O Brasil voltou a atrair a atenção do investidor estrangeiro, mesmo sem ter solucionado seus principais desequilíbrios fiscais e institucionais.
A avaliação foi apresentada por Júnia Gama, head de Análise Política do BTG Pactual, durante painel realizado na sede da BlackRock, em Nova York na Brazilian Week, como parte da agenda promovida pelo Money Report e mediada por Aluizio Falcão Filho.
Segundo a analista, o movimento está menos relacionado a uma melhora estrutural da economia brasileira e mais a uma mudança no cenário internacional.
“Existe uma necessidade de diversificação de portfólios tão gigantesca que o dinheiro precisa sair dos Estados Unidos e buscar outros mercados. E o Brasil está sendo visto como um lugar seguro para isso”, afirmou.
A observação foi feita com base nas conversas com investidores durante as reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, em Washington, nas quais ficou evidente o interesse crescente em reduzir a concentração em ativos americanos.
Brasil oferece atributos valorizados pelo investidor
Na avaliação de Júnia, o país reúne características que o tornam particularmente atrativo em um ambiente global mais incerto. Entre elas estão o tamanho do mercado interno, a abundância de recursos naturais, a oferta de energia relativamente barata, a ausência de conflitos geopolíticos relevantes e a existência de capacidade produtiva ociosa.
“O Brasil está muito atrativo para o investidor internacional”, disse.
A combinação desses fatores ajuda a explicar por que o país continua recebendo fluxos, mesmo em um ambiente doméstico marcado por dúvidas fiscais e ruídos políticos.
Lula é um cenário conhecido para o mercado
No campo político, Júnia argumentou que a eleição presidencial de 2026 permanece em aberto, mas que o investidor já trabalha com diferentes cenários.
Na avaliação da analista, um eventual novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é percebido como um cenário conhecido e, portanto, precificável.
“O investidor global olha e pensa: se for Lula, eu já sei como funciona. Sei que o custo de capital pode continuar mais alto, mas é um ambiente cujas regras já são conhecidas.”
Segundo ela, isso reduz o grau de incerteza associado à continuidade do atual governo.
Flávio Bolsonaro é visto como um “Bolsonaro moderado”
Ao discutir o campo da oposição, Júnia destacou o nome do senador Flávio Bolsonaro, que, segundo ela, tenta se apresentar ao mercado como uma versão mais moderada do bolsonarismo.
A estratégia, de acordo com a analista, é sinalizar compromisso com uma agenda econômica mais pragmática, combinando responsabilidade fiscal com algum papel do Estado na área social.
Se essa alternativa se consolidar, o mercado pode enxergar espaço para reancoragem de expectativas, redução do prêmio de risco e queda da taxa básica de juros.
Lula segue competitivo
Apesar do desgaste recente, Júnia afirmou que Lula continua eleitoralmente forte.
“O país cresce em torno de 2%, o desemprego está em níveis historicamente baixos e a renda segue elevada. Do ponto de vista eleitoral, esse não é um ambiente hostil para um presidente.”
Ao mesmo tempo, ela reconheceu que o governo enfrenta um problema de desconexão com parcelas importantes da sociedade, o que limita o efeito de medidas voltadas à recuperação de popularidade.
Congresso atua como contrapeso
A analista também ressaltou o papel do Congresso Nacional como freio institucional à expansão de gastos e à elevação da carga tributária.
“Não há mais espaço político para uma estratégia baseada exclusivamente em aumento de receitas”, afirmou.
Na avaliação de Júnia, a maioria de centro-direita no Legislativo tende a se manter ou até se ampliar após as eleições de 2026.
Brasil no radar do capital global
A principal conclusão do painel é que o Brasil voltou ao radar do capital global por razões que vão além da política doméstica. Em um contexto de reacomodação dos fluxos internacionais, o país combina escala, recursos naturais e estabilidade relativa.
Na visão de Júnia Gama, isso faz com que tanto a continuidade do atual governo quanto uma eventual alternância de poder sejam cenários passíveis de precificação pelo mercado.
Em outras palavras, o Brasil voltou a ser visto como destino relevante para o capital global, não porque tenha resolvido todos os seus problemas, mas porque, em um mundo mais incerto, oferece atributos que poucos mercados emergentes conseguem reunir ao mesmo tempo.
*Este conteúdo faz parte da cobertura especial Brazilian Week 2026 | BM&C News, projeto editorial que acompanha os principais debates sobre o Brasil no radar do capital global.
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