No extremo oeste de Santa Catarina, uma calçada ao ar livre coloca quem caminha com um pé no Brasil e outro na Argentina, sem posto aduaneiro no caminho. O Parque Turístico Ambiental de Integração (PTAI) cobre cerca de 50 mil metros quadrados divididos entre três cidades que formam uma das fronteiras secas mais simbólicas da América do Sul.
Por que uma calçada separa duas economias inteiras?
Porque a linha que divide Dionísio Cerqueira (SC), Barracão (PR) e Bernardo de Irigoyen (Misiones, Argentina) não passa por rio, ponte ou montanha. Ela passa literalmente pelo asfalto urbano, cortando quarteirões, praças e ruas compartilhadas. Segundo dados reunidos pelo NSC Total, a fronteira Brasil-Argentina tem 1.200 km de extensão, mas apenas cerca de 25 km são fronteira seca, ou seja, sem barreira natural. Boa parte dessa faixa está ali.
A peculiaridade é tão marcante que os três municípios foram oficialmente reconhecidos pelo Ministério da Integração Nacional como cidades-gêmeas binacionais, classificação prevista pela Portaria nº 125 de 2014. Dionísio Cerqueira é a única cidade de Santa Catarina nessa lista. Barracão entrou pelo Paraná, e a Argentina, Bernardo de Irigoyen, aparece como contraparte oficial no ato do governo federal brasileiro.

A única esquina do Brasil onde 2 estados e 2 países se encontram
A geografia do lugar é quase improvável. Em uma mesma quadra, começam três jurisdições, duas brasileiras e uma argentina. Dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registram 15.008 habitantes em Dionísio Cerqueira no censo de 2022, com estimativa de 15.316 pessoas em 2025 e altitude de 830 metros.
O cotidiano reflete a fusão: moradores falam português e espanhol na mesma conversa, e os postes elétricos mudam de formato conforme o estado. Redondos, em vermelho e verde, são catarinenses; quadrados, em verde, azul e branco, sinalizam o lado paranaense. No comércio da fronteira, argentinos vão às lojas brasileiras quando o real fica barato, e brasileiros cruzam a rua em busca de vinho e produtos de limpeza quando o câmbio inverte. O Marco Grande, monumento triangular em pedra com as bandeiras dos três países, fixa o ponto exato onde as divisões se encontram.
O parque de 50 mil m² que fez 2 economias conviverem
O projeto do parque foi concebido para transformar a linha de fronteira em espaço urbano vivido em conjunto. A Associação Comercial e Empresarial de Barracão e Dionísio Cerqueira (ASCOAGRIN) detalha que o PTAI tem cerca de 3 mil metros lineares, que somam aproximadamente 50 mil metros quadrados. Desses, 20 mil m² estão em Bernardo de Irigoyen e 30 mil m² se distribuem entre Dionísio Cerqueira e Barracão.
A obra integra a recuperação das nascentes do rio Peperiguaçu, forma um lago binacional e oferece espaços para caminhadas, atividades culturais, esportivas e gastronômicas. O investimento total passou de R$ 10 milhões, com recursos do Governo Federal brasileiro, dos governos de Misiones, Paraná e Santa Catarina, além da prefeitura de Dionísio Cerqueira. Em 2017, o governo do Paraná liberou mais R$ 800 mil para concluir o lado paranaense, conforme registro da Agência Estadual de Notícias do Paraná.
O consórcio internacional que ninguém esperava em cidades pequenas
A governança do parque passa por um arranjo raro. O Consórcio Intermunicipal de Fronteira (CIF) reúne os municípios brasileiros de Dionísio Cerqueira, Barracão e Bom Jesus do Sul com a municipalidade argentina de Bernardo de Irigoyen, dentro do Projeto Fronteras Cooperativas, articulado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE).
O modelo virou objeto de estudo acadêmico e inspirou pesquisas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidad Nacional del Nordeste, na Argentina. O PTAI também é palco do Festival Internacional de Turismo da Fronteira, realizado anualmente, e do festival Fronteira In Concert. Com a vitrine binacional, a região passou a receber turistas interessados em estar nos dois países ao mesmo tempo, sem atravessar rio, passaporte em punho.
Como chegar até o ponto onde você pisa nos dois países?
O acesso principal é por Dionísio Cerqueira, a cerca de 700 km de Florianópolis pela BR-282, e a 180 km de Chapecó. Do Paraná, o ponto de entrada é Barracão, com ligação pela BR-163. Os dois municípios brasileiros têm centros históricos integrados por uma rua só, conhecida localmente como a calçada internacional. Do lado argentino, Bernardo de Irigoyen fica na província de Misiones, a cerca de 470 km de Posadas, capital provincial.
Não há barreira física entre as cidades. A travessia até Bernardo de Irigoyen pode ser feita a pé, e quem sobe a rua sente o asfalto mudar de textura ao cruzar a linha. As temperaturas da região oscilam bastante por conta dos 830 m de altitude, com invernos frios e chuvas distribuídas ao longo do ano, segundo dados do Climatempo. Para quem vai cruzar com veículo, a aduana funciona em prédios vizinhos ao parque, com horários específicos para documentação.
A curiosidade geográfica que vale a viagem
O PTAI é uma daquelas experiências que se explica melhor na prática do que no mapa. Poucos lugares do mundo permitem mudar de país em uma travessia de calçada, sem passaporte na mão, e encontrar três culturas misturadas em um único banco de praça.
Você precisa conhecer Dionísio Cerqueira e caminhar pela calçada partilhada que coloca o Brasil e a Argentina a um passo de distância.














