
Chegar de barco a Ararapira é, antes de mais nada, avistar uma encosta que está inteiramente coberta por tijolos desmoronados, como se a vila tivesse sido cortada ao meio por uma lâmina afiada. Tudo aquilo que conseguiu sobreviver à força da erosão acabou sendo engolido pela Mata Atlântica, e o resultado final é um cenário que mais parece ter saído de um filme em que a natureza saiu vencedora.
- Igreja de São José (século XVIII): permanece de pé com as portas abertas. Um dos dois sinos de bronze originais ainda pode ser badalado; o outro desapareceu. A imagem de São José que datava da fundação foi roubada no início dos anos 2000 e substituída por outra, colocada em uma pequena capela de madeira dentro da nave. A luz filtrada pelas árvores que cresceram ao redor cria uma penumbra que reforça a sensação de tempo suspenso.
- Cemitério: parcialmente tomado pela vegetação, ainda é utilizado pelas comunidades caiçaras vizinhas. Túmulos antigos dividem espaço com raízes que avançam entre as lápides. O local foi alvo de vandalismo e violação de sepulturas, o que mobilizou pedidos de proteção por parte de descendentes.
- Encosta erodida: o ponto mais impactante é a beira do Canal do Ararapira, onde a planície simplesmente acaba em um barranco de tijolos, pedras e raízes expostas. É possível ver os alicerces das construções que o mar levou. Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná monitoram o avanço, que pode provocar o rompimento total da restinga no Estreito do Melão e formar uma nova ilha até a década de 2030.
- Antiga delegacia e trilhas: os caminhos da vila se transformaram em trilhas que cruzam casas em ruínas invadidas pela mata, os restos da delegacia e galpões comerciais. Latas enferrujadas, garrafas e pedaços de cerâmica surgem entre folhas no chão, como uma arqueologia acidental.
- Vila Americana e casas remanescentes: algumas moradias mais recentes ainda são visitadas ocasionalmente por proprietários e dispõem de geradores. Um único morador informal, contratado pelos donos das casas, cuida das trilhas e tenta inibir a ação de saqueadores.

A terra que não para de se mover debaixo dos pés
A força da erosão que foi a responsável por esvaziar Ararapira não deu nenhum sinal de que tenha parado. O Canal do Ararapira, esse braço de mar que faz a separação entre os estados do Paraná e de São Paulo, funciona como um rio de traçado bastante sinuoso que corrói uma de suas margens com uma intensidade cada vez maior a cada novo ciclo de marés. No trecho que é conhecido como Estreito do Melão, a estreita faixa de restinga que separa o oceano aberto do canal já encolheu de 100 metros para apenas cerca de 20 metros. De acordo com o geólogo Rodolfo José Angulo, que é professor da UFPR, o rompimento completo dessa barreira é dado como algo inevitável e deve ocorrer em algum momento entre os anos de 2032 e 2034.
Quando esse rompimento de fato acontecer, um trecho de aproximadamente 6 quilômetros ao sul do estreito ficará completamente cercado por água, formando assim uma nova ilha a partir do que é hoje a Ilha do Cardoso. A expectativa é que a barra que existe atualmente venha a se fechar por conta do acúmulo de sedimentos, alterando de forma significativa as rotas de navegação e afetando diretamente os manguezais, a atividade da pesca artesanal e pelo menos seis comunidades caiçaras tradicionais que vivem na região. Em 2018, um episódio de características bem semelhantes já havia ocorrido na Enseada da Baleia, quando uma forte ressaca abriu uma nova passagem para o mar e forçou a realocação de diversas famílias. A Justiça já deu um prazo de 45 dias para que o governo apresente as providências que serão tomadas em relação a esse novo e iminente avanço do mar.

Uma vila que só desperta de seu silêncio uma vez por ano
Todos os anos, no dia 19 de março, os antigos moradores e seus descendentes retornam de barco a Ararapira para celebrar a tradicional Festa de São José. Eles começam a chegar com mais ou menos uma semana de antecedência: pintam as fachadas das casas, limpam as trilhas, fazem os pequenos reparos necessários na igreja e deixam tudo preparado para a grande celebração. Nos anos de maior movimento, a festa já chegou a reunir cerca de 300 pessoas em uma vila onde já não mora mais ninguém. É o único momento em que Ararapira consegue lembrar, ainda que por um breve instante, daquilo que um dia já foi: música, comida farta e vozes que ecoam pelas mesmas paredes que, durante o resto do ano, ouvem apenas o som do vento e o estalido da mata que não para de crescer.

